terça-feira, 30 de junho de 2009

pina bausch

Acabo de saber que Pina Bausch morreu... e por causa dessa doença nojenta cujo nome não pronuncio. Foi Cecília Lang quem me falou a primeira vez sobre Pina. Descobri sua arte na época em que vivi no Rio. Parte fundamental de momentos felizes e de mergulhos em águas escuras e tumultuadas, quando me relacionei com o universo teatral. Pelo fato da dança ser o corpo e não necessitar palavras ou subterfúgios de qualquer ordem, sempre achei que é a manifestação artística que mais nos revela. É quando a subjetividade (espírito, pensamento, emoções) se torna concreta, e ainda assim se mantém contida na fisicalidade. A dança é meio e forma para o inexprimível mistério humano.
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"É difícil falar de certas coisas. Como é que se pode falar deste desamparo que temos no mundo? O que é que fazemos com isso? Carregamos isso, esses sentimentos tão presentes. E há uma grande necessidade de gastar emoções." Pina Bausch

especulações sobre o amor simples

um relacionamento malfadado
é como estar numa banheira
em que a água já não é
quente nem transparente
com o tempo esfriou
mas como você está
mergulhado até o pescoço
o corpo acabou se
acostumado à temperatura
qualquer um que se aproxime e
toque a água
verá que ela ficou suja e gelada
todos percebem tal obviedade
menos quem vai submerso
a única coisa que você sabe é que
se sair da banheira abruptamente
sentirá um choque radical
caso não tenha alguém esperando
com uma toalha felpuda
do lado de fora
você ficará traumatizado
tirar a tampinha do ralo e
deixar que a água escorra será
igualmente doloroso
uma tortura pela qual
só um masoquista gostaria de passar
certo é que de um jeito ou de outro
o vazio se instalará
o seu corpo vai ficar roxo
que nem o de um defunto
por algum tempo
o coração batendo em
frequência mínima
mas pelo menos a água
será trocada

segunda-feira, 29 de junho de 2009

manual de putz sem pesares

47. Eis uma das minhas ambições: jamais esquecer como é andar, apoiar o peso sobre os músculos das pernas, mover mãos e braços, colar o corpo inteiro em outro corpo inteiro, espero por muito tempo ainda poder dizer “não perdi a utilidade.”
48. Pensar pensar pensar, taí uma coisa que podemos fazer também com o tato, olfato, audição e paladar.
49. Experiência própria: jamais sepulte-se em sua mulher.
50. Seus domínios não sejam seus demônios.
51. Se for só para alcançar ausências não estique tanto os dedos, mãos, braços, não permaneça encoleirado a tais distancias feito um cão a morder o ar.
52. Não se engane, também é um tanto suja, fétida, um tanto esterco, um pouco estrume nossa alma.
53. Quando mergulhar, faça isso de modo que você perca as águas de vista quando nelas mergulhar.

uma epígrafe

"Quem convive com os seres da sombra sabe muito bem que eles se apegam à vida assim que nós os tornamos necessários."
Modesto Carone.

manual de putz sem pesares

21. Quando começar um sonho, faça como ele fosse um edifício, comece-o pela fundação, a cobertura é sempre a última em que se chega.
22. Na poeira das crenças que pareçam preconceituosas pingue gotas do colírio fraternidade.
23. Seja Deus quem for, uma mulher que não ambicione a eternidade, essa terá mais chances com ele.
24. Saiba, algum dia, nalgum lugar, o entardecer perdura.
25. Saiba, o invisível sobra nas imagens onde o aquário não tem fronteiras.
26. Torça para que a miragem quando chegar em você tenha feito boa viagem.
27. Lembre-se, a maioria dos cárceres são secos, então seja um peixe, mesmo sem cardume.
28. Só de brincadeira, uive na lua cheia, uive, uive mais e engravide de um fio de lua, seja mãe de mais um lobisomem (Julio Cortázar era um).
29. Você que reclama da menstruação, já imaginou se você menstruasse ouriços?
30. Mantenha as cicatrizes fechadas, mas fechadas feita uma cortina, para poder espiar vez ou outra.
31. Você que vive correndo de lá para cá, cruzando a cidade de cima a baixo, poxa, faça isso por si, por favor, seja mais que um translado.
32. Você que não beija tem muito tempo, não o faz por um único motivo, você permitiu que se afundassem as embarcações que navegavam em suas papilas gustativas.
33. Lembre-se, aquele que tem dois sóis áridos no bojo das pupilas, esse está cego.
34. Não resista ao prazer dos tombos não definitivos.
35. Consume alguns maus-costumes.
27. Você, motorista engarrafado, entenda de uma vez por todas, o trânsito não é um bom lugar para você entrar em transe.
28. Caso você peide em tom audível no elevador, diga sorrindo imediatamente a frase: Pô, hoje eu tô que tô faiscando mil cometas.
29. Não seja burro, não tente abrir a crosta com um murro, tampouco com um urro.
30. Cuidado, um abismo nublado pode estar tramando algo inimaginável.
31. Não castre a erudição, mas também não deixe ela escoicear tão à vontade ao ponto de usarem-na contra você como instrumento de humilhação e poder.
32. Seja simples, com o conhecimento proceda assim: descasque o que não conhece até conhecer, a casca não coma, mas também não jogue fora, naturalmente.
33. Quando for irrigar algo ou alguém, comece pelos vãos, com a costura proceda idem.
34. Poxa, a vida é bela e plena e coisa e tal, então deixe sangrar também feito um rasgo fundo o que for da alegria.
35. Lembre-se, você só se conhece plenamente no sexo praticando aquela outra noite fosfórea que se chama amor.
36. Você que tem uma casa, não é recomendável que sua casa seja pequena demais, mas também não queira que ela tenha o tamanho do deserto, caso isso aconteça (o deserto), aí povoe de camelos o lugar.
37. Por favor, não se despedace de jeito nenhum, entenda, dividir-se é absorver cada um que queira seus pedaços.
38. Não seja burra, pare hoje mesmo de passar perfume nas porcelanas.
39. Seja cuidadosa, mas não deixe de sair da eternidade ao primeiro odor de vulgaridade.
40. Amigo, não se assuste se a treva também for o rosto noturno da sua namorada.
41. Não permita que ninguém esteja por muito temo na beira dos abismos, mesmo se for você.
42. Lembre-se, coisas belas e claras às vezes também necessitam portas antipânico.
43. Mire-se no exemplo das ondas do mar e, assim como elas, afine seus cascos no barulho.
44. Alguns silêncios têm asas, outros não, escolha com cautela qual deles você prefere, ah, não esqueça, ambos fazem barulho quando você não está em silêncio.
45. Poxa, será que você ainda não aprendeu?, não metrifica capturas aquele que ama, isso só afasta o ser amado, e as grades são de uma subjetividade atroz.
46. Há várias maneiras para se experimentar a felicidade nem que seja por alguns minutos, a maneira de soltar-se é (talvez um pouco) mais convencional do que a maneira de assaltar-se.

domingo, 28 de junho de 2009

manual de putz sem pesares

1. Não fique sozinho caso deduza que está sozinho e mal-acompanhado.
2. Tente o mais que puder não morar dentro da terra.
3. Não tenha sonhos mas objetivos, ou inverta tudo aproximando.
4. Vasculhe sua finitude.
5. Tente o mais que puder não morar em gavetas de cremação, um bom começo é não ser a cinza dos cinzeiros.
6. Se você quer tragar alguma coisa, tranque mistérios na respiração.
7. Não seja a paisagem de osso exposto dos dias que não deram certo, lembre-se, o amanhã começa antes que chegue a manhã.
8. Não aconselho as frestas nem as sombras.
9. Não use o sol para agasalhar esquecimentos.
10. Não permita que o antigamente seja arquivado, quanto mais ampla é a memória, mais fundo vai o futuro.
11. Não cutuque seus mitos com dedos afiados, isso faz ferida.
12. Mantenha o psiu da boca desentranho.
13. Não tenha nostalgia de remotas civilizações, mas das futuras.
14. Sendo você um inseto fatal ou não, não remoa seu próprio veneno.
15. Evite que os pés virem patas de touro, cascos nervosos, evite que na testa nasçam chifres.
16. Desatrofie os limites do que é humano em você, o sexo é um bom começo.
17. Num ato exagerado dinamite o que é exagerado em você.
18. Espalhe-se de si mesmo, só para ter o prazer de juntar caco por caco depois.
19. Não seja mais um na platéia distendida na rua da amargura.
20. Vamos lá, alegria!, ponha gozo na ferrugem.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

