domingo, 31 de maio de 2009

pecinhas para uma tecnologia do afeto, parte 3

"Escrever e escrever. Não escrever apenas informações técnicas. Escrever com amor o mais burocrático dos e-mails. Escrever como quem manda um beijo. Escrever aos amigos considerando-os como tal. Escrever aos amigos sempre. Escrever as três palavras inevitáveis sinceramente. Escrever com honestidade, ainda que isso doa. Escrever. Isso é a tecnologia do afeto." Nina Rosa Sá.
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Na próxima segunda (01/06), o última dia da série de apresentações das Pecinhas para uma tecnologia do afeto. Eu, Nina Rosa Sá, Leo Fressato e Fábia Regina estaremos cena, com quatro dolorosos pequenos monólogos. No nosso aquífero quente, refúgio desse inverno dos espíritos, Wonka Bar (Trajano Reis, 326). Tudo começa às 21h, mas estaremos lá recebendo a todos desde as 19h. Veja também: www.teatroderuido.com.br. Republico o texto que fiz para Nina. Segue.
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Um sapo, um baiacu
Um- Posso pôr meu coração a seus pés.
Dois- Se não sujar meu chão.
Um- Meu coração é limpo.”
(Heiner Müller)
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É um figurino estranho. Ela parece, muito, vestida de si mesma. A máscara que usa é mais louca ainda, é como ela se mascarasse com o próprio rosto.
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Em algum momento do texto, ou durante o texto todo, fica a cargo da atriz, ela deve rezar. É uma reza inédita e inaudível. Física. É uma reza física. Mais se assemelha a uma dança a reza. A reza é assim: Chega de permitir que a memória ocupe o espaço do que dever ser a vida, chega de achar que a dor não vai passar, chega de achar que está sozinho, chega dessa vontade de rever, chega de saudade, chega de saudade, não tenha medo, aceite isso.
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não vou falar que tenho coração
não pra você
pois se aqui estou
é porque estou viva
e se estou viva
é porque tenho coração
e se tenho coração
ele é uma coisa que pulsa
um sapo ou um baiacu
um sapo ou um baiacu são
coisas que pulsam
é por isso que eles dois
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Há um sapo e um baiacu em cena
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são o coração a que me refiro
então, esse coração
ou esse
tanto faz
é um coração que pulsa
sim, pulsa
mas por aqui
a gente gosta de dizer
não que ele pulsa
mas que ele bate
então se bate
bate por quem?
bate por você que tanto venero?
vou dizer que te amo
que te venero
e daí se eu não devia fazer isso?
se te venero
deve ser por você que o meu
sapo, digo, coração bate
mas não
não é por você que o meu
baiacu, digo, coração bate
ele
ou ele
bate por mim
para me manter viva
ele
ou ele
bate para que eu possa continuar
a fazer declarações de veneração
feito essa
na qual você ainda sequer reparou
essa que é só pra você
pra você, pra você
que até o momento parece ignorar
que eu tenho um sapo
um baiacu
um coração em cena
um coração aos teus pés

sábado, 30 de maio de 2009

notas para um livro bonito

aí vai uma coisa que
gosto em mim:
a capacidade de
ser cruel.
e uma coisa que
não gosto em mim:
é que quando
sou cruel com os outros
acabo sendo
cruel comigo.

lançamento do inverno dentro dos tímpanos

Aqui, autografo o Inverno dentro dos tímpanos.
Nessa, recebo o afeto da Nina e da Robertinha.
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Matéria que saiu no Jornal Caiçara, de União da Vitória
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Inverno dentro dos tímpanos é lançado na Confraria - 28/05/2009
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A Fundação de Cultura de União da Vitória em parceria com a Confraria da Cerveja promoveu na noite de quarta-feira, 27, o lançamento do livro Inverno dentro dos tímpanos, do escritor Curitibano Luiz Felipe Leprevost. Aos clientes e convidados que lotaram o bar, foi oferecida a leitura dramática de alguns dos contos do livro. As leituras foram feitas pelo próprio autor, pela atriz curitibana Ciliane Vendruscolo e pela diretora de teatro, Nina Rosa Sá, natural de União da Vitória, colunista de Caiçara e que hoje reside em Curitiba. Para o Diretor Presidente da Fundação de Cultura, Delbrai Augusto Sá, o resultado foi o melhor possível, “primeiro porque o texto de Leprevost é genial, de grande criatividade e ao mesmo tempo, contundente e sensível. Nos faz rir, nos faz chorar e mais do que isso, nos faz refletir”.
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Delbrai também saudou a parceria com a Confraria da Cerveja, dizendo que muito mais que um bar a Confraria é um espaço democrático e alternativo para a disseminação da cultura, e seus freqüentadores são educados e cultos e, como tal, sempre interessados pelas manifestações culturais que lá acontecem. “São biscoitos finos, que agora serão degustados por vocês”, disse Delbrai ao se referir à leitura dos contos que aconteceria a seguir.

balbucios de blues

devo ser algum cristo em suas chagas.
o meu é um coração de búfalo.
a ciranda dos quadris dela giram rápido demais
e pude me acostumar com ânsias de vômito
o amor não é limpo nem cheiroso.
sei que meus beijos funcionam às vezes feito moedores de gritos.
ela é minha garota e está de bruços
suas costas parecem uma aziaga fenda cicatrizando.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

koan do como onde

Aqui estão filosofando o Polaco Thadeu e o Magoo,
o cara que fez a capa do Koan do Como Onde, arte das mais espertas.
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Lembro de quando o mestre Thadeu Wojciechowski começou a sonhar esse livro. Pude ouvir trechos da obra em sua casa, em sua sala, em sua mesa cheia de cervejas e comida farta. Foi assim, no intervalo da inacreditável obra musical que Thadeu ia construindo com Octávio Camargo e Bárbara Kirchner, ele começou a trabalhar com esse lutador de sumô intelectual Saboro Nossuco. Quem diria, foi bem rápido até o livro ficar pronto. E hoje é o primeiro dia do lançamento. Então... ainda dá tempo. Não estou lá na festa porque estou escrevendo essa postagem dormindo (é que não estou acostumado a ficar desde de quarta-feira até hoje acordado desde lá em União da Vitória). E se estou dormindo, só pode ser que o novo livro do Polaco da Barreirinha seja um verdadeiro livro dos sonhos. Sim, porque todo livro que contém profunda sabedoria, e esse Koan do Como Onde contém, todo e qualquer livro assim, é um livro de sonhar a humanidade. Thadeu é um desses caras que sonha a humanidade. E que tipo de humanidade? A melhor, a melhor que há, que pode haver. Há e haverá, porque o sonhos dele são reais. São reais porque a gente ao ler se emociona. É, a gente se emociona porque pensa e ri pra burro, e depois pensa mais, e pensa "como é que pode um talento tão talentoso quanto esse?" E pode, simplesmente pode, é que o talento vai bem com o estudo, com a visão de mundo, com a generosidade, e isso tudo o Thadeu tem no coração. Se você duvida, vai lá no Beto Batata hoje, ainda dá tempo, ou amanhã, e também depois de amanhã. É festa de polaco, gente! Amanhã estarei lá, bem sonhador.
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Na sequência, veja o que o Dante Mendonça escreveu em sua coluna d´O Estado do Paraná.
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Guru da Barreirinha
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Como deve ser numa festa de polaco, o escritor Thadeu Wojciechowski vai lançar durante três dias seguidos seu mais novo livro Koan do Como Onde, assinado por Saboro Nossuco, alter ego de Wojciechowski, o Guru da Barreirinha. Na mistura de rollmops com algodão doce, filosofia e poesia, resta uma saborosa obra salpicada de fino humor.
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Antes que alguém pergunte, Thadeu explica que “Koan”, no Zen-Budismo, é narrativa, diálogo, exposição de questões inacessíves à razão. Um koan famoso pergunta: “Batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?”. Também músico e compositor, com certeza Thadeu Wojciechowski tem várias respostas na ponta da língua, afiada com poesia, para este “koan” de tradição oral.
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Quanto à origem de Saboro Nossuco, o Guru da Barreirinha que se confunde com o próprio Thadeu Wojciechowski, sua sucinta biografia é tibetana: “Para o Dalai Lama, Saboro Nossuco nasceu por obra e graça de um espírito santo zombeteiro. E por causa desta má influência, na infância, foi um verdadeiro capeta. Matava passarinho, soltava balão, fazia malcriação com as menininhas, roubava dinheiro das capelinhas, enfim, tinha mais pecado na alma que população na China. Mas um dia, Dalai Lama não sabe exatamente quando, Saboro sentiu-se bem bonzinho. E virou um amor de pessoa. Hoje no seu modesto templo, situado na Barreirinha, faz verdadeiros milagres para sobreviver”.
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A seguir, alguns ensinamentos oriundos da Barreirinha:
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Jesus vivia com fome:
—Tem pão, mãe?
E Maria sempre lhe dava um belo naco. Jesus pegava e saía correndo que nem louco. Maria ainda o avisava dos perigos, mas Jesus nem dava bola.
À noitinha, quando Jesus voltava para casa, ela perguntava:
— Onde estiveste, filho?
E ele, bocejando: — Por aí, mãe!
E caía duro na cama, dormindo. De manhãzinha, Maria acordava e Jesus já tinha se mandado. Maria punha a mão sobre o coração e rezava por ele, preocupada.
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Um dia, Jesus demorou demais e ela pediu a José que fosse procurá-lo. José, meio a contragosto, foi e encontrou-o no meio do caminho:
— Tua mãe tá preocupada.
— Por quê?
— Ah, sei lá!
— Ela não entende.
— O que, filho?
— Que meu pai me deu novas atribuições.
— Eu?
— Ah, deixa pra lá, pai!
***
— Mestre, dá para tapar o sol do sofrimento com a peneira da felicidade?
— Não é possível.
— Mas a ilusão às vezes faz bem...
— Não é possível.
— Então devemos crer que viver é sofrer?
— Não é possível.
— Mas se nada disso é viável, a morte então é a única saída.
— Não é possível.
— Fiquei confuso, mestre.
— Agora tudo é possível!
***
— Mestre, o que tenho que fazer para me tornar um sábio?
— Quando?
— Agora mesmo, por exemplo.
— Risca a palavra sábio do teu dicionário.
— Risquei, mas não me sinto um sábio.
— Verifica então se nele consta “ignorante”.
— Sim está aqui “aquele que ignora, que não sabe”.
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Assim Mestre Kua Huo passou manhã, tarde e boa parte da noite. Encadeando centenas de palavras, na busca de uma possível resposta para a primeira pergunta de seu discípulo Um Lin que, no outro dia, cedinho, já está batendo na sua porta.
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— Mestre Kua Huo!?
— Sim. Ah és tu, Um Lin! Que desejas?
— Mestre, o que tenho que fazer para não fazer perguntas idiotas?
— Evitar a garubalha.
— ...?
— Vai, pega o dicionário!
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— Mestre, como diferencias um idiota de uma pessoa comum?
— Não diferencio.
— Por que não?
— Tu te tornarias uma pessoa comum.
***
— Mestre, a solidão é um bem ou um mal?
— Neste momento, seria um bem.
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O lançamento de Koan do Como Onde, de Saboro Nossuco (Thadeu Wojciechowski), acontece hoje, amanhã e domingo no Original Beto Batata, na Rua Prof. Brandão, 678. (Editora Bernúncia, 116 páginas, R$ 20).
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Dante Mendonça (29/5/2009)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

União da Vitória, Porto União, meus novos amores

Essa é a estação de União da Vitória, nos anos 1930.
Foto atribuída a Arthur Wischral, do acervo de Nilson Rodrigues.

