segunda-feira, 31 de agosto de 2009

manual de putz sem pesares

Impregnados de ogivas

Eles têm a saúde do ferro. Comem business e presunto no café da manhã. Não adianta que você tenha ódio. Para eles sempre será inócuo, eles cagam para você. Não adianta que você tenha raiva, a raiva é a maior estupidez que alguém pode. Ninguém vai se indignar, não se iluda. Acostume-se, eles sempre vão ser assim, anciões, acéfalos, mandando em você, dizendo o que você pode e não. Você foi criado por (lindas?) lendas. Sim, eles dizem ser trabalhadores legais. Se comparam aos bichos mansos. São aqueles que acham que compuseram as melhores histórias ao longo da História. Os que afirmam ter construído essa megacidade de ecos megaton. Eles sorriem para você como pássaros cordiais, pombinhas da paz, cercados por blindex e carterinhas do clube. São os inventores dos truques, os donos das trupes, são os trapezistas da economia local. Eles e seus anéis. Quem sabe tenham em mãos a recomendação expressa e pessoal de outro ilustríssimo Senhor Algumacoisa. São os mesmos que estão pasmados, têm olhos esbugalhados, lábios bem contornados de desconfiança. Ontem jantaram às 21 horas em ponto, ao lado do novo investidor. E inventaram apelidos legais para novos amigos. E têm um carguinho comissionado em alguma espelunca. E ajudam os que vão legislar a favor de seus cavalos lisos e sóbrios. Mas são sombrios, enormes homens que já quebraram enormes pedras e hoje têm mãos como as de Hércules. Para o coração têm átrios e ventrículos de durex e elástico quando pulsam segundas-feiras. É verdade que não entendem como puderam a vida toda atravessar rostos sem encanto e guardar tantos ossos na gaveta quando é já passada a meia-noite. Conhecem os que picam, sabem quem são os donos das ratoeiras, quem deve virar pó, quem eles vão descamar. Têm as pomadas certas para aliviar o rabo. E seguem aquecendo motores. E se escondem em pudores para esmola. Eles chovem, trovejam e não entendem que não seja nunca meio-dia. São o tchau rápido, o oi réptil, o paladar da perda engolida à vácuo. São os bichos-trauma comendo ordenações, com olores de cédulas. Querem o sabão na boca suja dos outros. Suas paixões se engendram na atrocidade dos dias. Quem lhes dá calçadas sem buracos? Querem seus parentes longe daqueles que provocam holocaustos. Engolem o tempo como se engolissem espadas com molho de tomate. Ninguém os precaveu de seus topetes. E eles contratam estagiárias. Dinamitam, fundem miolos, deixam sequelas e escondem o corpo débil. Estão impregnados de ogivas e sensacionalismo. E paranóia. Protegem com saquinhos de plástico sua ecologia. Seus perfeitos logotipos apodrecem e continuam idênticos. Sabem que nada é tão ameno quanto os ingênuos. Mas não se sabe exatamente que cara eles têm. Não se sabe que tora aturam dura na memória. Você pode até achar que os reconhece nas ruas, nos jornais, na net. Mas sua gangue ascende de gentes invisíveis, invioláveis, involuntárias até. Eles barbarizam sem correr riscos. Jamais aterrissam. Não falam demais, mas enxergam como telescópios. E ouvem mesmo o sussurro de um peixe de águas fundas. Eles conhecem jogos de ilusão. Estão nos centros, mas à margem das margens plácidas. Sabem que a ambição mora dentro do nervo. E a paranóia a cavar ciclones, ensurdecendo, tumultuando o que não acaba quando já acabou, os endividará.

domingo, 30 de agosto de 2009

o pão brutal de ontem

A lua de dentro dos vaga-lumes

Pianos com melodias de granizo chovem no que vai pensando a moça durante o trajeto que a leva para casa. O vidro do ônibus é o soco no qual o homem a divisa uma última vez mandando um beijo que contém gelado o tchau. Pesam no estômago da moça as nuvens de fim de tarde e o verão que a todo tempo grita “fogo gera calor que gera tempestades”. Logo, terá medo a moça feito o tem as pessoas sem paisagem, sem perspectivas de futuro? E mais: sentirá saudade? E pior: saudade de quem, de quê, desse homem? Depois a chuva pára. Então anoitece. E ainda vai a moça, agora a luz a flutuar feito a lua de dentro dos vaga-lumes em seus olhos que, possivelmente, estão fixos nas poças d´água que molham as calçadas de agosto. Enquanto o ônibus chacoalha, a boca muda da moça cospe pregos contra o homem. O ônibus se afasta oito, quinze quarteirões. Bem antes ela encostou a cabeça no banco e quase dormiu. E depois, talvez... E se agora dorme, sonha? E se sonha, ronca? E o sonho é o quê? Com quem? O sonho é exatamente assim: “Ele nunca mais vai por as mãos em mim, aquele animal. Mais uma dessas e vou até a delegacia das mulheres.” É o corpo dela lembrando com nojo as mãos ásperas do homem. O miolo das pernas ultrajadas da moça. Lá atrás, sem ao menos se dar conta desse levíssimo suspiro de frio e revolta na noite que lacrimeja de dor, lá atrás, nalguma calçada do bairro, o homem cheira a ponta dos dedos.