caetano veloso no teatro positivo

foto da internet, sem crédito
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Show de Caetano Veloso.
Teatro Positivo.
Dia 27, sábado, 21 horas.
Ingressos R$ 80 a 180,
de acordo com o setor do teatro.
Informações 41 3315-0000.
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No dia em que o show Zii e Zie estreou no Rio, o amigo Elísio Brandão me ligou emocionado. Ele, sujeito que entende de tudo e mais um pouco, disse ter sido um dos eventos mais bonitos que presenciou em toda sua vida. Elísio é mais do que fã do Caetano tem anos. Suas vidas se cruzaram algumas vezes, e Elísio traz na memória esse carinho.
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Aposto que o que assistiremos amanhã será um inestimável espetáculo. Ver (em outras oportunidades conferi) Caetano Veloso no palco é um contágio edificante do qual, para o bem, não nos livramos mais.
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Caetano é um músico que compõe seus textos e cenas, sempre os envolvendo por sonoridades inusitadas, mergulhadas em conceitos e visões de mundo que são o filtro de uma intuição guerreira e irriquieta.
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Em bons artistas vemos construção e verdade, a verdade do labor, o cuidado na minúcia. Vemos as camadas do processo, sua densidade. No caso de apresentações ao vivo, o percurso sintetizado na ação da hora, que nunca mais será repetida. E Caetano traz tais qualidades quando vai ao palco.
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Especialmente nesse show que nasceu de um projeto chamado Obra em progresso, uma série de apresentações semanais, quando a cada noite expunha ao público canções inéditas, saídas como que de um forno matemático. As apresentações eram filmadas e imediatamente iam parar no youtube e no blog do autor, que além de trazer textos a respeito dos mais variados assuntos, continha vídeos com ele comentando cada uma das músicas novas. O disco Zii e Zie foi gravado então somente depois dessas experiências.
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Partindo daí, Caetano mais uma vez mostrou ser um artista atento ao seu tempo, pois o procedimento utilizado por ele praticamente inverte padrões esquemáticos da indústria da música. A raiz disso está em mais de um lugar, um deles, claro, é a crise que o mercado fonográfico enfrenta atualmente. Outra, e principal, é a capacidade do artista de adaptação, de se infiltrar em estruturas novas, para as quais ele poderia se dar o luxo da alienação. Mas não, pois Caetano é o cara que no âmbito pessoal, íntima e afetivamente, “teve coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas elas.”
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À Gazeta do Povo, quarta-feira, 24 de junho, que numa das perguntas abordou o assunto da rejeição que eventualmente sofre, o artista falou: “Ninguém pode pretender ser aprovado por todo mundo. E no meu caso, há agravantes fortes: tenho temperamento experimental, não sigo cartilha política de grupo nenhum, não me submeto à hierarquia crítica capacha que olha para tudo o que se produz na Inglaterra e EUA com adoração idiota. Tenho ambições maiores do que tudo isso. E também não sou um talento musical impressionante. Natural que reajam contra mim pelas piores mas também pelas melhores razões.”
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Não se engane, cabelos brancos não apareceram de repente. Caetano não é um velhinho tentando fazer rock´n roll. Pelo contrário, assim como em bons projetos do passado que às vezes são reformados e reabertos, por não se esgotarem de propor o futuro, novamente (como faz a cada disco de inéditas), nesse Zii e Zie, Caetano Veloso reinaugura um patrimônio nacional chamado Canção Popular.
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Reproduzo letra da composição de sua autoria que mais gosto (e fico feliz em dividir tal sentimento com meus irmãozinhos Vitor Paiva e Troy Rossilho) entre todas as que conheço.
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José
(Caetano Veloso)
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Estou no fundo do poço
Meu grito
Lixa o céu seco
O tempo espicha mas ouço
O eco
Qual será o Egito que responde
E se esconde no futuro?
O poço é escuro
Mas o Egito resplandece
No meu umbigo
E o sinal que vejo é esse
De um fado certo
Enquanto espero
Só comigo e mal comigo
No umbigo do deserto

quarta-feira, 24 de junho de 2009

imperdível


três poemas do disco zii e zie
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Perdeu
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Pariu, cuspiu, expeliu um deus, um bicho, um homem
Brotou alguém, algum, ninguém, o quê?, a quem?
Surgiu, vagiu, sumiu, escapuliu
No som, no sonho somem
São cem, são mil, são cem mil, milhão
Do mal, do bem, lá vem um
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Olhos vazios de mata escura e mar azul
Ai, dói no peito aparição assim
Vai na alvorada-manhã
Sai do mamilo marrom o leite doce e sal
Tchau, mamãe
Valeu
.
Cresceu, vingou, permaneceu, aprendeu nas bordas da favela
Mandou, julgou, condenou, salvou, executou, soltou, prendeu
Colheu, esticou, encolheu, matou, furou, fodeu até ficar sem gosto
Ganhou, reganhou, bateu, levou, mamãe, perdeu, perdeu, perdeu...
.
Céu, mar e mata mortos da luz desse olhar
Antes assim do que viver pequeno e bom
Não, diz isso não, diz isso não
A conta é outra, tem que dar, tem que dar
Foi mal, papai
Anoiteceu
.
Brilhou, piscou, bruxuleou, ardeu, resplandeceu a nave da cidade
O sol se pôs depois nasceu e nada aconteceu
..
Por quem?
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Blush em minha fronha, quem
Deixa esse cheiro bom assim?
Músculo que sonha, vem
Ai ai ai ai ai ai
Quem vai ai ai ai ai ai
Quem sai ai ai ai ai ai
De mim?
.
Foi a noite
Negros asfalto, pneu e mar
Ranhuras da montanha
Descem até o vale
Lágrimas vão de mim
Por quem?

Falso Leblon
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Ecstasy (bala), balada
E me chama depois
Pra dar uma e dar dois
Ela é que causa, é que explana
E acende os faróis
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Mas o meu samba transcende
E apaga as pegadas
Que ela quer deixar
Falso Leblon Big Brother
Tou fora do ar
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Ai amor
Chuva num canto de praia no fim
Da manhã
E depois de amanhã?
.
O que faremos do Rio
Quando, enriquecendo,
passarmos a dar
As cartas, as coordenadas
de um mundo melhor?
.
Quanta tristeza guardada
Na cara da moça
Bonita que dói
Francisco Alves, Seu Jorge,
os Hermanos – já foi
.
Ai amor
Chuva num canto de praia no fim
Da manhã
E depois de amanhã?
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Drogas, tou fora, tá foda
E agora vombora
Nem vinho tomei
Me sinto muito sozinho
E ela é a lei
.
Odeio a vã cocaína
Mas amo a menina
E olho pro céu
Ela se esgancha por cima
De mim: quem sou eu?
Caetano Veloso

especulações sobre o amor simples

rené magritte
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você sabe, o cheiro de
uma pessoa pode ser um desespero.
o toque de uma pessoa
pode ser um desespero.
até o desespero de uma pessoa pode ser.

balbucios de blues

...................................para Cecília Lang
este é o plano A
agora pra mim é como é: punk
ela não tem o menor suíngue
a mancha duma pessoa emoldurada pela claridade
sua sombra dança quando ela desce a rua
desde lá do Alto do São Francisco até aqui
no Café Metrópolis
porque larga sempre o serviço
por volta de três da tarde e
tem um casaquinho de gola v amarrado na cintura
e ela vem assim
a mania que ela tem de usar camiseta Hering
os peitinhos vulneráveis
ruiva, agora ela é ruiva
agora eu saio ileso
eu saio ileso de dentro de suas pálpebras
que se fecham por milésimos de segundos
guardando minha imagem
agora ela gosta de usar meias coloridas
e sou um dos poucos privilegiados a quem
ela revelou esse segredo
agora na verdade eu não sei
não dá pra saber
mas tô com muita vontade de
espremer o coração assim
até o coração sair em forma de fumaça por
algum cano de escape
agora sempre quero que
uma cena bonita como essa
vá parar no cinema
ela ali, a cidade vazia, prédios enormes
de repente uma rapaziada passa e
mexe com ela
venta
e eu me aproximo com meu andar
Rock Balboa depois de ter levado uma
surra no ringue
então faço a pergunta certa
agora é domingo, já anoiteceu, etc
agora vivenciamos acontecimentos estranhos
eu sei que pra ela o mundo cheira a veneno
e tudo que eu também quero é
dividir um pouco de vinho
agora isso aqui é uma foto dela
num plano lá atrás
as veias do pescoço saltando gargalhadas fora
ela me conta aquele episódio que
comprova porque ela é a guria mais solitária do bairro
e eu acho isso legal
sei que é triste
mas acho legal
e só mesmo a gargalhada dela é
o grande antídoto pra essa coisa no mundo de
maxilares travados de indiferença
e deduzo que ela deve ter estudado balé clássico
pela modo como pára ao lado de
uma árvore no Passeio Público
e ela gargalha, sim
o fogo sendo comido dente a dente
agora são zumbidos de abelhas
e nem mesmo a chuva que cai com
força é capaz de borrar o desenho dela que
tenho comigo aqui na mente
a vizinhança quer assistir a
novela das oito em paz
mas a visão que tenho comigo é a dela
gargalhando como fosse parir punhados de
flores da boca
um montão de pétalas de lovelovelovemetender
agora eu conto pra ela aquela estória de
quando pousei sobre uma bolha de sabão do
tamanho de um carro
e fiquei ali flutuando durante quatro horas seguidas.
agora eu vejo essa guria desembarcar na
rodoviária e acho que é ela
quero que seja ela com seus casacos embolorados
mas não, eu tô errado
porque na verdade ela tá partindo pra Paris e eu
tô pensando que sua primeira providencia em Curitiba
quando voltar de lá
deva ser comprar um cachecol.
isso mesmo, agora faz sete graus
e eu tô esperando ela vir
tomar sopa de tomate comigo
num restaurante chamado Akrótona
quer dizer, não é exatamente assim
a verdade é que é primavera e
estamos caminhando na direção do
Mercado Municipal, comprando
castanhas, mastigando
agora ela é invisível
não, não é
se fosse invisível não estaria aqui
eu não a estaria vendo
e ela está aqui, está
agora não estou mais vendo
agora é a vez do plano B