Gentileza gera gentileza. Foi o que me ficou da noite de ontém. Fizemos um estupendo lançamento na Confraria da Cerveja, não só porque vendi quase todos os exemplares do Inverno dentro dos tímpanos, nem só por causa da comida deliciosa que eles servem na Confraria, nem só graças ao vinho tinto que degustamos até zerar a adega da casa, mas especialmente porque Cili e Nina, quando se apresentaram lendo os contos publicamente, comoveram agudamente a platéia. Nisso encontro a combinação perfeita que produz o bom teatro, ontém ninguém mentiu para ninguém, e por isso foi tão bonito. Todos nos empolgamos muito, de modo que, na sequência da madruga funda, nos dirigimos a Pizzaria Mamma Mia, dessa vez para tocar violão. Aconteceu que ninguém, e eu muito menos, sabia afinar o instrumento. Robertinha e Fernanda então, no fusca bala da Robertinha, foram não sei bem onde conseguir que alguém afinasse o dito cujo de madeira. Certo, daí em diante a cantoria tomou conta de União da Vitória, com destaque para as moças, elas eram várias, embalando o clássico popular Cuitelinho. Tudo muito muito massa. Hoje o dia foi comer bem, coisinhas deliciosas preparadas pela mãe da Nina, Tereza. Andamos bastante pelas cidades, União da Vitória e Porto União, conhecemos as pontes, o mirante com o Iguaçu lá embaixo, as igrejas, a escola onde a Nina estudou, o Cine Teatro Luz, que é uma beleza de templo bem cuidado pela Secretaria de Cultura de União da Vitória. Enfim, o tipo de férias com trabalho que pedi a Deus, tudo por demais prazeroso. É como diz a Nina, se isso não é legal, eu não sei o que é.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

inverno dentro dos tímpanos

Eu, Nina Rosa e Cili estamos em União da Vitória - PR, cidade que vive de mãos dadas com Porto União - SC. O trilho do trem não é o que separa as duas cidades, ao contrário, é sua aliança de casamento. Viemos lançar meu livro Inverno dentro dos tímpanos (Kafka edições). O evento será logo mais às 21 horas, na Confraria da Cerveja, a convite do Delbrai Augusto Sá, o secretário de cultura de União da Vitória, novo e querido amigo. Aqui, correndo as páginas escritas por meu punho dolorido, encontro um personagem chamado Francisco. Simpatizo com sua pessoa, talvez porque ele diz coisas como essas: "Não sou herói. Tenho o estômago embrulhado feito um pacote vazio. Mas cultivo essas musas, bonecas da alvorada." Bem, que seja uma bela festa, um pretesto para a alegria — para isso, afinal de contas, estamos nessa cidade margeada pelo poderoso Rio Iguaçu. Eis a caravana: A Cili veio fazer leitura pública de alguns dos contos, é que quando ela fala neguinho baba. A Nina veio porque é nossa guia, a pessoa que conheci até hoje que melhor combina espírito e razão. Nina faz isso como vestisse peças que teoricamente não combinam mas nela acabam por ser a última moda, se é que você me entende. Já eu, o menos relevante nessa aventura, vim apenas para escrever num e outro exemplar "um abraço do seu novo amigo, L." Mas, quer saber?, na verdade, todos viemos porque adoramos viajar nossa arte.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

notas para um livro bonito

sabia que se
a gente ficar
de dois a três dias
seguidos
sem dormir
a gente pode ver
a luz enferrujar?
é quando o
olho humano
produz uma
espécie de
maresia silenciosa.

pecinhas para uma tecnologia do afeto, parte 2

foto Daniel Starck
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Essa é a Ana Ferreira em cena na semana passada, no projeto (que dá seus primeiros passos) Pecinhas para uma tecnologia do afeto, do nosso Teatro de Ruído. O solo dela se chama Olho humano, e tem direção da Nina Rosa Sá. Naquela noite a Ciliane Vendruscolo também se apresentou, dirigida pela Fábia Regina, com o texto Mulher de Ferro.
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essa foto é da Renata Skrobot e do Leo Fressato, pelo que entendi.

As pecinhas para uma tecnologia do afeto são 11 pequenos monólogos compostos com endereço certo para as atrizes do Teatro de Ruído e algumas outras pessoas queridas, nossas convidadas. Das 11, nessa pequena temporada de estréia do processo, apresentaremos apenas 9 delas. Duas já foram. E então é isso, hoje, a partir das 20 horas, estaremos no Wonka novamente. Com três novos solos executados pelas atrizes kelly Eshima, Emanuelle Sotosky (ambas com direção da Nina Rosa Sá) e Uyara Torrente (dirigida pela Ciliane Vendruscolo). Os textos são todos de minha autoria, e já os publiquei nesse blog, basta passear entre as postagens anteriores que você encontra.
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Também publico aqui esse bonito artigo da inquieta Ana Ferreira. Segue.
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O teatro é necessário - mas não é para todos
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A necessidade não é algo tão objetivo quanto a palavra pretende insinuar. Para sobreviver temos a necessidade de oxigênio, comida e uma temperatura terrestre mediana. Mas a necessidade de sobreviver existe? A que se deve uma existência? Do ponto de vista da natureza, apenas para servir a continuidade do ciclo de existências. Daquele pessoal, à felicidade. Por essa dificílima empreitada, a felicidade, grande parte da humanidade tem brigado há décadas acreditando que doces sonhos são feitos de lágrimas de outros. Uma outra parte, bastante restrita, essa que se envolve com o pensar artístico e é, por isso, privilegiada, sente-se culpada por essa vantagem e passa então a pensar que deve consertar o mundo. Grotowski, em uma palestra no Rio de Janeiro em 1974, já teria dito que ninguém pode mudar a própria vida em busca da felicidade sem que mude a dos outros. Mas também alertou sobre o perigo de se querer transformar o mundo e a impossibilidade de, mesmo em círculos pequenos, modificar a vida como um todo através da arte. “Através da cultura, é verdade, pode-se falar a propósito das modificações do mundo. Através da criação pode-se falar como mudar a vida, as estruturas, a civilização, como tornar o mundo melhor. Mas ‘falar a respeito’ não modifica nada. Lamento”, disse o teatrólogo. Fato é, que o seres humanos encontram a felicidade através de diferentes meios, alguns da religião, outros no contato com os fenômenos naturais, outros na relação com o outro. São formas de entrar em contato com uma essência da vida. Denis Guénoun nos deu a pista sobre de que se trata o teatro: libertar a própria existência para convidar o próximo a libertar a sua. O teatro nos é apresentado então como uma das tentativas de felicidade, como uma forma de tentar o contato com o outro encontrar-se.
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Para Grotowski, a única forma de se relacionar profundamente com outro ser humano é através da verdade. Este é o problema geral da arte: quer-se evitar o ato verdadeiro, substituí-lo por sua imitação perfeita. Mesmo no teatro chamado “de participação” tudo se apresenta banal, a espontaneidade instintiva a que se propõe é extremamente falsa. Foi essa a consciência que começou a surgir em meados do século passado e nos trouxe à exposição do jogo, ato pretendido pelo teatro contemporâneo. Na cena, toda presença é concreta, o ator expõe essa condição e faz dela um instrumento para estabelecer uma relação de sinceridade com o espectador que permita a fruição da ação poética. O representado não é mais a verdade do texto, a verdade do texto teatral é desnudamente poética: a ficção não deve ser servida pelo ator, mas o ator deve, se for o caso, induzir ficções. Se muitas narrativas ainda roçam no imaginário das personagens, não o obedecem mais.
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"Trata-se então de elaborar uma verdade física. Os métodos variam: procura de uma autocolocação de uma interioridade (que, diante do olhar, deve ser conquistada), ou, ao contrário, trabalho da exposição pela exposição, buscando sua eclosão como ostentação no âmbito da verdade. O horizonte é sempre o de uma precisão: do deslocamento, do gesto, do olho, da própria imobilidade. E esta exigência não é representativa, mas apresentativa" (GUÉNOUN, p. 133).
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Portanto a motivação do teatro é a do jogo entre a poesia e a existência. Trata-se de uma arte necessária na medida em que é um meio de busca pela verdade da vida através do contato real com o outro possibilitado pela poética. “O teatro é o jogo deste existir que oferece ao olhar o lançar de um poema. Só o teatro faz isto: só ele lança o poema para diante de nossos olhos, e só ele lança e entrega a integridade de uma existência” (GUÉNOUN, p. 147).
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A questão é que, desde que o teatro decidiu por sua independência do imaginário, perdeu considerável número de público. Denis Guénoun defende que ele se deslocou para as aulas de interpretação, tentativa de se aproximar de uma arte da qual sente distância. Os tantos espectadores potenciais do jogo exposto estariam esperando do ator, que ali liberta sua existência, um convite para em dado momento fazerem o mesmo, para ser parte da ação dramática. Talvez seja essa sua necessidade. Buscar essa troca é, talvez, uma forma de estabelecer uma comunicação mais profunda com aqueles que ali estão e, ainda, de atrair mais pessoas ao teatro. Afinal, querer se agrupar, ser componente de um conjunto, é uma tendência natural da humanidade. Busca-se na ação do outro uma inspiração ou justificativa para a própria. Por mais que soe massacrante, é libertador. Quanto maior a comoção, mais catártico.
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Invoco novamente Grotowski para lembrar que não devemos nos enganar. O que queremos é apenas ser feliz e uma ação teatral verdadeira não garante nada disso. Ela é um meio de tentar, mas não o fim em si. Porém acredito que sua necessidade está exatamente em propor esse caminho. Querer que mais pessoas se integrem, querer espalhar esse bem para o mundo é válido na medida em que novos grupos se unem para tentar um contato com o outro, mais gente tem acesso a essa via de auto-encontro. Está aí a importância de procurar esse espaço que convide o espectador a libertar a própria existência. Mas querer que o teatro tome para si a responsabilidade de ser um remédio para os males da humanidade é querer fazer dele mais uma enganação, mais um produto fácil da cultura de massa que alimente a insaciedade e o vazio do espírito. Se, em alguns séculos passados, o teatro já foi tão popular quanto hoje é o cinema, é porque muitos buscavam nele o puro entretenimento, hoje existente em variedade rápida e fácil. Nem todos estão dispostos a pagar o preço da procura pela felicidade. O teatro, ao menos o teatro de exposição, nunca pertencerá a todos. Porque o teatro não é fácil, como ser feliz também não.
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Ana Ferreira
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Bibliografia:
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Guénoun, Denis. O Teatro é Necessário?. São Paulo: Perspectiva, 2004.
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Palestra proferida por Grotowski em 8 de julho de 1974, no Teatro Nacional de Comédia, Rio de Janeiro. Tradução e transcrição: Yan Michalski. Não publicada.