notas para um livro bonito

é inverno e resta esse branco e
cinza semelhante ao que
emerge da literatura do vovô vampiro
e há os sons das partituras do
Bento Mussurunga esquecidas nalguma
gaveta emperrada dos porões de poeira da
Escola de Belas Artes
é inverno e ainda os sussurros de
cor sépia que se apalpa em
ruas estreitas, úmidas feito
a São Francisco, onde se arrastam
correntes das Iluminações
insondáveis sarjetas dos
olhos mostarda de qualquer pobre diabo
nos finais de tarde a estipular
quando termina o turno das atrocidades diárias e
começa a cair, maciadocicada, a treva
é inverno, madrugada, inverno ainda porque
convém, aliás, aos condenados em
suas prediletas horas

sábado, 29 de agosto de 2009

notas para um livro bonito

parece que tudo
poderia ser resumido
assim: o que não consigo
é o que eu sou

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

notas para um livro bonito

cochilo... o vento é leve feito beijo de mãe
não há dor, física nem metafísica
as pessoas que mais amo estão comigo
sinto a proximidade de seus corpos
posso ouvi-las na sala a tagarelar o
hálito alegre das vozes sobre absolutamente nada
cochilo, sei que não poderei prender para
sempre esse instante, então que passe, e logo
a plenitude está no que vai, some, parte
o que permanece não é mais que a
perda constante da consciência sobre o tempo e
sua dilatação... esquecer é que é guardar
não quero reter momentos das felicidades que vivo
como alguém que pretendesse a raridade de si mesmo
a felicidade... dia a dia, ela me atravesse
não como eu fosse um túnel, mas a lama que
não admite filtro modelado, ela me atravesse
pois não suportaria encarcerá-la e também já me vejo
convencido de que as coisas acontecem quanto se
sucedem como se preferem

especulações sobre o amor simples

a gente se entende
hum, digo, a gente
se sobrevive

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

lançamento do meu livro Barras antipânico e barrinhas de cereal

Apenas numas de ilustrar a postagem
Esse sou eu, fotografado pelo Gilson Camargo
O manto que estou vetindo é um trabalho da artista Efigênia Rolim
Lançamento do livro de contos Barras antipânico e barrinhas de cereal, de Luiz Felipe Leprevost.
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E também da tradução de Máscara Âmbar, do poeta argentino Arturo Carrera, feita por Ricardo Corona e Joca Wolff.
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28 de agosto, sexta-feira, 19horas, na livraria do Paço da Liberdade (Praça Generoso Marques, 189, Centro).
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Como diz o Francinha, APAREÇAM!
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Achei que ninguém estava sabendo do lançamento de amanhã, mas o telefonema do Fernando Koproski poucos minutos atrás e a entrevista que acabei de dar para a jornalista Melissa Crocetti, da revista Topview, a respeito do livro Barras antipânico e barrinhas de cereal, fizeram com que eu me espantasse. É sempre bom ouvir as palavras de pessoas que estão alegres por você. Obrigado, Koproski. Melissa, que além de tudo é namorada do meu bróder Rubens K, também foi muito atenciosa. Quando ela me ligou, eu que achava não ter nada a dizer sobre o livrinho, acabei revelando algo sobre o conceito que persegui durante a elaboração dos contos, das criações metafóricas, de alguns mitos contemporâneas que se fazem presentes na obra e tudo mais. A matéria sairá no próximo número da revista. Queria ainda dizer que a série de comentários, algumas postagens abaixo, e o e-mail enviado pelo poeta Domingos Guimarães, lá do Rio, isso tudo me deixou numa alegria de criança.
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Ainda mais porque, sabe, dessa vez eu tinha resolvido que não ia escrever release nenhum a respeito do trabalho. Não pretendia alardear o fato. Não que eu quisesse dar uma de recluso ou coisa parecida. Só não estava encarando o lançamento como um acontecimento. Apenas porque ando cansado de acontecimentos. É como disse um dia o poeta Murilo Mendes: Grandes espetáculos exigem pequenas platéias. De todo modo, grandes ou não, depois que os feitos passam e se esvaziam, deixam-me um bocado angustiado.
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Então eu não estava nem querendo promover uma noite de autógrafos. Ia só colocar o livro nas livrarias, no mundo, mandar para uns amigos do Rio, São Paulo, Minas... A minha opção de não-lançamento vinha junto do desejo de experimentar algo novo, já que meus livrinhos anteriores foram festejados em diversos coquetéis ou botecos, um após o outro. E também porque o segundo semestre de 2009 começou com potência total, tenho trabalhado pra caramba, feito dez coisas ao mesmo tempo e tudo mais e, você sabe, "trabalhar cansa". Mas aí o editor Ricardo Corona me convenceu que era importante fazer pelo menos um barulinhozinho a respeito.
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Então amanhã estarei nesse lugar lindo que é o Paço da Liberdade recebendo o pessoal, graças ao empenho da Editora Medusa e da Sissi, amiga inteligente e sensível que cuida com esmero da Livraria do Paço. Algumas pessoas que amo, lamentando, por telefone ou e-mail, anteciparam suas ausências. Não tem problema, esse tipo de cuidado e atenção vale mais. Outras, por sua vez, confirmaram presença e, é o caso, especialmente por elas, vai valer a pena estar lá.
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Um beijo a todos.