terça-feira, 23 de junho de 2009

especulações sobre o amor simples

o amor arranquei do peito
no chão
ainda pulava
de um lado pro outro
fantasiado de coraçãozinho
um dos cães abocanhou
rasgou
engoliu órgãos, partes do
coraçãozinho ordinário
mas ainda estava vivo
então dei sete tiros
pra garantir que ele não tinha
sete vidas
depois tentei enterrar o
coraçãozinho, que era osso duro
duro de roer até
pra pit-bull
no entando, um deles
tanto fez que comeu o
o esqueleto triturado
do coraçãozinho
aí um dia atropelaram esse
cachorro
foi um rolo compressor que
atritou ele no asfalto até ele
virar asfalto
aí choveu, um temporal
depois o sol veio e secou tudo
até que se fez a poeira
daquele coraçãozinho
não restava mais nada
sobrou, talvez
no sopro da brisa
no ar, hoje
tem dias que inspiro
e encho os alvéolos de amor
aí, antes que ele tenha
tempo pra fantasias
e cause problemas, expiro
e assim, amor, seguimos entre
inspiração, expiração e esses
cães do demo
.
amor tenho para dar
simplesmente
e não conheço outra maneira
conchinhas do mar
jóias, perfumes
flores, cartões de crédito
preces, estrelas, camisinha
amor não é isso, coisas
nem tem algum valor
é de carne e osso
osso fácil de roer
alguma coisiquinha de alma, espírito
porque estou vivo
mas aquilo de transcender, não conheço
é início e reinício ele todo
ilustrações, ilusões
basta de amor tolo
ele não passa nas novelas
o peito nada sente
meu amor é porque eu quis que fosse
com rosto, teta, bunda, buça
mas nem é um amor tão bonito assim
ele é só início e reinício
e por ser início e reinício é caroço sempre
é caroço porque
mesmo sem fome
consumo seu sumo

especulações sobre o amor simples

para o amor
por enquanto
não a flor propriamente plantada
nem um buquê
comprado na florista
por enquanto ofereço
(nesse poema)
como que a imagem da flor
depois, caso vingue
poderemos partir para a biologia
.
continuo levando jantar fora
abrindo a porta do carro
mandando flores no dia seguinte, etc
no mais
pode que tudo que se parece com o amor
é o amor
.
valem as intimidades que
antes eram segredos
ou não eram intimidades
mas bobagenzinhas do dia-a-dia
banalidades
como contar ao outro o seu dia no trabalho
o que, aliás, pode que seja uma salvação
.
eis a biologia possível:
a manutenção do
corpo é importante
ganhar um boquete
ou um cunilingus (no caso das damas)
por dia, faz a gente
mais saudável e feliz

tudo muito bem
tudo lindo
até que
foi eterno enquanto durou
nosso amor
durou o tempo de um sabonete

segunda-feira, 22 de junho de 2009

especulações sobre o amor simples

o amor doença
e há o amor delícia
alguns amores doença
têm cura, outros não
igualzinho como as doenças
alguns amores delícia são
como pão delícia, hum
recheio cremoso
quentinho na barriga
duas, três mordidas, acabam
ou às vezes o recheio azeda
.
.
*Essa poestagem dedico a você, Sabrina (e Gabizinha), delícia que não azeda nem acaba hehe.

domingo, 21 de junho de 2009

entrevista

Fui entrevistado dia desses por Patricia Rosa, estudante de jornalismo da Unibrasil, para matéria de jornalismo cultural, do professor e editor do Caderno G, da Gazeta do Povo, Paulo Camargo. Antes de minhas respostas ficarem prontas trocamos uma série de e-mails e sua abordagem, embora direta, sempre foi delicada e profissional. Agradeço a Patricia a oportunidade. Segue o papo.

1-Luiz Felipe para que eu possa fazer um texto sobre você, que irá anteceder a entrevista para que os leitores saibam mais sobre você, preciso que me fale um pouco de sua vida. Quem é você, idade, onde estudou quais trabalhos já realizou, quais seus anseios, como vê o mundo em que vive, fale de algumas experiências que te marcaram.

Meu nome é Luiz Felipe Leprevost. Nasci em Curitiba, no ano de 1979. Sou o terceiro filho de uma família com quatro irmãos. Tenho três sobrinhos (entre eles um afilhado) e uma sobrinha (e mais uma que está para chegar, já na barriga da mamãe). Na escola sempre fui péssimo aluno, mas há muitos professores que sentem carinho por mim até hoje. Por ter sido rebelde, reprovei de ano duas vezes, e passei por alguns colégios. Nenhum deles superou as alegrias, marcas e memórias adquiridas no Colégio Paranaense Marista, onde estudei praticamente durante todo o colegial. Eu sou escritor e publiquei alguns livros, de poesia e contos (falo sobre eles ao longo da entrevista), também tive peças encenadas. Também fiz algumas canções em parceria com pessoas talentosíssimas. Atualmente sou parte do grupo Teatro de Ruído. Ator de formação, mas, como já descobri que é impossível abraçar o mundo com as pernas, atualmente estou mais voltado à literatura. Ao longo da vida muitas coisas me marcaram, positiva e negativamente. Mas há uma saudade recorrente que guardo de minhas avós, elas me faziam sentir bastante protegido. A maior ambição que tenho é ficar bem velhinho e com saúde, escrevendo e amando sempre, assim como um Gabriel Garcia Márquez, ou então um Manoel de Barros. Eu acho o mundo uma coisa bem complexa, mas tendo a pensar que a beleza da existência humana vem daí. É essa complexidade e, apesar de tudo, a gente meio que faz coisas bobas e repetitivas todos os dias como, por exemplo, escovar os dentes. Isso é tão banal e simples, mas, ao mesmo tempo, de suma importância, pelo menos para se viver em comunidade. No mais, faz alguns meses que estou escrevendo em dois blogs. São eles: http://www.notasparaumlivrobonito.blogspot.com/ e http://www.anevenaotemgostodealgodaodoce.blogspot.com/.

2-Como a poesia e a música apareceram em sua vida?

Sorrateiramente. Sem aviso. Sem que eu esperasse. Quando vi, era isso: uma pessoa debruçada sobre o papel como alguém que reza sua fé.

3-Você escreve poesias, compõe e interpreta canções, dirige peças teatrais, mas disso tudo o que realmente mexe com você?
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Não catalogo. Não faço diferença. Para mim teatro, canções, poesia são uma coisa só: a minha necessidade absurda de expressão, que é um jeito de laborar o que mexe dentro e não se explica.

4-E como é o seu processo de criação? Existem rituais? De onde surge inspiração para escrever seus poemas, músicas, peças teatrais?

O ritual é abrir o caderno e correr a caneta. Procuro me manter atendo, digamos, com a sensibilidade ativada como que uma língua na tomada. Quanto mais trabalho, quanto mais leio e escrevo, isto é, quanto mais treino a inspiração, mais inspirado fico. Às vezes gosto de escrever até meu punho doer. Noutras, passo semanas só anotando frases, pequenas idéias para o futuro. Tanto teatro quanto poesia ou ficção me chegam desses lugares, avizinham-se nas horas da prática, querem ser uma mesma massa poética.

5-Como você teve a idéia de lançar seu primeiro livro?

Eu era muito novo. Tinha alguma centena de poemas numa pastinha. Então achei que se fizesse uma boa seleção teria um livro. Para me ajudar na organização e coordenar o trabalho editorial procurei a sábia Antônia Schwinden. Conversamos demoradamente a cerca de cada poema, em sessões agradabilíssimas. Os papos me estimulavam a fazer opções, a trabalhar em alguns versos. Na época eu estava bastante influenciado por uma maneira de olhar o mundo poeticamente que tinha ecos da poesia concreta. Achava que aqueles poemas que se pretendiam musicais, feitos para batucar com a língua, cabiam nessa herança. E assim foi, permitindo-me correr certos riscos, nasceu o Fôlego.

6-Você escreveu os livros Fôlego, Tornozelos Deitados, Cecília Roendo as Unhas e Ode Mundana. Como foi o processo de produção? E qual teve maior sucesso?

Cada um dos livros acontece de maneira específica. Não há uma fórmula ou formato definido, ou até, definitivo. Tanto Tornozelos deitados quanto Cecília roendo as unhas, assim como o Pífio – monólogos dos psicotrópicos que não fazem mais efeito, são livros de bolso, feitos quase artesanalmente, com um projeto editorial bem simples, pela kafka edições baratas, selo nascido do entusiasmo de Paulo Sandrini e Fernando Koproski. Serviram um pouco como cartões de visita, como que apresentando o escritor em potencial.
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Ode mundana é outra estória, foi escrito de um fôlego só, durante o primeiro mês da minha mudança para o Rio de Janeiro, em 2004, quando lá fui estudar. Aquela cidade me arrebatou, revoltou-me, amei e odiei ao mesmo tempo. Então, após demorado processo burocrático e cuidadoso projeto gráfico, finalmente Ode mundana foi lançado pela Editora Medusa.
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Todos tiveram sucesso a sua maneira, principalmente no âmbito íntimo. Mas o que até agora me trouxe maior visibilidade foi o mais recente trabalho, o livro de contos Inverno dentro dos tímpanos (Kafka edições), lançado no final de 2008.
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Todavia, espero que o próximo Barras antipânico e barrinhas de cereal (Editora Medusa), que está no prelo, traga-me um bocado de alegrias.

7-Fôlego também está em CD. O que o disco traz?

O disco traz o poema Technera, uma elegia à música. Por ser uma obra absolutamente oral, pensei na ocasião que seria equivocado limitar o poema as páginas do livro. Era um poema sui generis. Por dialogar essencialmente com a canção, pedia sonorização. Para produzi-lo comigo convidei a musicista Grace Torres, do Grupo Fato, um talento inestimável.
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Anos depois o próprio Fato gravou o poema, em seu álbum Música Prageada. Com a voz potente de Alexandre Nero em primeiro plano.

8-Em seus poemas e na canção Triste você fala muito de solidão, você se sente um solitário?

Às vezes me sinto solitário, às vezes não, como todas as pessoas, creio. Agora, quem é escritor e leu Cartas a um jovem poeta, do Rainer Maria Rilke, por exemplo (e eu o fiz tem muitos anos), jamais desconsiderará alguns dos benefícios da solidão. Livros e cds podem ser apenas solidão organizada na estante, quadros podem ser solidão pendurada na parede, ou então um mundo extraordinário que nos ensina a ser menos falidos, desenvolvendo a nossa sensibilidade, o olhar para o humano e seus mistérios, o interesse pela memória... E isso é um pungente libelo contra o lado negativo da solidão do mundo.

9-A letra da canção Triste é uma descrição de sua vida?