sábado, 23 de maio de 2009

canções que afagam condenados

Fui lá no blog do Solda e havia essa coisa linda.
Clica aqui e não te arrependerás:
http://www.youtube.com/watch?v=TXXFvcNEtb4

Sentado à beira do caminho
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Eu não posso mais ficar aqui
A esperar!
Que um dia de repente
Você volte para mim...
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Vejo caminhões
E carros apressados
A passar por mim
Estou sentado à beira
De um caminho
Que não tem mais fim...
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Meu olhar se perde na poeira
Dessa estrada triste
Onde a tristeza
E a saudade de você
Ainda existe...
.
Esse sol que queima
No meu rosto
Um resto de esperança
De ao menos ver de perto
O seu olhar
Que eu trago na lembrança...
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Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo
Que eu existo, que eu existo...
.
Vem a chuva, molha o meu rosto
E então eu choro tanto
Minhas lágrimas
E os pingos dessa chuva
Se confundem com o meu pranto...
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Olho prá mim mesmo e procuro
E não encontro nada
Sou um pobre resto de esperança
À beira de uma estrada...
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Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo
Que eu existo, que eu existo...
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Carros, caminhões, poeira
Estrada, tudo, tudo, tudo
Se confunde em minha mente
Minha sombra me acompanha
E vê que eu
Estou morrendo lentamente...
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Só você não vê que eu
Não posso mais
Ficar aqui sozinho
Esperando a vida inteira
Por você Sentado à beira do caminho...
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Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo
Que eu existo, que eu existo...
Roberto e Erasmo Carlos

Jorge Barbosa Filho, o Jorge do Irajá

Certa vez um crítico amigo meu (hoje ele está longe de Curitiba), com o qual geralmente não concordo, disse-me assim: "poeta é quem transforma as trevas em algo admirável, e não o contrário." Quase nunca entendo o que os críticos pretendem com suas máximas. De qualquer forma, parece-me que um poema insuperável como esse do Jorjão funciona como um nó bem dado nas entranhas de qualquer um. Um dia escrevi: quem volta do inferno traz o inferno. Quando canto-declama, Jorge é infernal como uma banda de rock da década de setenta. Quando escreve, ele me lembra o melhor Paul Verlaine, aquele de depois de ter sofrido agudamente com Rimbaud. E hoje é aniversário do Jorge, a rapaziada vai comemorar logo mais no bar Estava Escrito, rua Vicente Machado, 578, Batel. Vai ter show com um bando de maluco da pesada, a partir das 19:30, e segue até a polícia chegar, segundo informa a divulgação do evento. Aí vai o poema do cara.
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meu anjo da guarda
me pegou cagando
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meu flato fanho assobia
uma melodia gasosa
com suas flores amorfas.
e em sua epifania
(nem de ontem ou agora),
a gula viva de outrora
anuncia minha intestina
agonia infinita.
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véspera de hecatombes
onde, entre os homens,
borbulho o que sinto
e invejoso me vingo
de seus horizontes.
o ar de suas alegrias, definho
sem jeito, como ou aonde,
solto mil bois divinos.
.
infesto a eternidade
com odor duvidoso
de tênue bondade,
mas cobiço as beldades
e os tesouros dos outros.
quando pensam que dôo
a lei da gravidade,
flutuo, explodo,
.
espalho meus vícios
por todos os poros
e se a alma expio,
relaxo com reforços.
se existe o difícil
(é disto que eu gosto),
desloco o impossível
por isto me borro.
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a comédia divina
percorre minhas vísceras
em onírica soberba.
como reza a bíblia,
sem eira e nem beira,
da cósmica poeira chega
e fina o que se destina,
a merda em suas bigas
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no cu do mundo,
na casa do orvalho,
o jardim das delícias, fundo
e afundo no ato falho,
alhos com bugalhos.
meu desejo confundo
ao todo confuso,
lúbrico no sanitário
.
esqueço onde estava
e pelo espaço errando,
caíram minhas máscaras
no vaso urrando
só, na ira, não podia nada,
isto foi quando
meu anjo da guarda
me pegou cagando.
Jorge Barbosa Filho

quinta-feira, 21 de maio de 2009

fragmento de uma minha novela ainda sem título

Olho fixo para o relógio na parede, esse objeto deslocado de meus dias digitais, antigo sobrevivente. Respiro fundo. Minha respiração voa o passado. O relógio enruga as sobrancelhas. Em comunhão com o seu tempo franzido rememoro a infância. É como se eu contemplasse a paisagem daqueles anos ainda intacta em algum lugar, mesmo sem poder domá-la. Lá estamos eu e meus primos descendo uma ladeira com nossos carrinhos de rolamento. Nossa corrida não aponta perdedores nem vitoriosos, os rolamentos trepidam o asfalto. O Tempo feito as rodas de aço gira em torno de si mesmo, renova-se, não se gasta. Para as crianças que éramos nos carrinhos de rolimã não havia destino, apenas a necessidade de frear em algum momento. Para as crianças que fomos as tardes não estremeciam entre bússolas. A isso chamo estilo de vida, pois a memória é minha, mas não é minha. É, a memória, daqueles diques, daqueles interstícios agarrados por mofo. Porém é ela, a memória, que mentindo (falsificadora), remete-se as minhas mais escondidas verdades. Pois que à memória (falsificadora) falta a capacidade maligna da mentira, embora não do mentido, do fabulado. Nisso, impõe-se o paradoxo: a memória mente para não mentir, e não mente para mentir. Não sei se me conto bem, que contar sempre é pouco ou quase nada, e a memória só não é mesquinha com as miudezas. Sim, e mesmo em tais insignificâncias falta à memória precisão, mas não a urgência das frinchas do precisado. Ocorre que ela não vai, a memória, como a água, fluída ou empoçada. Nem como que estourada feito a luz. Pode que funcione igual a um espelho ao mesmo tempo enorme e estilhaçado. Grãos de alguma coisa indefinível, senão que por fagulhas. Dos estilhaços não se enxerga o todo da superfície, tampouco o fundo deles. Necessita que se penetre o espelho, para que lá nos abismos (talvez) possa nos apalpar o nosso avesso, e não nós a ele. Ainda assim são prenúncios, mas não prenúncios, senão que prenúncios sós. Olha-se para cada pedaço isoladamente, um a cada vez, estilhaçados que somos por trajetos da existência, na medida que mais vivemos se mais nos dividimos. Procurar as galerias da memória é ir onde somos mínimos, ínfimos e sem comparação. Eu deveria me lembrar com nitidez, mas não acontece assim.

canções que afagam condenados

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Minha mulher
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Quem vê assim pensa que você é muito minha filha
Mas na verdade você é bem mais minha mãe
Meu bichinho bonito
Meu bichinho bonito
Meu bichinho bonito
Tudo é mesmo muito grande assim
Porque Deus quer
Minha mulher
Minha mulher
Minha mulher
Quem vê assim pensa que você é muito minha filha
Mas na verdade você é bem mais minha mãe
Meu bichinho bonito
Meu bichinho bonito
Tudo é mesmo muito grande assim
Porque Deus quer
Minha mulher
Minha mulher
Minha mulher
Quando eu for velho
Quando eu for velhinho
Bem velhinho
Como seremos?
Como serei?
Como será?
Meu bichinho bonito
Meu bichinho bonito
Meu bichinho bonito
Tudo é mesmo muito grande assim
Porque Deus quer
Minha mulher
Minha mulher
Minha mulher.
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Caetano Veloso
álbum Jóia

fernando koproski

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Lançamento do livro NUNCA SEREMOS TÃO FELIZES COMO AGORA, de Fernando Koproski, nessa quinta-feira (21 de maio), a partir das 19:30, na Livrarias Curitiba do Shopping Estação.
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Taí um motivo de felicidade para aqueles que gostam de poesia. Koproski tem uma voz sensibilíssima, que vai onde ninguém toca. Sua suavidade é mais impactante que um elefante caindo do sétimo andar. Diga em voz alta um poema dele e você sentirá o corpo querendo sair do chão, e nisso não vai nada místico, é o poder da linguagem bem combinado com a emoção. Alguns sabem fazer, Koproski é um desses. Saca só um fragmento do livro Nunca seremos tão felizes como agora:
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um poeta deve morrer
sem músicas de musas
ao te ver dormir nua
um poeta deve morrer
todas as mortes do sol
no meio das coxas da lua
.
um poeta deve morrer
porque toda forma
de amar ainda é pouco
e a sua alma já cansou
de tanto se suicidar
no mesmo corpo
Fernando Koproski.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

notas para um livro bonito

há paredes
mas são
pré-escombros.