Essa canção ela é uma fabulação apenas. Uma estória criada por um escritor. Um conto curto que acabou nesse formato musical que você pode ver no youtube. São mídias sobre mídias. Pois o formato da canção é uma mídia, assim como o youtube ou um livro. E é por isso que encaro a canção como algo que é mais do que a canção, é teatro, performance. Aquele Luiz Felipe que está no vídeo, de óculos escuros, ele é muito uma personagem. E o que são as personagens senão o outro em nós mesmos e por nós mesmos? Ou seja, é claro que a origem da canção, o que a impulsionou, vem do estado de espírito de seu autor em determinado momento da vida. E esse estado de espírito é fugaz, mutante, foge. E, se retorna, já está preenchido de novas experiências. No entanto, a tristeza da canção, na canção, permanece, por mais que hoje eu seja o sujeito mais feliz do mundo. Não que seja o caso.

10-Você também tem grande participação no teatro com peças como Na verdade não era. Como é o seu trabalho nos palcos?

Sempre quis escrever para teatro (hoje quero menos). Então fui estudar teatro. Aí acabei virando ator. A minha formação acadêmica foi em artes cênicas, na CAL, uma escola do Rio de Janeiro. Lá conheci bastante do ofício do ator, li muitas obras clássicas da dramaturgia mundial. Foi natural então que as coisas que à época eu vinha escrevendo acabassem influenciadas pelo teatro. Quando me dei conta, escrevera uma série de peças. Na verdade não era foi o texto em que mais longe cheguei como dramaturgo, na medita em que procurei dialogar com autores do passado para então romper com a tradição do drama e depois, no último ato da peça, voltar a ele, investindo no conceito do teatro pós-dramático, mas com a pretensão de não respeitá-lo em seu formato mais praticado. O resultado da peça me espanta, a polêmica que ela causou, tanto pela estrutura quanto pelo conteúdo, que se confunde com a vida dos envolvidos. Lembro que meti mãos à obra e não sosseguei antes de estar convencido de ter criado o meu Frankenstein, o Na verdade não era.
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E a montagem dirigida por Nina Rosa Sá muito me agrada, especialmente por corroborar com essas idéias e ideais de dramaturgo que eu vinha tendo. Nina é uma diretora de sensibilidade ímpar. E acho mesmo que acertou na mosca sempre que encenou textos meus. Sem contar que as atrizes não mediram esforços para atingir aquilo que Jersy Grotowski chamou de ato raro. Em minha opinião, muitas vezes elas chegaram lá.

11-Entre seus trabalhos destacam-se também cursos e oficinas. Como eles são realizados?

Na verdade nunca ministrei cursos ou oficinas. Uma vez conversei sobre literatura dramática com alunos do segundo grau, o que foi revelador e gratificante. Especialmente por me permitir saber que ainda sou um piazão entusiasmável. De modo que não estou fechado a tais práticas, caso exista interesse.

12-Você consegue ganhar a vida com a arte?

Claro que sim! Sem a arte, acredite, eu estaria morto. Mas se você me perguntar se estou financeiramente tranquilo, se meu futuro está garantido, é bastante óbvio que não. Mas quem está tranquilo, e qual futuro garantido?

12-A sua infância, sua família, o tipo de educação que você teve... Tudo isso tem alguma coisa a ver com a sua opção pela música e a poesia?

Meus pais nunca me disseram: leia, você precisa ler. Acontece que em casa sempre tivemos livros. Herdamos uma biblioteca de meu avô, por assim dizer, populada por grandes figuras e suas obras. Esse lugar da casa sempre foi um bom esconderijo, ali se respirava dormitando livros. Eu tive essa sorte.
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Já a música nunca foi minha opção. Ela é só um jeito de se estar com amigos, de fazer um pouco de farra, de dividir idéias. E nisso a família teve pouca influência. Embora tenha sido em casa que descobri um disco do autor que mudaria minha relação com a música: Chico Buarque. No começo eu não entendia aquilo de “joga pedra na Geni / joga bosta na Geni”. Lembro de meditar por bastante tempo e não ir perguntar nada a meus pais. A música para mim sempre foi o brinquedo de se brincar coletivamente. Eu tenho um primo quase da minha idade que toca violão, com ele comecei a trocar as primeiras figurinhas musicais. Mas eu não levo a música à sério, talvez porque não tenha jeito para instrumento nenhum. Gosto da música porque gosto dos meus parceiros. E se posso ser considerado compositor, sou compositor popular. E acho compor música sozinho muito chato, e bem mais difícil. Escutar música sozinho é agradável, mas quando você se dá conta já está sofrendo.
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A música, diferentemente da literatura, não povoa uma casa só com o pensamento. A literatura, diferentemente da música, não povoa uma casa com pessoas vivas e eloquentes. São naturezas distintas. Poderia então dizer que o excesso de livros em casa deu a mim a música nas ruas. E a música das rodas do mundo, deu-me o aconchego essencial da solidão na literatura.
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13-Você já estudou Direito, Jornalismo e Letras, mas abandonou tais cursos. Por quê?

Não eram a minha praia. O Direito me assustava e me assusta ainda. Digo, o modo como é ensinado e praticado no Brasil. Digo isso sem querer generalizar, é claro, pois, inclusive, lembro de bons professores que passaram pelas salas em que estive. A teoria essencial do direito romano, a sistematização, a lógica da construção das leis e suas tantas falhas, isso tudo é deveras estimulante. Muito do pensamento humano se deve aos juristas, à sensibilidade de juízes ao avaliarem acontecimentos atrozes, a indicarem rumos para que possamos viver protegidos por certa ordem. Mas, em mim, o problema foi que a convivência com os profissionais da justiça me fez logo ver o quão tudo é injusto. E que a burocracia é um ninho para traças. Depois, que nos arquivos mais antigos vai que muitas ratazanas fizeram sua toca. Em resumo, eu me desencantei.
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O jornalismo, por sua vez, trabalha com a realidade de um modo que não me parece justo (essa é a palavra da hora), dada sua insuficiência. Já que o registro de um fato é apenas uma das visões possíveis desse fato, então o jornalismo também produz peças ficcionais de algum modo. E se um jornalista começar a pensar assim ele será seduzido pela ficção e aí, quem sabe, se tornará antiético, porque um jornalista não pode escrever inventando, ele tem que acreditar piamente que aquilo que está escrevendo é o retrato fiel do ocorrido, ou então não será imparcial, não é mesmo? Era um pensamento que me ocorria com frequência durante o período em que estive no curso. Além do mais, se você quer escrever contos e poesias, não pode ficar pensando em cabeça, gravata, em perguntinhas como o quê, quando, onde, etc. O jornalismo para mim era inviável. A não ser que eu fosse uma espécie de Hunter Thompson, ou um Hemingway. Mas aí as cartas estariam abertas na mesa: olha, eu sou escritor e trabalho assim, quer ou não? Enfim, precisei abandonar o curso. Ficaram daquela época algumas aulas de filosofia, uma introdução à semiótica, o carinho pelo professor e poeta Luiz Alberto (Pena) Kuchenbecker, e minha parceria musical com Carlito Birolli, Cauê Menandro e Matheus Lacerda, que nasceu num dos bares ao redor da faculdade. E também o estágio que fiz no caderno de cultura do Jornal do Estado, na época em que o meu amigo, o mordaz Paulo Polzonoff, deixava a cidade em polvorosa. Hoje em dia ele está em outra, pode apostar. Mas com Paulo e com Alessandro Martins, editor da página de cultura, aprendi algumas coisas. Aprendi, por exemplo, que não vale a pena atacar um artista gratuitamente só para deixar a cena em polvorosa, certo? Ser sério, ser sério e responsável, obrigação dos jornalistas.
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Sempre preferi me perder nos acasos, casos e dificuldades da ficção. E o curso de Letras pode que forme teóricos e técnicos, não necessariamente escritores. Não que não existam excelentes escritores dentro da academia, existem. Não que eu também não tenha vontade de me aprofundar técnica e teoricamente, eu tenho. Mas na época em que neguei tais cursos eu era bem mais jovem. E a negação me levou ao Rio de Janeiro. Quer dizer, não poderia trocar essa estória acalorada por outra, principalmente nos sítios do Direito, logo eu que “sou todo errado”.

14-Você é conhecido por andar pelas ruas de Curitiba, entre vários cafés da cidade. O que busca? Personagens, cenários, histórias, enfim, o que nasce dessas andanças?

Eu vou aos cafés para beber macchiattos, capuccinos e comer pão de queijo, ora bolas. Mas é claro que sempre estou atento. Me dá prazer conversar com as pessoas, ouvir suas estórias. Às vezes paro e anoto algo que me ocorra. É bom estar nas ruas para ver a vida e sentir que faço parte dela. Como disse o Samuel Beckett, gosto de prestar atenção àquilo que ninguém está vendo. O óbvio, o que está na cara, a banalidade cotidiana, é aí, para mim, que se esconde o assombro. A literatura que faço não é autobiográfica, ou seja, não é sobre mim, mas seria ingênuo pensar que ela não é feita a partir de mim. Então eu preciso ir até lá para constatar certas coisas. Depois de ver o escritor pode imaginar melhor. Eu jamais quereria ser como o Dalton Trevisan, que é conhecido por andar nas ruas, todos sabem a cara dele, e mesmo assim fingem que ele é invisível. Para mim é assim: ou o anonimato total, ou a obrigação do bom dia, como vai?

15-Como você avaliaria a poesia da sua geração?

Do que eu conheço, muito me apraz. O pessoal é erudito, têm técnica exemplar, e verve. Alguns apresentam mais paixão, outros uma ambição da métrica. Se comparada a algumas gerações anteriores, a poesia de meus contemporâneos está mais aproximada da vida vivida, do corpo a corpo com, como disse Drummond, o sentimento do mundo.
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Você não me pede, mas tomo a liberdade para destacar dois extraordinários poetas: Edson Falcão e Rodrigo Madeira, trabalham em polos distantes, mas você não fica indiferente ao ler um ou outro. Falcão se aproxima da filosofia, revelando suas potencias a partir de uma existência comezinha, pacata. Mas não se engane, é uma poesia de ventosas que penetram o sangue do cérebro. Madeira vem com seus pássaros ruins como que saídos de nuvens negras, um universo denso, mas que é ouro dado o requinte de sua arte.

16-Quais artistas que mais te influenciaram? E hoje, qual ainda te espira?

Tantos. Vem à memória assim de supetão: Salinger, John Fante. Tchekov, Samuel Beckett... No Brasil, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes. Entre as mulheres, Clarice Lispector, um assombro, Hilda Hilst, outro. Fui absolutamente arrebatado por Raduan Nassar, por João Gilberto Noll de A fúria do corpo... Meu Deus, isso não tem fim, e olha que nem saí dos escritores ainda. As influências e inspirações não sossegam um minuto. Como minhas relações com a arte até hoje foram bastante abrangentes, aconteceu muito, por exemplo, de as artes plásticas influenciarem no teatro que eu pretendia fazer, seja como ator ou autor. Ou então, escritores me mostrarem o caminho para determinada cena que eu estivesse dirigindo. Ou algum instrumentista me revelasse o sentimento perfeito para um poema, etc, etc, etc. Essa é uma pergunta difícil.

17-Ao lado de Alexandre França você dirige a companhia de teatro Iconoclastinhas. Como é esse trabalho?

Os Iconoclastinhas éramos uma dupla de poetas, chamemos assim, performers. Duas personagens politicamente incorretas que incendiaram a cidade por algum tempo. No fundo, uma estripulia artística. Mas a dupla não existe mais.
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Quando, já sozinho, resolvi fundar meu grupo de teatro, com o consentimento do França, apropriei-me do nome. E com essa Iconoclastinhas Cia. de Teatro realizei alguns trabalhos, não muitos, pois logo apareceu em meu caminho a diretora Nina Rosa Sá, da Companhia Provisória. Naturalmente nos transformamos em Provisória/Iconoclastinhas. Mas isso não fazia sentido, pois não? Daí que da nossa fusão nasceu o grupo Teatro de Ruído, do qual hoje faço parte, cumprindo especialmente o papel de dramaturgo.

18-Quais são seus próximos projetos?

No momento trabalho na minha Trilogia da Geada. São novelas independentes, mas com uma mitologia entranhada que perpassa as três.
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Na primeira, A neve não tem gosto de algodão doce (o exílio), a trama acontece entre Rio e Curitiba; A segunda (a terra, o lar), chama-se Tudo que não esqueço é ilusão, o resto foi real, nela trabalho com um conceito de memória inventada, onde narro alguns episódios de uma família curitibana, moradora de um bairro periférico; Depois, Outras paisagens secretas (cárcere), acontece num restaurante chique e central, um homem e uma moça conversam e rememoram uma ausência, um mesmo amor, que ambos perderam.
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As três são narradas na primeira pessoa, por personagens nascidos em 1975, o ano em que nevou em Curitiba.

19-Conte um pouco como foi morar no Rio de Janeiro e estudar na Casa de Artes de Laranjeiras.

Foi uma das coisas mais importantes em minha vida. No Rio de Janeiro, caso esteja aberto para a aventura (e eu estava), você será brindado com uma injeção de humanidade em cada poro de seu corpo. Seus olhos assistirão belezas ininterruptas ao mesmo tempo em se sujarão de decadência e desamparo. O amor, a leveza da bossa nova, a ancestralidade do samba, a cultura dos negros, o peso histórico da época em que foi império, a Ipanema e o Leblon paradisíacos que você vê nas novelas do Manoel Carlos (que não são de todo uma mentira, embora sejam), tudo isso e muito mais é possível reconhecer e, depois, conhecer a fundo. A natureza explodindo em cada janela, a contradição naquelas edificações sobre pedras, túneis abertos feito um pão sem recheio. E a Cidade de Deus, a Tropa de Elite, as atrocidades que vemos no noticiário, tudo isso também está por lá, e se faz presente na tua esquina quando você menos espera. Mas só um tolo não subiria os morros ao menos para conhecer, não iria até a Mangueira, ou não tentaria encontrar recantos selvagens em praias afastadas. Afora isso, vivi alguns amores insuperáveis, outros insuportáveis. Fiz amigos, creio, para toda a vida. Convivi com famosos legais, famosos medíocres, com andergraudes insípidos, com andergraudes geniais. O escritor que sou hoje, para o bem ou não, deve-se muito a minha estada no Rio. E jamais poderei esquecer que a CAL, embora esteja longe de ser perfeita, do ponto de vista artístico, injeta em você uma quantidade inestimável de referências e ensinamentos. A possibilidade de conviver com grandes mestres, como Celina Sodré, por exemplo, isso de viver o ofício do teatro mais de seis horas por dia todo santo dia, com aulas de expressão corporal, aulas de técnica vocal, aulas de história do teatro, enfim, é algo que não sairá de minha carne. Tudo isso fez com que, após esses anos todos, mesmo tendo voltado para Curitiba para me curar, eu possa afirmar: o Rio é mesmo a Cidade Maravilhosa que todos dizem. Isso quando ele não é a Cidade do Foda-se.

20-Pessoas de outras cidades atribuem aos curitibanos o rótulo de ser muito fechados, mau humorados, antipáticos, como você rompeu com este estigma?

Com bom humor e simpatia. Sem forçar a barra. Esses rótulos colocados nos curitibanos são uma falácia. Em minhas andanças poucas vezes vi um povo tão bem educado quanto os curitibanos. Não é que sejamos antipáticos, apenas não somos invasivos. Mas isso são características que pensamos identificar no povo, em nós curitibanos, quando na verdade cada ser é de um jeito, e tem gestos variáveis conforme a ocasião, apesar dos traços de personalidade. E, além do mais, os cariocas gostam muito do curitibanos, eles nos têm em altíssima conta.

21-Que recado deixaria para os jovens que admiram o seu trabalho e pretendem seguir a mesma carreira?

Agradeço de coração aqueles que admiram meu trabalho. Espero poder continuar escrevendo sempre. E tal admiração me ajuda a prosseguir.
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Aos que pretendem ser escritores, digo o que digo a mim mesmo: Leia, leia, leia e escreva. Depois releia, releia, releia e reescreva. Não se afaste das suas origens, elas farão você ser original. E, lembre-se sempre: tanto para o leitor quanto para o escritor, a literatura é um brinquedo extraordinário, um jogo diverso, mas daqueles em que se brinca sozinho. Queira ou não, é assim.

22-Me escreva um poema inédito.

Um que nunca foi escrito antes. Aí vai:
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na boca cai bem um sorriso
um sorriso para que você sorria por aí
feito um bobo alegre
um bobo alegre, pois não
tem coisa melhor?
um bobo alegre capaz de mudar o
nome do tédio para ameno, eis
uma boa proposta
feita pelo bobo alegre
o mesmo que diz ser preciso
esgotar o desgosto e
gostar desse gozo
o mesmo que acha o inverno
uma ótima estação para se
desenvolver, estética e
espiritualmente, o corpo
o corpo de ficar embaixo das cobertas
só beijando na boca
beijando na boca até secar a saliva
diz o bobo alegre, depois sorri
isso é bem bom: ir sorrindo
sorrindo, e que não seja
da boca pra fora

notas para um livro bonito

digo para mim: atente para o real
a única coisa que é real é o real
a única coisa que não é escassa
a única coisa que abunda
a única coisa que é excessiva e inevitável é
a realidade, insista nela, não fuja quando
não há para onde fugir, delírio ou racionalização
não interessa qual dos dois polos
ambos são a realidade, razão ou delírio
um a entranha do outro, o real, o real
ilusões são ínfimos ácaros, mas ínfimos
ácaros são a realidade, inexistências
por saberem-se inexistentes inexistências são
a realidade, a poeira, o pó, o sopro
te fazem espirrar, espirrar, não expirar
e-mails expiram, e-mails são virtuais
os olhos que lêem e-mails são reais, e-mails não
e-mails são o mundo virtual
mundos virtuais expiram e não me venha com
ficção científica, ficções são a realidade e
a realidade não expira, morre-se mas não se expira
cientistas morrem e espirram antes de morrer
então atente para teu espirro de cientista
para tua porra de cientista
não me obrigue a falar de sexo, cientista
você é um cientista, menos paixão e... o real
invista nisso, se quiser goze
se quiser se borre todo, sue, cuide ou
estrague esse corpinho que tua garota depois a
terra hão de comer, e invista nisso, no que é real
é o que digo para mim, para esse corpo
esse humano no espelho
espelhos, espelhos de espelhos
espelhos não guardam nada, tua imagem, nada
espelhos são reais, o que eles não guardam não
seja uma cobaia da vida vivida, não da vivível
da vida atestada, não da testada
ou então dê com a testa na parede e saiba quanto
as paredes são reais, mas mais real que a parede é
tua cabeça, de alguma forma, nem que seja assim, burramente
use a cabeça, faça isso, a burrice é real, faça isso
estupidamente se concentre nesse
objetivo, amigão, concentre-se, arqueiro zen
você acaba de provar que é bom de trocadilhos, faça isso
trocadilhos se preciso for, mas vá no que é real
e é o que faço, a concentração, tudo
realidade!, realidade!, eu sigo o conselho
atento para o real, a única coisa que é
mas os fantasmas são tantos
os fantasmas a me entreter

uma epígrafe

"as idéias são nossas,
seus fins inesperados."
Shakespeare

sábado, 20 de junho de 2009

especulações sobre o amor simples

"...a neve iluminada pelas estrelas estava vermelha."
Yasunari Kawabata
por mais que escolhamos como
amamos quem amamos e
quem não amamos
não escolhemos quem
amamos quanto escolhemos
quem não amamos, apenas
amamos quem amamos e
não amamos quem
não amamos e isso é tudo

você tenta tenta, mas amar
não é como praticar
exercício de levitação
mesmo assim você pratica
se vai levitar? o que você acha?

você quer fazer do amor
um ritual, com paciência
prepara o altarzinho
você quer amar como fizesse
a cerimônia do chá
mas como conter a maldita
síndrome das pernas inquietas?

ai o amor, amor
e o sexo (tão gostoso)
ai de mim, de nós
é como disse dia desses
um amigo ao telefone:
existem mil maneiras de
preparar Neston

sexta-feira, 19 de junho de 2009

antologia drummond


Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.
... ... ... ...