domingo, 17 de maio de 2009

somos o teatro de ruído e viemos cantar em seus ouvidos

Pecinhas para uma tecnologia do afeto, com Teatro de Rudído
Dentro da programação Segundas Experimentais, do Wonka, dia 18, 21 horas.
Textos Luiz Felipe Leprevost.
Sala Vip, com Ciliane Vendruscolo, direção Fábia Regina.
Olho Humano, com Ana Ferreira, direção Nina Rosa Sá.
Discotecagem Nina Rosa.
E mais: outras cenas dia 25/05 (parte 2) e 01/06 (parte 3).

sexta-feira, 15 de maio de 2009

engatinhando na blogosfera

Pessoal, tô aprendendo a linkar outros blogs aqui. Tenham paciência com esse dinossauro, aos poucos o espaço será dos amigos e amigas. Beijos a todos e a todas.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

balbucios de blues

isso é pra você que é um desses caras
fumando o último cigarro do maço
antes de atravessar a
Rua dos Pinguins Tristonhos.
é pra você que insiste esquecer o guarda-chuva
só pra ter a esperança de um dia voltar atrás.
é pra você que come cheeseburguers com
recheio de neve e catchup
esperando a noite chegar
num banco qualquer de
uma praça chamada No Meio do Nada.
é pra você que cruza a Rodovia do Café
dentro de um ônibus
voltando da Cidade Industrial por
volta das 23:45, carregando uma
sacolinha cheia de desilusão.
é pra você que é aí das quebradas e
tem o tórax inchado e
os olhos melados ganindo pra lua com
intervalos peripatéticos de tosse.
é pra você que espera os créditos acabarem
antes de sair do filme.
isso é pra você em quem os
analgésico não fazem mais efeito.

viva o mestre plinio marcos, viva o ator


O ator
Por mais que as cruentas inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida. Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tira-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquieta-lo e comove-lo para as lutas comuns da libertação. Os atores têm esse Dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse Dom. Por isso o artista do teatro é o ator. O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de suas personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem. Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos – é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.
Plinio Marcos

quarta-feira, 13 de maio de 2009

voadouros


notas para um livro bonito

vamos chamar assim:
ela é uma metáfora que
adoece aqui comigo.
devo admitir, não servi para
degolar a sua nem a minha solidão.
não é de hoje que
vou até o fundo verificar quanto é
silente e silenciosa a
falta, essa musa do não.
é ela, não você, é a falta que
joga na minha cara
por birra, ou porque é burra
ou por essência, não sei
sei que esmurra meu rosto com
esses destroços de algo que
não acaba só porque já acabou.
salvo-me apenas
porque conheço o
gosto das lágrimas antes
delas se poluírem publicamente e
meu rosto virar um
abismo mastigador de
negros morcegos-bem-te-vis
de metralhados-mimimis
de adocicados diz que diz.
eu sei, fomos alegres destruindo.
estávamos juntos
mas a solidão já nos rondava.
está bem óbvio para mim
aquela alegria era
uma espécie de falta
com maquiagem de palhaço.

meu sonho é participar de um filme de pedro almodóvar

Entrevista com Vovó Burroughs, a mal-morrida (3)
Nas épocas em que ficava internada eu me rebaixava para conseguir qualquer coisa. Mas eles não cediam, eram severos comigo. Fui internada logo após uma das minhas irmãs ser violentada pelo marido. Presenciei tudo, sabe? Ela foi espancada. Eu, que já vinha definhando, degringolei. Fiquei em estado de choque por meses, a ponto de me mijar de medo enquanto tentava dormir. Isso que aconteceu com minha irmã traumatizou todas nós. Acabou com meu pai. Foi a gota d´água para o câncer da mamãe. O negócio de violência contra a mulher sempre foi muito sério. Tem essas gurias que aceitam. Passam maquiagem e tocam a vida. Minha irmã fez exatamente isso. Parecia que eu estava sofrendo mais do que ela. Tem aquela frase clássica do Jack London: “O Homem é o único animal que se diferencia dos demais por agredir as suas fêmeas.” Para ser bem sincera com você, não acho mesmo muita graça em piadinhas machistas. No entanto não me iludo. Não mais. A verdade é que a maioria dos homens tem em si alguma boa dose de misoginia. O negócio é que o cara começa com brincadeirinhas. Tapinhas na bunda. Puxãozinho de cabelo. De repente já está te enchendo de porrada. Lembra? Não teve aquele estudante, em 89, que entrou armado numa Faculdade de Montreal berrando que ia acertar só as mulheres, as feministas, lembra disso? Quatorze gurias se fuderam. Na Etiópia teve um caso pavoroso. Um valentão psicopata jogou ácido no rosto de uma guria que ele assediava há 4 anos. Ela não quis nada com o batente, aí o filho da puta jogou ácido no rosto dela. Ah, essas atrocidades a gente fica sabendo na Internet. Eu não saio do Google. Leio tudo lá. Queimei minha biblioteca toda. Agora é só no Google. É uma barbaridade o que a gente sabe pela Internet. É por essas e outras que eu já quase arranquei o pau de um idiota com o dente. Tá pensando o quê? Ah, eu tinha essa mania de trepar com qualquer um. Um bando de bêbados. Eu dava porque o cara tinha publicado um livro. Porque outro era pintor de quadros expressionistas. Sabia que um dia eu ia me ferrar para chuchu. Sabia que ia. E me ferrei, né? Dei para toda uma geração de artistas aqui da cidade. O Danton pode ser um gênio, mas é péssimo de cama. Mas não é violento, não é. Isso não. A verdade é que o Vampirão é uma flor de pessoa. Mas o problema da minha irmã, né. Então, bem antes disso acontecer com ela, sei lá, quando eu tinha uns 5/6 anos, uma vez escutei o meu pai comentar, na hora do jantar, que uma guria tinha ficado grávida. Só que o sujeito que engravidou ela não podia assumir. Não sei, acho que era casado com outra. Típico, né? Só que aí o cara começou a chutar a mulher. Primeiro puto, numa reação de ignorante. Só que o moço foi tomando gosto pela coisa. Claro, devia ser um reprimido de primeira. Foi enfiando o pé. Chute na barriga dela. Bateu tanto que a guria não agüentou e morreu. Eu tinha de 5 para 6 anos. E lembro da história até hoje. A minha mãe foi vomitar no banheiro. Acho que ela fez uma projeção, entende? Se projetou na guria. Porque minha mãe tinha culpa no cartório. Ela batia em mim e nas minhas irmãs. Soubemos mais tarde que ela batia na gente porque ela traia meu pai. Quer dizer, isso é uma visão minha, meio psicanalítica, entende? Mas nesses casos o Dr. Freud estava certo mesmo. Tudo que é de fundo sexual pode ser monstruoso. É a porra da culpa que as religiões ocidentais incutem na nossa cabeça. É curioso, né? A minha mãe puta enrustida trair meu pai corretíssimo. Eu achei que nunca veria. Como achei que não veria minha irmã no estado em que vi. Achava que aquilo era coisa de mafioso italiano nos EUA. Mas eu vi, minha irmã lá, em estado de choque. As roupas todas rasgadas. Sangue nas coxas. Parecia uma morta dos filmes do Brian De Palma. O sujeito, um comerciante rico da cidade, dizia que ela mereceu. Que tinha pedido. Que tinha sido decorrência de seus atos vulgares. Antes ela tinha um anel de noivado. E acabou com um problema no maxilar que durou anos. É claro que é legal o cara ter ciúme de você. O que eu não suporto são esses malucos. Igual aquele de uma novela aí já meio antiga, lembra? O moço andava para cima e para baixo com uma raquete de tênis. Surrava a guria com uma raquete de tênis. É aquele ator brasileiro parecido com o Tom Hanks, lembra dele? Mas ó, não me confunda. Não sou uma dessas feministas pentelhas. Eu acho que mulher não tem que ser feminista. Tem que ser feminina. Tem que ser mulher para chuchu, entende? Agora estão vindo com essa, que ciúme é agressão contra a mulher. Eu não concordo com isso. Acho ciúme bom. Até aqueles famosos tapinhas. As pessoas têm que entender que paranóia é uma coisa, ciúme é outra. Isso são assuntos que eu tive que superar. Eu já fui violentada. Só que na época eu nem sabia. Eu estava tão ferrada, ferrada para chuchu, que para mim aquilo era normal. Foi preciso muito amor para superar. E eu superei, tá pensando o quê? Nossa, quando eu lembro. Cê sabe como as coisas são: Quanto mais na lama você fica, mais na lama você quer ficar. Eu tinha caído na esbórnia radicalmente. Só lidava com a escória. Só freqüentava lugares falidos, sujos. Cheguei num ponto em que tava morando em fábricas abandonadas. Lugares demolidos, que eram lugar nenhum. Isso ajudou a matar o papai. Para mim é óbvio. Vou carregar essa culpa para o caixão comigo. É a única coisa que eu não perdoei em mim. Ter sido responsável, mesmo que em parte, pela morte do meu pai, isso é insuperável. Sei que eu estava magra, caquética, ratazana com olheiras, entende? Tudo que ouvia de quem pedia ajuda era um cala a boca, vaca, e chupa. Tiravam o pau para fora. E eu chupava da melhor forma que conseguia. Passava a língua na cabeça. Chupava as bolas. Engolia o máximo que conseguia. Respirava ofegando. Depois eles botavam no meu cu. Minhas unhas quase furavam a parede onde me apoiava. Sentia muita dor. Eu não tinha mais um corpo. Nada em mim me pertencia mais. Não sabia quem era aquela refletida nas vitrines. Uma bruxa na frente do espelho. Eu não me reconhecia, entende? Um rosto de caveira. Um olhar sem história, exalando medo. Tinha virado uma magra ratazana faminta. Branquela e marcada. O pescoço inchado. Arranhões e hematomas por todo o corpo. Os peitos clivados, uma vala de esgoto. E nessa altura a minha irmã já estava recuperada, freqüentado o Café das Belas Artes. Amiga íntima de toda aquela turma. Sabia que ela até chegou a publicar um conto dela na Joaquim? E eu, a escritora da casa, na rua, fazendo o que os maloqueiros viciados mandavam. Sempre depois da putaria, que só acontecia quando estava muito bêbada, eu me encolhia num canto. Chorava. Dividida entre choro e vômito. Passava a mão por dentro da coxa. Sangue. Escorria sangue. E a porra deles, aquela gosma misturada. Meu estômago era uma esponja seca. Perambulava semi-nua para lá e para cá. Suja, melecada, podre. Tentava me esconder dentro daqueles panos mínimos. A calcinha empoçada. Mesmo um William Burroughs sentiria pena de mim. Só citei ele porque temos o mesmo sobrenome, mas não temos nada que ver um com o outro, quando muito talvez pelo fato de eu parecer uma personagem de seus livros. Só isso. Da primeira vez que fui internada papai estava confiante que eu ia melhorar. Na clínica me desintoxicaram e trataram das doenças venéreas. Só que na base do choque, né? Isso te assusta? Espero que sim. Isso não é literatura, apesar do Burroughs. Foi desse jeito mesmo que aconteceu. Nessa cidadezinha de merda eu sou a personagem descalça, entende? Sem calcinha. Sem papas na língua. O anjo falido. Veja, sou uma velha imbecil, que ainda não aprendeu a ficar com as pernas fechadas. Só uma velha decadente ficaria assim diante de alguém que não vê mais nada nessa velha do que exatamente uma velha imbecil e inescrupulosa, não é mesmo? Você quer saber, né? É isso. O que mais você quer saber? Que eu acordo há mais de 30 anos pontualmente às 14:14. Que se eu não faço minhas abluções até às 16 horas, não consigo fazer mais nada. E devo confessar que são raros os dias em que consigo acabar minhas abluções antes das 16 horas. Em resumo, nunca faço nada dos meus dias, excetuando as abluções, não é mesmo? E a Internet, claro. A bendita Internet. Bem, todo mundo está careca de saber que o sol não é muito meu amigo. O que mais?

paulo sandrini de blog no pedaço


http://paulosandrini.blogspot.com/. Esse aí da foto é o Paulo Sandrini, autor dos inacreditáveis O estranho hábito de dormir em pé, Códice d’incríveis objetos & histórias de lebensraum e Osculum Obscenum (esse último pela Kafka edições, coleção antena). Olha que boa notícia ele deu aqui nos comentários da minha postagem anterior. Como não atender a um chamado desses? Quem nunca leu o que esse rapaz escreve, ainda não leu nada. Tudo bem, deve até ter lido alguma coisa, mas na geração do Sandrônicos é duro de bater a mão inventiva que ele tem, de traços e rasgos que deslocam a realidade a todo momento. Duvida? Vai lá, vai lá, vai lá. Por enquanto copio e colo por aqui um pequeno fragmento de uma sua novela.
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Acelero mais. Subo ainda mais alto. Perto do céu azulado. Violeta. Vento e areia na boca. No nariz. Nos olhos. Nada do branco. Tudo ocre. Caramelo. Grude que me aprisiona feito mosca no melado. Meu deserto é doce. Às vezes, acre.
Paulo Sandrini

terça-feira, 12 de maio de 2009

marcelo brum lemos

No blog da Bárbara Kirchner, o http://curitibaneando.wordpress.com, tenho lido com certa frequência, na verdade menos do que eu gostaria, não que eu não vá lá todo santo dia, mas, em resumo, tenho lido lá no blog da Bárbara Kirchner, o http://curitibaneando.wordpress.com, tenho lido lá os contos do Marcelo Brum Lemos e, cara, eu acho bom pra caramba, são tão irônicos e leves, e com uma rebeldia tão entranhada numa forma de humor nonsense, ah, sei lá, veja aí que coisinha mais direita (esse direita aqui não tem nada que ver com apelos políticos, caralho!).
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FanTASmas
Fantasmas vieram cantar no convés! Que ódio! Bem no meio da noite! Bem durante a tempestade! Por que será da natureza dos fantasmas virem cantar à noite no meio da tempestade? Pois: Ódio! Vesti o roupão e saí com um espanador de pó à mão. (Não sabiam? Espantam-se fantasmas desta forma, agitando com força um espanador de pó enquanto a outra mão segura o lampião…). Assim que me viram, empalideceram, apavoraram-se, debateram-se uns nos outros os pobres fantasmas. Eram uns trinta, tempestuava muito. Alguns perderam o norte e deixaram enlouquecer os seus sistemas navegantes ectoplasmáticos. Outros atiraram-se ao mar. Outros subiram tão alto que as cabeças bateram nas nuvens, e ficaram tontos. O céu amoleceu. Apanhei apenas um, pelo pescoço do lençol. Dei-lhe três socos e ele caiu, inerte…Foi só quando a tormenta secou é que eu pude ver. E vi: um fantasma sangrava branco!
Marcelo Brum Lemos

notas para um livro bonito

não interessa o que será o futuro.
sei que nesse momento
um mosquito light me acerta
na panturrilha.
deixo que beba meu sangue e
vá embora inchado.
poderia tê-lo esmagado
mas quis ver até onde ele iria.
não vou me arranhar
quero estudar o desconforto
até não mais aguentar.
igualmente toleráveis
talvez sejam
as invisíveis lesões
o veneno do passado.
que também são um alívio
por serem assim
assim, passado.
mas quem disse que
busco obter alívio?
a natureza nunca está parada.
a dor funciona feito uma parede
com infiltração
um comichão a percorrer as veias.
o silêncio lateja
e não deixa hematomas.
se o mosquito tivesse bebido
um pouco mais de sangue
poderia ter estourado
mas ele soube a hora de parar
embora a natureza nunca pare.
e o futuro...? bem
o futuro é a vontade de coçar.

domingo, 10 de maio de 2009

a nave não tem gosto de algodão doce

Fragmento da minha novela A neve não tem gosto de algodão doce
.
Dou outra olhadela no espelho, a última, antes de sair do banheiro. Sei que construo de mim alguém que poderia ser chamado Solidão. E a meu ver tudo isso é menos que diabólico, menos que angelical. Devo ser um personagem que ficará no meio do caminho. As medidas daquilo que invento estão em meu punho doído, na força que os dedos têm de fazer para manter a caneta correndo no papel. As que estão ali em minha frente certamente são as feições da tristeza. Penso: Admita, paspalho, admita que você aprendeu direitinho a mimese da tristeza. Você é um canastrão, o melhor papel que faz é o de macho condoído. Todas as ausências de caras-e-bocas, todas as faltas de entusiasmo se assiste em tua cara. Nem essa overdose de inconsciência te salva. Você é um cachorro, um dog, dos mais desprezíveis, você e tua cara de carente profissional, abanando o rabo para primeira garotinha um pouco esperta que aparece na tua frente. Agora me pergunto se cachorros morrem de amor. Não, cachorros não morrem de amor. Cachorros morrem atropelados. Morrem da falta de ração. Mas não morrem, não mesmo, de amor. Se ao menos eu fosse um cachorrão fodedor, teria uma mandíbula temida e desejada. Deixaria minha marca indelével em cicatrizes eternas.

fernanda d´umbra

ficar sentada
em casa, com o quarto em pedaços
numa casa onde mora um menino de 14 anos
que sou eu, que bagunço tudo em segundos
ficar quieta, quase morrer de vontade de ver
um filme engraçado (pode ser esse, que é engraçado?)
e depois correr na cozinha porque acho que já ferveu
nada me interessa mais do que andar de novo
na calçada velha do centro, prevendo buracos antigos
na calçada que aponta para a direita, onde meu coração
discutiu com meu cérebro e elegeu meu fígado para
cuidar de você, que sou eu do lado de fora da festa
Fernanda D´Umbra

alice sant´anna

dois irmãos
não sei qual força mantém
as montanhas firmes
(talvez se olharmos
com muita atenção é capaz
de flagrarmos
uma leve respiração
um suspiro)
só sei que à noite,
quando o escuro
não se preocupa em contornar
os morros, esses gigantesse mexem um dedinho
para o lado – as pedras
também têm seus caprichos
Alice Sant´Anna

bruna beber

paraquedistas
escrever é dedicar
os dedos à marcenaria
de qualquer jardim
.
desatamos as mãos
e a tontura que dá
vem do alto
.
o cair das nuvens folhas
passarinho avião papel
picado a lua no mar
.
silêncio de planta, euforia
de cama elástica, alegria
de piquiniqui no parque
.
e tanto carinho
guardo pra você
numa luva de boxe.
Bruna Beber

ana guadalupe

aspen
olhando por esse lado
eles nunca mais
vão viver juntos
num quarto cheio
de mosquitos
atraídos pelas latas
de feijão debaixo
do armário
eles não vão
nem morrer junto
se isso não é
o fim do mundo
é só um desperdício
que tarde ou cedo
ela morra em silêncio
ou ele
ao contrário
nos vazios civilizados
das escadas rolantes
ou antes
engasgados com café
na área de serviço
Ana Guadalupe

luana vignon

22:46
deixo de lado a carapaça de moça-mãe-trabalhadeira
permito-me algumas doses de conhaque e nick cave
baladas assassinas
isso me faz um bem indescritível
deixo pra depois o sono protocolar dos operários
estou em guerra
embora siga em frente sem sobressaltos
a paz é um grande blefe
a felicidade é um gigante com asas de drosófila
atravesso a noite lendo poemas de gente viva
embora byron também seja muito bom no que faz
ou no que fez
ando preferindo sangue correndo dentro das veias
Luana Vignon

sábado, 9 de maio de 2009

notas para um livro bonito

sempre achei que
o melhor amigo do homem
é o radinho de pilha
muito mais que o cachorro.
de todo modo
um coração chiando
se assemelha muito
a um cão carente que
entre dentes choraminga.
às vezes um radinho de pilha
preenche o quarto.
noutras vezes a pilha acaba.