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não enceram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas por entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
... ... ... ...

O enterrado vivo

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.
Carlos Drummond de Andrade

O Estado de Paranóia

Hoje será lançado o romance O Estado de Paranóia, de Tiago Santos Lima. Espero estar lá no CafeZau, onde será o evento, tomara que eu consiga. Um mês e pouco atrás (mais ou menos), por intermédio do jornalista Rafael Urban, chegou até mim o livro. Causou-me ótima impressão. Então, na época, escrevi pequeno comentário a respeito. Foi publicado na Folha de Londrina, agregado à matéria maior que tratava da obra. Segue a passadela de olho:

O romance O Estado de Paranóia, de Tiago Santos Lima, apresenta um narrador cuja técnica é deleite, jovem, veloz. Construído entre a tensão do que é fato mas pode que não seja, ora quase jornalístico, noutras uma invencionice repleta de humor. Nem alegórico, nem realista, palpável, e isso não é pouco. Um tanto de iconoclastia, outro de paixão por aquilo que se olha até a decadência urbana voltar a maltratar a consciência do leitor. A cidade de Curitiba se resume a uma sigla, mas a humanidade das personagens, cuja identificação nos é imediata (você as conhece, você já esteve com elas, talvez você seja uma delas), a amplia, faz de Curita um lugar no mapa. Ao acusar nossas características provincianas as desmente, pois um livro com tal qualidade não se faria por aqui se já não amargássemos as insuportáveis dores abdominais que uma grande metrópole amarga.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Eis o serviço para hoje: Lançamento do romance O Estado de Paranóia.

A Editora Multifoco e Luciano Zaina convidam você ao coquetel de lançamento do romance de estréia do curitibano Tiago Santos Lima. Trata-se de obra ficcional sobre a cidade de CWB, capital do estado de Paranóia. Ameaçado de extinção por políticos como Roberto Regalão e Capitão Richa, o Centro continua sendo habitado por personagens que você pode ou não reconhecer no cotidiano; gente que só quer dar continuidade a uma vida pacífica se vê subitamente afetada por doses de alucinógenos experimentais despejados nos reservatórios de água; gatos pulam de janelas e continuam vivos, mas com outros nomes; a polícia corre atrás do prejuízo com escudos, cassetetes e todo o resto do aparato de proteção a civis desarmados.

Acontece nesta sexta-feira, 19/06, a partir das 19 horas.
O CafeZau fica na Rua Augusto Stresser, 318, Alto da Glória.
Fone: 3018.1088

Sobre o autor: Tiago Santos Lima é desistente da faculdade de Letras. Além de textos ficcionais espalhados pela internet afora, escreveu um livro de contos publicado pela Editora Plus (O Monolito - disponível pra download em www.editoraplus.org).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

balbucios de blues

Na foto está o poeta-cantor Leonard Cohen
.
caso você possa imaginar os
crepúsculos Paris/Texas ao longo das
estradas que voltam para o sul.
caso você já tenha posto os olhos numa
garota com os cabelos encaracolados ao vento.
passado as mãos nessas coxas, depois
ligado o rádio, olhado pelo retrovisor e
pensado “ok, Kurt Cobain, tudo vai
ficar tranquilo daqui para frente.”
isso, claro, se você já foi capaz de
estudar minimamente o esqueleto do
fogo, as entranhas do pranto, a ressaca das
tintas de Modigliani.
sei lá, mas talvez você seja capaz de
ir fundo, encarando um búfalo de frente.
talvez você se apiede de
recém nascidos, perguntando-se
“o que afinal eles vieram fazer aqui?”
é provável que você tenha desejado amparar
Silvia Plath no chão da cozinha.
é isso, se você perde tempo em fliperamas, em
restaurantes fest food, em cinemas privê.
é claro, você já deve ter arranjado uma
tremenda confusão por se sentir deslocado nos
salões do Graciosa Country Club, seja como for
como sócio ou como garçom num baile de debutantes.
sei lá, talvez você deseje ser invencível como
Jean Claude Van Dame, movimentando-se feito uma
libélula na Sessão da Tarde, derrubando
bananeiras com as canelas carcomidas.
é bem provável que você esteja ligado
ao que me refiro.
então é possível que você esteja ansioso para
conhecer essa estória toda.
ou quem sabe você está
pouco se fudendo, gargalhando
feito um crítico de cadernos literários
achando tudo uma tremenda imbecilidade.
o lance é que não existe método nem
requinte por essas bandas.
a vulgaridade desse texto é feita de
parágrafos apunhalados.
pânico-amor, beautiful loser amor.
estrelinhas apagando e acendendo em
carrossel dentro do crânio.
acho que você sacou o quanto isso aqui é inflamável.
reparou no quanto os pulsos estão
boquiabertos, os supercílios
dilatados que nem um hematoma.
você já deve ter manjado as
pálpebras batendo asas feito
passarinhos que colidem e vão dando
cambalhotas ladeira abaixo.
é possível que eu tenha prometido não
machucar ninguém, e não me estragar.
mas alguém está me cutucando, alguém veio e me
meteu um pescoção.
e assim chegamos a tal ponto.
quem suportar concorre a uma rifa.
eu já banquei o idiota que
passa horas ensaiando o que
falar e quando chega a hora manda uma
merda do tipo “por acaso a sandália não está um
pouco grande no teu pé?”, ou então
“na minha opinião as músicas do
Chico Buarque com eu lírico feminino só
funcionam para mulheres que
não atingem o orgasmo.”
místico? talvez.
e ainda assim demasiado urbano.
é preciso esclarecer algo
desde já: visionários gostam de
becos, ruelas e apartamentos encardidos.
eu não.
.
*dedico essa postagem ao meu amigo, poeta e tradutor do Cohen, Fernando Koproski.

notas para um livro bonito

mas se da noite o
preto não tivesse cores em
vários pretos amanhecendo cores não
haveria o dia não haveria o
dia feito de cores cada um
com a sua mistura de
todas as cores do
preto todo dia fica noite

terça-feira, 16 de junho de 2009

notas para um livro bonito

o que tem ritmo de sangue não é esquecido
o que amou mais que a pretensão não é esquecido
nesse instante sou condenado à
liberdade de me conter
chegam-me mundos pensados
nascem-me ninhadas de negações
nada entendi quando peguei em
concha o barulho de estar vivo
a vida engole sem dentes
a iluminação da carne é mais forte que o sol a pino
quem convive escuridões que mordem, esse
não será esquecido (será?)
respiro um céu bélico
me engasgam águas evaporadas sem raiz
estou cercado de lados por todos os eus
o suor é um acontecimento viril
apodrecem também as veias dos ossos
eu suspiro e explode uma
existência com metabolismo e tudo
o tempo não tem margens
o tempo não incha com os anos
o corpo é quem (um ser) incha
a lentidão é criança com memória desabitada
a violência é a velocidade infantil de
labirintos que se deformam, de coreografias do
silêncio que se imprimem entre falas
não há rumos para liberdade
aquele que silencia, para ele o olvidar
não há rumos, só rumores
e muros sendo erguidos
invisíveis edificações agora ruínas
abismos entre homens e mulheres, entre olhos, boca
axilas, pau, cu, buceta
como se isso fosse a liberdade, a liberdade
a liberdade
de esperá-la, desespero
de desesperá-la, nasço
para ser esquecido
nasço morrendo em cada música
fique a música, fique o ato
o que tem ritmo de sangue é
obra (um soco, ele passou por aqui)
o pretensioso que amou mais que a
pretensão, fique
ou pelo amor
ou pela pretensão, fique
(feito um sopro ele passou por aqui)