*porque, apesar de tudo, desejo que o show de hoje, lá no interior do meu país, seja a coisa mais linda acontecendo no Universo.

viva o mestre jaques brand

foto Albert Nane
Estou numa falta danada com o mais que amigo Jaques Brand, que está na Europa faz alguns meses. Não tenho conseguido responder seus e-mails com o cuidado e carinho que ele merece. Tem anos que dialogamos urgentemente em relação as mais complexas questões da vida, significativos acontecimentos etc, porém sem jamais ignorar o que existe de pequenino, de quase não percebido em tudo o que nos cerca. De um dos inúmeros e-mails que até hoje trocamos acabo de destacar essa pérola, enviada por ele em 19/10/07, que vai muitíssimo bem com a aventura desse garoto entusiasmado com a vida, que hoje, do alto de sua sabedoria, corre o mundão velho com a mala sem peso.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
compreendi que nem o meu corpo me pertence, que eu tô aqui morando nele de favor, que um princípio supremo (Krishna?) quer que eu viva a plenitude, uma verdade mais natural e menos semiótica, sacumé? Saúde total, carinho até com as formigas, e ao mesmo tempo com a espada de São Jorge pra ferir o dragão.
Jaques Brand

sexta-feira, 8 de maio de 2009

meu sonho é participar de um filme de pedro almodóvar

Entrevista com Vovó Burroughs, a mal-morrida (2)
Não, não foi nada disso. Alguém me disse: Teu pai te mimava, guriazinha, com treze anos você tinha de tudo. É mentira, meu pai não me mimava porra nenhuma. Só que a tosse do meu pai era reconfortante. Por mais que eu soubesse que era tuberculose o que ele tinha. Naquele tempo as pessoas tinham doenças assim, tuberculose, sífilis. Preferia que ele tivesse tido sífilis, mas papai era corretíssimo. Era um médico excelente. Da minha mãe eu lembro pouco, ela dançando nos aniversários das minhas irmãs. É, eu não gostava de ver minha mãe dançar, dava como que uma vergonha. E eu não gostava muito também das minhas irmãs. Para mim, na minha cabeça, eu não tive irmã nenhuma. Cê sabia que meu pai nunca usou camisa de mangas curtas? Acredita? Meu pai era corretíssimo. Da mamãe quase não lembro. Ela dançava nas festas, gostava de música. Tocava um pouco de piano. Eu? Nunca consegui. Me enfiaram na aula de piano. Queriam que eu dançasse balé. Nunca tive saco para essa frescurada. Mamãe era um nojo. Viciada em baralho, perdia um dinheirão jogando baralho. Metida a chique. Tomava chá com as amigas toda terça e quinta. Teve câncer, morreu de câncer. Não fui capaz de chorar no enterro dela. Para ser sincera, nunca senti falta da minha mãe. Não sei, mas acho que até hoje não superei, não a sua morte, mas o fato de não ter sofrido com sua morte. Mas nessa altura do campeonato, o que é que importa? Se tiver céu ou inferno, aposto que mamãe vai estar lá me esperando em algum deles. Porque é claro que o engraçadinho do Senhor vai me mandar para o mesmo lugar que minha mãe, ele não vai querer me ver morta e tranquila, não mesmo. Ok, vou preparada. Seja o que tiver que ser, não é mesmo? É como eu estava dizendo, papai era um excelente médico. Corretíssimo. Amoroso, sabe? Veio do Nortão Pioneiro. Um piazinho órfão. Trabalhava numa fazenda de soja. Aí resolveu vir para cidade estudar. Diz que passou fome e o diabo, aquelas merdas que acontecem até hoje com aviltante número de pessoas. Foi amigo de toda essa gente aí o papai. Os escritores simbolistas. Era, era conviva lá do Instituto Neo-Pitagórico. Eu? Já nasci em Curitiba, né? Na Maternidade Nossa Senhora de Fátima. Não. É mentira mesmo, meu pai não me mimava. Não era super-protetor porcaria nenhuma. Eu é que não puxei por ele, digo, em relação a medicina. Eu queria ser uma humanista. Salvar tudo e todos. Essa merda de mundo. Depois desisti. Desisti logo. Minhas irmãs viraram tudo umas dondocas. Umas putinhas de luxo da aristocracia. Eu fui ser escritora. Não que eu quisesse exatamente, mas aconteceu. Fazer o quê, não é mesmo? A vida. A vida. Sei lá. Só sei que quando vi já tinha preenchido um caderno inteiro. Eu escrevia muito mesmo. Era para valer a coisa. Comprava caderno e caneta e pimba. Falava basicamente mal de Deus. As freiras do Sacré-Coeur ficavam loucas. Uma droga de escola, era o que eu achava na época. Não que fosse uma droga mesmo, mas era o que eu achava, poxa vida. A gente era obrigada a estudar lá. Toda filha de pais corretíssimos estudava lá. Viramos todas umas prostitutinhas enrustidas. Umas neuróticas. E um punhado de lésbicas também. Claro, foi ficando na moda. Poesia francesa. Aqueles simbolistas pederastas. Eu queria ser o Rimbaud, entende? A cabeça dá um treco. Dá-lhe falar mal de Deus. As madres se escandalizavam. Chamaram meu pai e tudo para conversar. Mais de uma vez. Não lembro se minha mãe ia junto ou não. Acho que não, sei lá. Não sei não. Sinceramente, acho que as freiras se chupavam a noite inteira. Sério. Não todas, obviamente. Não estou querendo aqui falar do que não sei, mas do que desconfiava na época. É que teve uma vez que entrei no banheiro e estava uma lá se lavando. Toda peluda. Elas não se depilavam. Pelo menos não aquela. Acho mesmo que elas não tomavam banho direito. Umas fediam mesmo. Pois é. E eu fazia meus poeminhas inofensivos. E elas dá-lhe bradar contra e amaldiçoar meus poeminhas inofensivos. Como é que pode, a filha de um homem corretíssimo como o seu pai, um médico ilustre, um humanista, e a filha escrevendo cada coisa dessas!? Fodam-se, eu pensava. Fodam-se aquelas sapatonas. E além do mais, nunca achei que meu pai fosse um humanista. Corretíssimo, isso ele era, mas humanista não. A minha mãe? Não falava nada. Só descia a cinta. Me colocava de castigo. Essas merdas que mãe faz com filha rebelde. É, eu era avançadinha. Por causa desse meu temperamento me ferrei para chuchu. Mas também tive bons momentos. Cê veja, fiquei velha e continuo escrevendo mal de Deus. No meu mais recente poema, que saiu naquela revista do... Como é mesmo o nome daquele editor aqui da...? Não importa. Pois veja as bobagens que andei jogando lá. Eu entendo que existem carboidratos do bem e carboidratos malvados, não é? Então fiz essa oração: Que Deus te proteja das gorduras trans, do bacon, do Baconzitos e de todas aquelas merdas da Elma Chips, das batatinhas fritas do Mac, e do Big Mac, e do Funcionário do Mês. Deus te proteja. Esse querido Deus parceiro da Sandall fator 30. Esse Deus inimigo dos raios ultra violeta. Inimigo dos canos de escape dos caminhões da Ford. Esse Deus maravilhoso, botânico da Boticário. Parceiro dos condicionadores de cabelo. Esse Deus feito à imagem e semelhança do Brad Pitt. Sócio investidor das mais bem equipadas academias de musculação, de fitness. Sócio investidor das clínicas de estética. Prestador de consultorias para fabricantes de antiácidos e anfetaminas. Esse Deus da Vitamina C, D, E, K, A, B, B1, B2, B12. Esse da Aspirina. Do sabonete Phebo. Das lâminas da Gillette. Do Polvilho Anticéptico Granado. Que esse Deus, que amamos, me proteja e te proteja de sarnas e micoses. De artrites, alzheimers e artéria esclerose. Obrigada Deus. E assim é a minha oraçãozinha. Mas estou falando com esse Deus, digamos, esse Deus bem específico. Ah, tem uma segunda parte. É assim: Obrigado Deus pelo aparelho nos dentes, pelas lentes de contato, pelas botinhas ortopédicas, e por essas maravilhosas próteses. Enfim, é isso o poema. Agora, a quem diga que estou gagá. Me diga você, estou gagá? Quer saber?, se naquela época existisse rock´n roll por aqui, eu tinha sido a Amy Winehouse, entende? Não. O negócio é que eu era da pá virada mesmo, desde pequena. E a minha mãe era de me surrar também desde que eu era pequenininha. Meu pai não, nunca me bateu. Queria conversar. Eu me abria com ele. O velho era culto. Um positivista. Um, vou ser boazinha, semi-humanista. Não pense você que tinha Friedrich Nietzche por aqui naquela época. Era pouca gente que estava antenada. Aquela coisa de raiz e radar, sabe? O meu pai, coitado, era católico praticante, você sabe como é que é. A psicanálise estava meio que aparecendo na Europa. Tinha recém pintado essa onda toda. Aqueles malucos surrealistas. Nada disso. Mas não demorou muito, apareceram uns doidões de pedra aplicando em você seus métodos revolucionários de vanguarda. Se você tivesse dinheiro, ótimo, choquinho nas têmporas. Papai me levou num psiquiatra amigo dele. Cê não sabe como é que era. Cocaína era vendida na farmácia. Farmácia a gente escrevia com ph. Ué, era no tempo em que a gente escrevia farmácia com pê-agá. E eu mandava ver na cocaína. Tem até aquele fado mais ou menos dessa época. Ah, você não vai lembrar. Ouve só: Maldita cocaína que roubaste meu amante / que para sempre enlouqueceu / o teu poder fascina / és um corpo de Bacante / com melodias de Orfeu / Maldita cocaína / odeio-te gosto de ti / és a minha companheira / embora a mais traiçoeira / que eu amei e conheci. Era assim, papai queria dar um jeito para eu parar de falar mal de Deus. E eu, só hoje entendo, claro, mas intuitivamente achava que Deus era cocainômano.

entrevistas

Lepre: Por que a arte, Thadeu Wojciechowski, pode ser trágica e linda, se a tragédia na vida é o que de pior pode nos acontecer?

Thadeu:
Amigo Leprevost, uma grande tragédia,
assim como a pimenta no rabo alheio
refresca e tempera, é sempre um prato cheio
para alguém reescrever a divina comédia.

Os humanos adoram rir e fazer média
com as desgraças que não lhes dizem respeito.
Mas quando o raio cai e a gente está no meio
o choque, muita vez, provoca até inédia.

Você não sabe o que fazer. Fica sem pai
nem mãe e pede pelo amor de Deus um fim.
Mas merdas acontecem sempre e a vida vai.

Foi é será eternamente bem assim.
O que não tem remédio, remediado está.
A desgraça vai aonde o desgraçado vá.

Grande abraço

Thadeu

quinta-feira, 7 de maio de 2009

pecinhas para uma tecnologia do afeto

Bom ar
...esmagar com a própria mão tudo
o que na vida ainda resta de espectro...”
(Franz Kafka)
na tela da televisão de plasma
chove um pouco
o ambiente agora é agradável
limpo
cheio de cheiro de bom ar aerosol no ar
a gangorra de uma lua minguante
faz nheco-nheco rangendo feito
a velha cadeira de balanço
um carrossel de placas de vende-se eternidade
humanos não perecíveis
aluga-se leitos de hospital
posto, siga 2 km
, rodopia por trás da
platéia posicionada como que num
sistema que girasse ao redor do sol
eu estou nesse lugar
vestida com uma camisa alva, engomada
tenho a barba feita
só os meus pés, os pés
os pés eles estão encarquilhados, os meus
pés de pato
não sei, mas desconfio que eu tenha nascido assim
com pés de pato, senão eles não estariam
tão cansados de...
há vacas por aqui
vacas nem tão santas
essas vacas, vejo agora
estão penduradas em meus mamilos
e há, por conseqüência
muitas de mim
uma manada miniatura de meninas que são eu
penduradas nas 130 tetas dessas
vacas que, nossa senhora, são eu
então alguém que eu
não conheço nem ele me conhece
esse alguém me aponta
e me define: você está em cena
chove um pouco
e o ambiente agora é agradável
limpo
cheio de cheiro de bom ar aerosol no ar
você em cena é um dos dois bêbados que
estão em cena
por sobre a camisa alvengomada
você veste agora uma casaca
súbito, você sofre um
espanto olhando para mão direita
tua mão direita diz assim: você está em cena
o ambiente agora é agradável
limpo
cheio de cheiro de bom ar aerosol no ar
você em cena é um dos dois bêbados que
estão em cena
por sobre a camisa alvengomada
você veste agora uma casaca
súbito, você sofre um
espanto olhando para mão direita
e agora tua mão direita diz assim: uau!, beibe
eu sou teu dedo indicador
e teu dedo indicador agora, benzinho
teu dedo indicador é um rabo
um rabo que nasceu na tua mão
não na tua bunda
com esse rabo você toca
tua rabeca chamejante de folks
bom, já o outro bêbado
o seu companheiro de cena
o outro bêbado ninguém repara nele
ninguém pode vê-lo
só você pode ver esse outro bêbado
porque esse outro bêbado é você
e esse outro bêbedo que ninguém consegue ver
esse outro bêbado, pode acreditar
esse outro bêbado é bem mais bonito
porque ele é um outro bêbado que assobia
ainda mais agora que
a chuva já parou
agora que a chuva parou de
definir a tua silhueta
mesmo que agora a tua silhueta esteja
louca para pegar um gripe
até que então a tua silhueta fica gripada
a tua silhueta espirra
e assim aparece no céu um arco-íris
num estremo do arco-íris está o teu nariz
no outro estremo há uma pasta de dente
o sol veio para ajudar no arco-íris
mas já está indo embora
e vai que o sol é só a bunda de
uma formiga saúva
a formiga cruza a cena rapidinho
como quem vai embora
e assim a noite
sorrateiramente
começa a pousar feito o
Corvo do Poe
no céu agora é assim
queimam nuvens de sangue, do teu sangue
a tela de televisão de plasma é o lugar
mais óbvio e seguro para esse céu
a tua silhueta gripada está ali
debaixo desse céu
tua silhueta derrete a garganta quando
vira num gole só um chá abortivo
e tem um homem de olhos muitíssimos cerrados
lá no fundo da xícara desse aborto
e o homem canta assim: o poço é escuro e
o sinal que vejo é...
o poço, você só vê agora
é o sol visto de dentro
lá o homem não para de cantar assim: na
tela da televisão de plasma
chove um pouco
o ambiente agora é agradável
limpo
cheio de cheiro de bom ar aerosol no ar
você então vomita
você vomita nuvens de sangue
você corre até o banheiro
e há um barco encalhado ali no
mangue da pia do banheiro
um barco com uma tripulação inteira doente
constipados todos estão bem menos socializáveis
eles querem te matar
sabem que foi você
que a culpa é tua
você corre
na mesma velocidade em que você avança
por baixo do trapiche a maré recua
é claro que aquilo ali não é um pelicano
voando baixo sobre o oceano nesse clima
inamistoso, você pensa como seria bom
fazer sexo agora
poderia até ser com o pelicano
com tanto que ele se metesse inteiro e forte em você
mas você pensa nisso e vomita
você vomita anzóis
você vomita datas
você vomita dentes
você vomita orelhas de
platéias inteiras naufragadas em seus banheiros
você vomita teu vexame
você vomita vomita vomita
vomita o ambiente agradável
limpo, cheio de cheiro de bom ar aerosol no ar

aauurrrgghhttt!!!!!!

pecinhas para uma tecnologia do afeto

Um sapo, um baiacu

Um- Posso pôr meu coração a seus pés.
Dois- Se não sujar meu chão.
Um- Meu coração é limpo.”
(
Heiner Müller)
É um figurino estranho. Ela parece, muito, vestida de si mesma. A máscara que usa é mais louca ainda, é como ela se mascarasse com o próprio rosto.

Em algum momento do texto, ou durante o texto todo, fica a cargo da atriz, ela deve rezar. É uma reza inédita e inaudível. Física. É uma reza física. Mais se assemelha a uma dança a reza. A reza é assim: Chega de permitir que a memória ocupe o espaço do que dever ser a vida, chega de achar que a dor não vai passar, chega de achar que está sozinho, chega dessa vontade de rever, chega de saudade, chega de saudade, não tenha medo, aceite isso.

não vou falar que tenho coração
não pra você
pois se aqui estou
é porque estou viva
e se estou viva
é porque tenho coração
e se tenho coração
ele é uma coisa que pulsa
um sapo ou um baiacu
um sapo ou um baiacu são
coisas que pulsam
é por isso que eles dois

Há um sapo e um baiacu em cena

são o coração que me refiro
então, esse coração
ou esse
tanto faz
é um coração que pulsa
sim, pulsa
mas por aqui
a gente gosta de dizer
não que ele pulsa
mas que ele bate
então se bate
bate por quem?
bate por você que tanto venero?
vou dizer que te amo
que te venero
e daí se eu não devia fazer isso?
se te venero
deve ser por você que o meu
sapo, digo, coração bate
mas não
não é por você que o meu
baiacu, digo, coração bate
ele
ou ele
bate por mim
para me manter viva
ele
ou ele
bate para que eu possa continuar
a fazer declarações de veneração
feito essa
na qual você ainda sequer reparou
essa que é só pra você
pra você, pra você
que até o momento parece ignorar
que eu tenho um sapo
um baiacu
um coração em cena
um coração aos teus pés

pecinhas para uma tecnologia do afeto

Correção de coluna
"Evite florear. Não tenha medo de ser fraco.
Não tenha vergonha de estar cansado.
Você fica bem quando está cansado.
Você fica como se pudesse continuar
para sempre." (Leonard Cohen)
Ele não é um robô nem um Frankenstein. Ele é só um cara feito com pedaços de muitos trecos: um parangolé tecnológico, em resumo. Nem mesmo ele se pergunta o por quê desse colete para correção de coluna que está usando.

isso agora é música, isso é que, eu torço pra que essa pessoa não esteja felozmente se transformando numa, vamos dizer assim, Anita Bryant, triste figura que assisti em fevereiro de 2009 no filme Milk, estrelado por Sean Penn, com direção de Gus Van Sant, mas é isso, tô falando dessa pessoa, essa pessoa, saibam, se irrita quando dizem que ela não tem humor nenhum, bom, se ela se irrita quando dizem que ela não tem humor nenhum é porque ele não tem, ora bolas, humor nenhum, isso não é bom?, essa pessoa vive me implorando, implorar é uma coisa que essa pessoa faz bem, ela vive me implorando assim, que suas vísceras precisam de férias, que sim ela sente muita pena desse Frankenstein em quem me transformei, que eu mais pareço uma droga de uma animação stop motion, isso não é bom, hein?, que não interessa que tudo não passe da imaginação de vocês, que não sei mais o que e bláblabla blog, á tá!, essa pessoa fala também que eu preciso me arrumar logo, que onde já se viu, que eu praticamente moro nessa garagem, que é um laboratório dos mais toscos em que essa pessoa já esteve, mas ela acha o quê?, que eu nunca li urgentemente O chamado da floresta, do Jack London?, que eu pareço que tô à passeio perdido no mundo, ah, quer saber, isso agora é música, então vá se danar, vá se fudê, vá se matar, me deixe aqui com minhas overdoses de barbitúricos, isso não é bom?, é, eu então tento explicar pra essa pessoa que eu acho que não sou de lugar nenhum, que não sou filho de ninguém, que essa cena é um deserto gelado, e que nesse deserto gelado é noite, que aqui dentro da rede eu tô em casa, que eu devia ficar bem doente, porque daí sim essa pessoa me trataria bem, que eu devia pegar um vírus terrível, que daí sim, mesmo que essa pessoa não seja enfermeira, não interessa, porque assim ela ia ver que eu não tenho mesmo coração, não tem coração, isso não é bom?, ãh?, não ter coração, mas isso não interessa, eu não tenho mesmo, não tenho porque não tenho, simples, assim como houve um tempo em que não existia nada disso, celular, computador, caneta, Anita Bryant, é como se eu tivesse vindo com um defeito de fabricação, basta saber se o fato de não ter coração decorre de uma descendência dos homo sapiens, ou se dos neandertais, mas também isso não interessa, isso não é música agora, porque é bem provável que tanto homo sapiens quanto neandertais praticassem canibalismo, e é claro que existem setenta e sete mil vezes oitocentos e oito maneiras de se praticar a maldade, canibalismo é só uma delas, eu falo isso e essa pessoa se põe desesperadamente a rezar, essa pessoa reza sua reza inédita, inaudível, isso agora é música, sua reza biológica, sua reza que mais se assemelha a uma dança, e esse é o Deus bondoso dessa pessoa?, nesse Deus então eu acredito?, acredito porque eu tô vendo esse Deus bondoso, e ele vem falar comigo, ele entra pela minha porta dizendo eu tô aqui, e você quem é?, ele quer saber de mim, eu sou, Senhor, um animal extinto, o que o Senhor vê de mim são apenas esse punhado de minúsculas sequências de DNA, profunda e minuciosamente pesquisado por essa pessoa que entende de alguma coisa, talvez disso que vocês chamam de técnicas genômicas.