tecnologia do afeto

A atriz Ciliane Vendruscolo ao lado da diretora Nina Rosa Sá

A diretora Nina Rosa Sá escreve semanalmente para o Jornal Caiçara (http://www.jornalcaicara.com.br/cultura.html), de União da Vitória. Em sua resenha de alguns semanas atrás ela escreveu sobre o lançamento que fizemos do Inverno dentro dos tímpanos por lá. Para variar, a Nina me deixando comovido. E achando que ela é demais carinhosa com esse escriba que não merece tanto.
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Sobre o inverno
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Sim, de fato esfriou bastante. Mas, convenhamos, este não é um espaço para se discutir temperatura ou estações do ano. Até porque, tecnicamente, o inverno não começou ainda. Embora pareça que sim. Então por que nomear esta coluna assim? Bem, existem invernos metafóricos.
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Na semana passada eu estive aí na cidade junto com dois amigos muito queridos para lançar o livro de um deles. Inverno Dentro dos Tímpanos, de Luiz Felipe Leprevost. A outra pessoa querida era a grande atriz Ciliane Vendruscolo, que nos acompanhou para ler alguns contos. O lançamento foi promovido graças a uma parceria bacana entre a Fundação de Cultura de União da Vitória e a Confraria da Cerveja, e também organizado por uma porção de outros amigos queridos. Sem contar os amigos que sempre prestigiam este tipo de evento.
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E uma vez que estávamos aí, prontos para ler alguns contos do livro, fiquei incumbida da missão de apresentar o autor. E da mesma forma que comecei lá na Confraria, começo a minha fala sobre ele aqui: o Luiz Felipe Leprevost é meu amigo. A gente se esbarrou na vida por obra do acaso e de um ciclo de leituras dramáticas. Nós nos conhecemos quando eu fui convidada a dirigir uma leitura sobre Hilda Hilst no Teatro da Caixa e ele foi convidado a atuar. Tínhamos nos esbarrado fortuitamente umas duas ou três vezes, mas nunca tivemos tempo de conversar propriamente. No processo de ensaios da leitura acabei me identificando, e muito, não só com as referências desse incrível poeta, dramaturgo, contista, ator e diretor, mas também com o seu coração de artista. Depois da leitura apresentada prometemos os dois que não nos separaríamos. E cumprimos a promessa. Tanto que aqui estou, falando sobre ele, sobre o seu livro e também sobre suas peças.
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O Leprevost tem uma teoria que muito me agrada sobre a arte e a vida em geral. A teoria é tão importante que ele escreveu uma série de pecinhas, que combinadas, formam uma peça chamada Pecinhas Para Uma Tecnologia do Afeto. A teoria é mais ou menos sobre isso. Antigamente – e eu uso a palavra antigamente para me referir ao ano passado – ele acreditava numa didática do afeto. Que se estendia para todas as formas de comunicação. O modo como se escreve o mais burocrático dos e-mails, mas ainda assim prevalecendo uma espécie de carinho pelo destinatário, é um exemplo disso. No final do ano passado, inconformado com a quantidade de tecnologia envolvida na feitura de um espetáculo e o total despreparo de alguns atores, Luiz Felipe, digamos assim, evoluiu a sua teoria. Surgiu então a tecnologia do afeto. Que é a única coisa que nos interessa.
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Segunda-feira passada nós apresentamos mais quatro pecinhas no Wonka Bar. Em cena, eu, ele, o Leo Fressato (de quem já falei neste espaço) e a Fábia Regina. Antes de irmos pro bar arrumar o cenário e outras coisas, nos reunimos aqui em casa para terminar o pouco que faltava. Eu passei um café e, enquanto a Fábia terminava de editar uma gravação em off e um vídeo, ficamos conversando. Foi quando Leprevost disse a coisa mais incrível. Nós não falávamos sobre teatro ou sobre arte. Sequer falávamos sobre a apresentação de logo mais. Não. Falávamos sobre amor, sobre paixão, sobre sexo, sobre beijar na boca. Ele se virou e disse: “É por isso que eu sei que a gente vai dar certo. Porque ao invés de ficar falando de teatro e dessas coisas, a gente fala sobre beijar na boca. Porque a gente só sabe falar sobre amor. Isso é tecnologia do afeto.” E a verdade é essa, nós sempre estamos declarando algum tipo de amor.
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Por isso, Inverno Dentro dos Tímpanos, o livro de contos lançado em União da Vitória na semana passada, é tão tocante. Por mais que alguns contos sejam bastante experimentais, ainda assim eles são sobre amor. No caso da obra, talvez apareçam mais os defeitos e as crises que o amor provoca. Em minha opinião, existem dois tipos de contos dentro do livro. Alguns mais experimentais, um pouco mais leves e outros tristes de congelar a alma. Como eu já disse, existem invernos metafóricos. Junto com o amor vem o desprezo, a dor, a inabilidade de derrubar uma lágrima, a solidão, o abandono, as drogas pesadas, o exílio. Não há redenção fácil. Há o trajeto, em alguns casos, para um lugar um pouco mais ameno.
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E apesar da tristeza salpicada em cada página, nós ainda continuamos falando sobre beijo na boca. E apesar da tristeza vinda de outros lugares, o autor foi bastante feliz em seus dois dias de União da Vitória. E apesar da tristeza também há espaço para o sarcasmo, para a graça, para um espírito meio Bukowski.
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E pra quem quiser saber das impressões do autor sobre a nossa cidade, ou apenas quiser ler mais coisas, encerro aqui deixando um trecho do que lá ele diz, e o endereço do blog: “Eu, Nina Rosa e Cili estamos em União da Vitória - PR, cidade que vive de mãos dadas com Porto União - SC. O trilho do trem não é o que separa as duas cidades, ao contrário, é sua aliança de casamento.” http://www.notasparaumlivrobonito.blogspot.com/.
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Nina Rosa Sá

domingo, 14 de junho de 2009

notas para um livro bonito

eu sei, tudo esteve mais
etílico que ético
com alicate
aperta-se os bagos da ingenuidade
agora pouco, ao amanhecer
pombas raivosas atacavam o pipoqueiro
então você olha para o bosque e
lobos amam ovelhas
gatos amam ratos, como assim?
justamente
lobos matam ovelhas
ratos são mortos por gatos
eu sei, mesmo o mais horrendo sentimento
pode ficar pior
imagine um felino felpudo
ou até o teu poodle toy
ele acaba de cair do 13º andar
e agora toda aquele afeto são
vísceras explodidas
eu sei, mesmo nos domingos mais lindos as
coisas podem dar muitíssimo errado
mas não darão, não hoje
a partir de agora
borboletas são bússolas de luz
e não tenho mais olhos, pupilas e retinas
não tenho mais olhos, mas miragens de
minhas origens
e um futuro promissor
pois já não posso enxergar sem filtro a
coloração rubra e pegajosa das
coisas más
nem comer sem molho os ossos do
mundo cão
nesse momento desenvolvo uma
armadura que protege por dentro
ela é feita por pedaços de ternura
beijinhos de amor correspondido
e poemas de Vinicius de Moraes
agora o porre, a náusea
já passaram

viva o mestre chacal

Ruas

há meio século
ando pelas ruas
há cinquenta anos
cruzo rio brasília
londres são paulo
cidade do méxico lisboa
amsterdan nova york
a pé

mix
de finalidade interior
e casualidade exterior
tudo me interessa

os olhos
não usam viseira
nem os ouvidos
capota
o nariz
eu trago atento
o tato
bem apurado

absorvo impressões
de outros
que caminharam
por mim
em minha caminhada
pelos outros

paisagens
urbanas
suburbanas
superurbanas
me constroem
o tempo todo
em que eu
ando e paro
paro e ando
reparando
do que é feito
o conteúdo
da caixa preta
do planeta
chacal
do livro a vida é curta pra ser pequena (2002)

sábado, 13 de junho de 2009

notas para um livro bonito

eu, flagrado em ato religioso
por meu bróder Gilson Camargo

o sol esbranquiçado capote escombros de meu destino
esfarelem-se nos labirintos das sombras os lamentos
nada posso renunciar sem morrer na lentidão da madrugada
abandonem-me as lanças pontiagudas
as cólicas flamejantes da cólera
o sabor da chama do sangue
a queimadura na pele do amor
abandonem-me para que os ossos trabalhados por
séculos não se desgastem do sofrer por dentro
a noite trema entre estalactites, depois derreta
derrame-se a neblina sem revolta de sombras
e não me banhe o cheiro da lua
sou lobo treinando o não combate
não me amedrontem relâmpagos insaciáveis da revolta
a cabeleira, incendiada e palpitante
confirme os ornamentos de ventos noturnos no traço de
algum pássaro azul
talvez nada exista que não valha ser gasto com boas risadas
ou talvez nada não sejam algumas trapaças
não me permita dar as cartas nem blefar
vamos lá, Curitiba, sugue meu falecimento
abra-me sonhos de humanidade
peneire a aspereza da maledicência
o frio no vitral de meus olhos me acuda a
enxergar fundo onde já não cabe nada do que não é meu

sexta-feira, 12 de junho de 2009

balbucios de blues

eu, fotografado por rosano mauro






você trincou os dentes
decepou a calma e o último cigarro

mas esqueceu que eu aprendi a usar escopetas
e tenho munição
e sei ser frio feito o mês de julho
e a música, nesses tempos
vai que é só um jeito de
enfrentar as assombrações da madrugada
pra isso não serve guitarra tosca nem violão sofisticado
escuta então, teu ouvido é bom
por baixo das canções os silêncios são eternos e enjoam
são rezas amaldiçoadas
são pesados pesadelos com zumbis a enfrentar
anjos tão caridosos que chegam a se desmoralizar

e você trincou os dentes
decepou a calma e o último cigarro

como se não fosse o desespero o cerne da tranquilidade
como se o que é letal não tivesse na morte sua rotina
e assim não acabasse finalmente o que não finda
exatamente como teve um dia em que alguém veio e
te disse: “isso aqui se chama noite
aquelas ali são as putas
o bar mais badalado é aquele
o mais vagabundo é aquele outro
e o resto é contigo.”
aí você logo soube que alguns blues salvam os
homens de morrer mais cedo em cada acorde

e você trincou os dentes
decepou a calma e o último cigarro

e achou que era importante respirar o
pulmão cianótico, viciado da cidade e
chorar com os cotovelos
e assim você passou a não ter tanta certeza se, de fato
uma casa com livros na estante
é mesmo um lugar seguro
aí você deu alguns socos em almofadas e
sentiu que era possível
depois você cansou
vestiu uma panca herdada de pacato cidadão e
mansinho, engatinhou
e passou a conversar com fadas
e comer batatinha frita com alegria sob o frio de
rachar os ossos dos que já faleceram

então você trincou os dentes
decepou a calma e o último cigarro

e foi asssim, você sempre tão intuitivo
logo sacou que nenhuma escola ia te ensinar a ter carisma
nem te daria a manha de cantar umas
baladas tristes pra impressionar as gurias.
alguém veio e te tranquilizou: “você é bom, garoto
você é muito bom”
não foi preciso que você envelhecesse muito pra
entender como tudo funciona, não é?
você sempre foi perspicaz