Deitado no chão ele se debate de um lado ao outro como fosse um ovo sendo fritado.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

meu sonho é participar de um filme de pedro almodóvar

Entrevista com Vovó Burroughs, a mal-morrida (1)
Sabe como é que era a cara dela? Era arredondado assim. Parecia uma, sei lá, uma... Vai, uma lua cheia. Umas sobrancelhas espessas, graves, sabe?, pesadas, escuras. Andava sempre de cabelinho curtinho, quase raspado. Quase. Apesar disso você notaria facilmente que havia volume ali, pêlo grosso mesmo. Uma juba de leão, daquelas. Só que aparada. Sempre assim, curtinho. Ela era, em suma, uma mulher peluda. O antebraço bem servido, sabe? Aquela penugem aqui do lado da orelha. Você sabe, né?, as mulheres peludas são umas devassas. Não ia ser essa que fugiria à regra, não é mesmo? Eram feições realmente marcantes. Se me perguntassem se eu a achava bonita, eu diria que ela era... inexplicável. Que eu não saberia tão facilmente se aquilo era ser bonita ou não, mas que me provocava. Que me provocava quase insuportavelmente. E se tesão não é beleza, meu filho, então não sei o que é. Aquilo era uma coisa de herança, entende? Os avós paternos dela tinham vindo do Líbano. O pai casou com uma italianona. E deu no que deu. Nos conhecemos em uma festividade na casa do Dr. Lupércio. Não lembro exatamente que tipo de festa. Havia coisas como aquilo toda semana. Eu era obrigada a ir, por causa dos meus pais. Para mim, não tinha escolha. As senhoras estavam sempre numa elegância esnobe. Eu diria até, inabalavelmente fantasiadas dentro das meditas impostas pelo rigor da moda. No entanto, eu fazia questão de ir trajada com o que meu humor indicasse no momento. Ou seja, eu não me vestia que nem uma provinciana empolada, mas quase como os empregados das provincianas empoladas, se é que me entende? A verdade é que era muito jovem, trazia em mim o, digamos, na falta de palavra melhor, afã do romantismo ingênuo. Pois bem, havia uma semelhante minha fumando e rindo, bastante à vontade, entre os polacos na roda dos motoristas. Quem era? Tinha um jeito desajeitado. Estabanada derrubou licor na camisa de um deles. Não teve pudor em esfregar com um pano a mancha. Aquilo a deixava de fato linda. Totalmente livre. Sim, porque naquela época uma mulher jovem, de família aristocrática, dando trela para motoristas, isso para mim era liberdade extremada. Quem dirá passar um paninho na camisa de um deles. O que não pude deixar de notar foi que havia uma doçura, digamos, loquaz em seus gestos, que não eram nem contidos tão pouco espalhafatosos. Ou o Chopin que soava no salão estava funcionando em mim como o efeito de um veneno afrodisíaco? Me diga você. Eu estava molhada. Pensa bem. Nunca antes tinha experimentado aquela sensação só olhando para uma pessoa. Havia a janela fechada nos separando. Havia o jardim. Os motoristas polacos. Enfim, estávamos longe o bastante uma da outra. Mas por algum momento nossos olhos se cruzaram. E aconteceu. Mas já tem muito tempo. Nem sei como é que lembro. Como vê, as coisas mudaram por aqui, não é? O que me diz, hã?, dessa imbecil aqui? Essa velha chorona. Essa velha imbecil, imbecil. Imbecil! Imbecil, imbecil. Imbecil. Não sinta pena de mim. Só eu mesma posso sentir pena de mim. Você acha que eu estou morrendo? Achou certo. E daí? Acha que eu me importo? Hein? A morte é como deitar na grama e sentir ela crescendo aqui ó, por dentro de você. Meu amigo, a morte não choca mais ninguém. Ninguém mais morre de overdose. As pessoas hoje em dia só morrem de câncer. E, foda-se, está todo mundo acostumado. Todo mundo resignado. Ah, coitado, câncer no... sei lá onde, mas também, só comia no Mac Donald´s. E ele?, peninha, câncer no esôfago, claro, era o rei do Free Ultralight. E aquele ali todo soltando fumaça pelos ouvidos? Câncer no cérebro, assistia demais novelas na TV. A morte não merece mais o teu respeito. Ela não leva nada do que você gosta. Ela não leva tuas roupas. Teus perfumes. Teus sapatos. Tuas louças. Teus jogos de talheres de prata. Não leva os pneus das tuas máquinas. O motorzinho da geladeira. A morte não leva teus poeminhas de amor e morte. Teus postais de viagens para o interior do Paraná, compreende? Ela não leva a tua carteirinha da Amil Assistência Médica. A porra da morte não leva a porra da ambulância que te leva, cedo ou tarde, para morte. Sabe o que a morte leva? Teu espanto, teu susto, teu paladar. Ela é inimiga do pronto-socorro. Leva tua inteligência. Leva teu amor próprio. Os teus conceitos sobre o amor. Lembra daquela guria lá com os motoristas? Pois é. Sabe o que é a história de alguém? Toda a história de uma vida? É acumular esquecimentos. Se eu tenho alguém que me ame? Eu tenho o meu poodle. O meu poodle imaginário, que não late. Ah, sim, além do cãozinho, tenho também esse álbum de família cheio de auto-retratos.

notas para um livro bonito

me dá um só dedo de
maldade e lavo as mãos.
sobreviver talvez não seja
o mesmo que permanecer
humano, humano, humano.
me dá um só dedo de
maldade e... não, isso não
esquece, deixa pra lá
não sou um canalha.

terça-feira, 5 de maio de 2009

núcleo de dramaturgia

Acabo de buscar essa matéria lá no www.alexandrefranca.blogspot.com. Francinha, por sua vez, trouxe a "menina" do site bemparaná. Se não me engano, o site está vinculado ao Jornal do Estado. Acho que é isso mesmo, pois alguém comentou comigo sobre a mesma, que a havia lido pela manhã de ontem, ou de domingo, não me recordo agora. Algo assim. Bem, para constar, conto que estive na platéia da última mesa redonda, essa a qual a referida (riririrereri) se refere. O altíssimo nível da conversa nos inspirou a todos que lá estávamos, alguns dos que acreditam na verdade radical que há no Teatro. Confira a matéria.
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Um momento rico em dramaturgia
O Brasil vive um momento muito rico na sua dramaturgia, com o surgimento de novos autores, todos muito produtivos e com diferentes características e visão de mundo. O panorama, bastante promissor, foi traçado pelo dramaturgo carioca Roberto Alvim, no encontro, em Curitiba, com as diretoras Roxana Silbert e Tessa Walker, ambas da Paines Plough, uma das mais importantes companhias de teatro da Inglaterra.
Em apenas oito ou nove anos configurou-se em centros como o Rio e São Paulo verdadeiros núcleos de novos autores de teatro, a maioria com características marcantes, que conquista público e crítica”, disse Alvim, na mesa-redonda promovida pelo Núcleo de Dramaturgia Sesi Paraná, na noite de quinta-feira (30), que lotou o Teatro José Maria Santos.
Entre outros nomes este o próprio Roberto Alvim, Pedro Brício, Daniela de Carvalho e Daniel Tendler, do Rio de Janeiro, os paulistas Silvia Gomes e Paulo Santoro, os paranaenses Marco Damasceno, Luiz Felipe Leprevot e Alexandre França, além da mineira Grace Passo.
Formação de novos autores – Embora aberto ao público geral, o encontro direcionou-se particularmente aos novos autores que estão sendo formado pelo Núcleo de Dramaturgia Sesi Paraná. Criado neste ano, o Núcleo trabalha a primeira turma. A principal atividade de formação é a oficina ministrada por Roberto Alvim, que começou em abril e se estenderá até dezembro.
O Núcleo de Dramaturgia faz parte das ações do Sesi Paraná para abrir aos trabalhadores das indústrias e à comunidade o acesso a conhecimento e bens culturais. O Núcleo tem a parceria do Centro Cultural Teatro Guaira e o apoio do Sindicato das Indústrias Audiovisual do Paraná.
O projeto é inspirado no Núcleo de Dramaturgia Sesi São Paulo - British Council, criado em 2007. O Conselho Britânico presta apoio cultural trazendo para Curitiba os autores e diretores que vêm participar das atividades de São Paulo.
Diálogo e leitura — Segundo Alvim, a formação se dá menos pelo conteúdo técnico e muito mais pelo diálogo que se estabelece entre os participantes e pela oportunidade que o novo autor tem para expor sua criação, fazer leitura dramática, receber crítica. “É uma troca”, disse ele.
Na Inglaterra, os autores têm na Paines Plough a garantia da leitura de textos. Segundo Tessa Walker, a companhia lê todos os textos que lhes são enviados, antes de uma seleção. “São quase 500 por ano”, disse ela. “O que procuramos fazer é com que um bom jovem dramaturgo se torne excelente. Buscamos o diretor e o elenco mais adequados possível ao texto”, explicou Roxana.
Com mais de 30 anos de existência, a Plaines Plough foi a companhia inglesa responsável pelo lançamento de alguns dos mais importantes dramaturgos da história, incluindo Sarah Kane, Mark Ravenhill e Dennis Kelly. Segundo suas diretoras, a companhia não procura temas específicos, mas autores que tenham relações mais específicas com o mundo.