até que você trincou os dentes
decepou a calma e o último cigarro

então pensou com seus botões: "se você não é malvado
pelo menos faça cara de azedo
de furioso, porque não basta ser inteligente
por aqui é preciso agir com uma certa
severidade", não é mesmo?
mas que porra é essa
você é poeta ou é um delegado de polícia?
você é tão astuto
já devia saber que a poesia tá fora da poesia
que o teatro tá fora do teatro
e que a única coisa que interessa na
música é o silêncio que fica depois que
ela se desmancha na invisibilidade do ar
é esquisito confirmar que você ainda não
percebeu que perece de tanto pulsar o
coração desses dias chuvosos
você já devia saber, meu chapa
as dores são só da dor
mas você ficou bom nisso, né
você se tornou alguém muito bem humorado
você se tornou realmente grande

e trincou os dentes
decepou a calma e o último cigarro
e não é isso a fera

você vomitou em cima do que restava da ternura
e já era bem tarde
repara, joguei a toalha faz tempo
essa é a boa ou a má notícia?
a navalha tá afiada esperando alguém dar o
primeiro solo dissonante e
você ainda continua querendo
brincar de quem é mais triste
eu quero outra vida
já coloquei a chama dos olhos numa forminha de
gelo e guardei no congelador
e não me apazigua saber que
desde sempre
foi você o primeiro a desengarrafar o ódio
não eu

nero

A primeira vez que entrei debaixo de uma chuva com um guarda-chuva, eu já era bem grandinho, tinha perto dos meus 22 anos (tá bom, tá bom... já tinha andado com guarda-chuva, mas quando era criança, por causa da minha mãe, que sempre levava, mas a partir dos meus 11 anos, como todo adolescente que se preza, eu também era rebelde, e achava chapéu, cachimbo, pijama e guarda-chuva coisas de velho, e nunca mais carreguei um. Quando chovia me molhava, era minha “rebeldia encharcada”, ou então me escondia por debaixo das marquises, minha “rebeldia soturna”. Enfim me lembro que fiquei anos sem pegar num guarda-chuva). Um dia já cansado de me molhar, e atrasado para um compromisso que não podia chegar atrasado e muito menos molhado, me peguei comprando uma daquelas sombrinhas floridas (de mulherzinhas), que os homens ficam oferecendo por 5 reais na Rua XV. Saí em passo ligeiro, pois estava atrasado, e fui parando, e sorrindo, e sorrindo e... parando... parando... pa-ran-do... e o meu riso abriu mais, e eu parei. Comecei a rir, rir forte, nem vi as pessoas que, imagino, passavam me olhando, achando que eu era um louco. E eu gargalhei, senti uma coisa fria na boca do estômago, muito próximo de quando nos apaixonamos por algo, ou alguém. Fiquei encantado com o ato de estar embaixo da chuva e não me molhar. Era uma sensação, como se fosse um passe de mágica. Como se eu fosse o mágico. Não mágica de sininhos ou gente voando, era como mágico de circo do interior, mágica do homem de capa, cartola e coelho. Mágica “chinfrim”, que você sabe que é ruim mas funciona. Achei, naquele momento, aquela armação de varetas móveis coberta de pano que nos protege da chuva, a maior invenção de todos os tempos. Tinha me esquecido de como era estar embaixo da chuva sem se molhar.Lembrei disso porque hoje tá chovendo, e eu sei como é bom sair por aí correndo que nem moleque apaixonado se molhando de chuva. Mas sei também que mais cedo ou mais tarde todos precisamos de proteção, como o braço num abraço... ou um guarda-chuva na chuva.
Alexandre Nero
.*fiquei com saudade desse malandro.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

duas epígrafes

"Ele se lembra dos anos passados como se olhasse por uma janela embaçada. O passado é uma coisa que ele vê, mas não toca. E tudo o que ele vê é borrado e indistinto."
Wong Kar-Wai
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"O poema não é um slogan. / Ele não pode te enunciar. / Ele não pode promover sua / reputação para a / sensibilidade."
Leonard Cohen
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
Paulo Leminski

terça-feira, 9 de junho de 2009

thomas markus dhaese

Mais cicatrizes

Dr., o sr. acha q alguém como eu é normal? Eu já fiz mais de 25 cortes no braço, deixei o sangue escorrer num copo e bebi (mostrando as cicatrizes). Dr., já me enchi de álcool e taquei fogo em mim mesmo (mais cicatrizes). Eu não posso ser normal, eu sou atormentado demais.
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Esses dias foi lá em casa um pastor. Eu tava deitado na minha cama. Ele entrou na minha casa e disse que sabia q tinha alguém naquela casa precisando de ajuda. Foi entrando e chegou no quarto. Minha mãe veio junto.

(Pastor) Eu vim para trazer a palavra de Deus. Eu falei: peraí! Peraí! E tirei o meu revolver e o meu punhal que tavam na cinta, botei em cima da mesa. E falei: agora pode começar. E recebi aquilo que ele falou, e me fez bem, fiquei calmo. Minha mãe chorou muito. Falou que eu nunca tinha recebido a palavra de Deus na minha vida.

Mas sei onde tudo começou. Eu frequentava um lugar de coisa ruim, ruim mesmo! Lugar onde frequenta Zé Pelintra, Exu Rola, não pode ser coisa boa, né!? Um dia eu resolvi que eu não queria ir mais naquele lugar, queria ir embora. Mas quando eu saí de lá me disseram: Daqui pra frente tudo vai dar errado na tua vida! E deu.

Quando eu saí de lá, minha vida virou esse inferno, eu fazia de tudo pra tar numa briga, nem q fosse pra apanhar. Eu gostava de apanhar, mas também gostava de bater, queria ver sangue. Entrava até em briga que não era minha. Fazia qualquer coisa. Já usei tudo que é droga. Já fui preso várias vezes. Já apanhei demais da polícia.

Agora eu tô mal. Minha mulher me expulsou de casa. Ela tá grávida. Eu já tenho dois filhos, um com cada mulher. Essa é outra ainda... Me dá alguma coisa pra me acalmar, por fravor. Eu tô muito nervoso.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Saindo dali, saiu sem direção e foi atropelado na avenida. Mais cicatrizes.
Thomas Markus Dhaese

segunda-feira, 8 de junho de 2009

notas para um livro bonito

1
.
estar em outro lugar é
não estar para os olhos de quem
está em outro lugar.
fugir é um modo de se estar
em outro lugar.
estar noutro lugar
pode que seja algo da
saudade de alguém.
e saudade de alguém
sempre é ausencia.
e ausencia sempre é ninguém.
e ninguém não tem olhos.
.
2
.
entre janelas e portas
fico com as portas.
quem traz o esparadrapo
ou quem chega para arrancá-lo
ambos entram e partem
pela porta.
janelas só servem para
suicidas, para
vasinhos de flores e
para cortinas.
as paisagens, que são
o outro nome da saudade
as paisagens
ignoram janelas.

domingo, 7 de junho de 2009

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.
Paulo Leminski

notas para um livro bonito

mas o fim da vida não implica no fim do dia.
o fim do dia não implica no fim da chuva.
o fim da chuva não implica no fim do frio.
o fim do frio não é o fim do cinza e
alguém com febre não tem
todo o tempo do mundo.
o mundo dura mais do que a
febre das pessoas.
mas o mundo de alguns acaba
quando acaba sua febre.
e a beleza pode que não tenha
relação nenhuma com tais
temperaturas térmicas
embora muitos sejam capazes de
converter febre em beleza
mesmo que beleza e febre sejam
insuficientes para se compor uma vida.
assim, o fim do sexo não é o fim do amor.
o fim do amor não é o fim da doença do amor.
a doença do amor pode vir a ser o
começo das metáforas sobre doença, amor
febre, frio e chuva.
e não há antídoto capaz de
neutralizar uma metáfora.

sábado, 6 de junho de 2009

balbucios de blues

"Tudo isto feito uma antiga extrema-unção.
Que seja então. Evoque as formas.
Onde você não tem mais nada
construa cerimônias do ar e sopre nelas."
(Cormac Mc Carthy)

nisso não vai aviso
ou ameaça.
não vai pedido de desculpas
ou arrependimentos.
é só uma constatação de que
comigo sempre será assim como
houvesse uma sanfona
pendurada por ganchos de
açougue no coração.
será desse modo como eu traísse para
desistir de ser perdoado.
como desembrulhasse o
novelo da algazarra e fosse ao
encontro do Minotauro
para não voltar ileso de quatro patas.
será bem desse jeitinho como eu cantasse com
voz de mostro para me acalentar com
fogo, espeto e fumaça vermelha.
outras vezes será
sussurrar limpo igual um
peixe que tirasse sarro da pescadora que
o assassina pela boca.
e assim vai ser, eu a argumentar com
tanta inteligência inspirando o riso frouxo
até que os maiores
espertalhões da cena
acreditassem que sou um patético bonachão com
dedos ou língua sem melodia alguma.
e como será desse modo
a dúvida mais primitiva
estará dentro da tristeza que
não permite aos casais dançarem
agarradinhos sem o constrangimento da
clarividência do momento fúnebre de
seus cuidados.
sim, vão me oferecer bolachas tarja-preta
férias, banquetes de álcool.
e então será quase como
eu permitisse que a enfermidade aporte.
mas, deixem-me revelar, optei em não
perguntar o que é dito nos banheiros femininos durante
o intervalo para umas baforadas que soltam no
ar particulas de suas alminhas mirradas disfarçadas de
eu sei de tudo e um pouco mais.
ou, permitam que eu seja mais claro:
já viu como os jegues e mulas adestrados não
são imaturos quanto os que mordem e
escoiceiam?
palmas para eles.
de minha parte, almejar uma
imperfeição para
minha maturidade artística é
tudo que posso e possuo.
e então será assim quando serei extraordinário por
rezar o mundano.