últimos dias da peça, com texto de minha autoria, NA VERDADE NÃO ERA

Foto de Marcelo Issamu Deguchi

Último final de semana do espetáculo

Na Verdade Não Era

Teatro José Maria Santos,
rua Treze de Maio, 655.
de quarta a sábado, às 20 horas,
e domingo às 19 horas.

10 e 5 reais. Até 30 de agosto, domingo.

direção Nina Rosa Sá
Texto Luiz Felipe Lepreost
Com Ana Ferreira, Kelly Eshima, Ciliane Vendruscolo e Uyara Torrente.

otavio linhares

Otavio Linhares
Demasiado
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Não, não sou infalível.
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não piloto aviões;
tenho medo de altura;
não como de tudo;
não vou a lugares escuros;
sinto saudades;
não gosto de ver gente morta (isso me deprime e eu choro demais);
pessoas aglomeradas me causam pânico;
trânsito de cidade grande, também;
da solidão eu gosto;
não vou à Igreja, mas, acredito em Deus (na verdade, conversamos muito sobre muitas coisas e acho que ele não concorda muito comigo);
choro em filmes;
sou canhoto;
vou à manicure;
não leio jornais;
não vejo TV;
sou muito ansioso;
leio poesia, escrevo poesia;
mas, não suporto poetas;
os intelectuais me detestam;
sou honesto;
sinto raiva;
vou a teatros;
não peço descontos;
bebo;
fumo;
como carne;
meu coração dispara de manhã;
não consigo dormir;
não acredito em Papai Noel (e coelhos não botam ovos);
não minto... (mentira! detesto ficar sozinho);
tenho muitas esperanças;
uma fúria incontrolável;
adoro cheiro de gasolina;
já saí sem pagar a conta;
sofro de enxaqueca;
.
e amo demais...
Otavio Linhares

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

lançamento do meu livro Barras antipânico e barrinhas de cereal


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Lançamento do meu livro de contos
Barras antipânico e barrinhas de cereal.
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E também da tradução de Máscara Âmbar,
do poeta argentino Arturo Carrera,
feita por Ricardo Corona e Joca Wolff.
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28 de agosto, sexta-feira, 19horas,
na livraria do Paço da Liberdade
(Praça Generoso Marques, 189, Centro).
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Como diz o Francinha, APAREÇAM!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

o pão brutal de ontem

Nesse verão a piscina é nossa

Eu só assisti. Não me pronunciei. Fiquei com medo de que me pegassem para Cristo. Além do mais, só a diretoria ou os ilustríssimos conselheiros têm o direito de se pronunciar nessas reuniões. Nem sei se nós sócias, pobres mortais, temos autorização para assistir as argumentações. Que se dane, eu entrei, sentei, fiquei quietinha no meu canto, apesar de que falaram tanta asneira... fiquei revoltada, principalmente com um velhote com bigodes queimados de nicotina. Toda vez que ele pedia a palavra, introduzia sua fala fazendo alguma gracinha idiota. Deve ser o piadista oficial do salão de sinuca ou da cancha de boliche. “Agora me elucidem, caros colegas, é mesmo uma dúvida terrível que trago comigo me martelando a curiosidade: Lésbicas menstruam?, hahahaha.” Piadista escroto de merda. Deve ter trauma de buceta, já imaginou o bigodão dele todo vermelho? Hahaha, agora quem ri, com desdém, sou eu, Sr. Engraçadão! Em meio a tanta baboseira e um ou outro sócio inflamado ao defender os “nossos” direitos, acabou que a maioria votou contra. Foi isso: Casais homossexuais não serão aceitos como sócios de um dos mais tradicionais clubes da cidade, ora, onde já se viu!? “Mas e os casais gays que já são sócios?”, perguntou a mocinha da cadeira ao lado da minha. “Bem... eles... é...” Depois emendou outra: “E os veados que não são casados, mas são sócios, e não arredam o pé da sauna?” “Esses... é... veja bem... claro que...”, engasgou-se o relator da assembléia. Minha querida, ouvi absurdo atrás de absurdo ontem à noite. “Onde já se viu, um clube sério permitir uma barbaridade dessas e blablablá?”, esse tipo de frase, repetida mais de oitenta vezes, até onde contei, digo, antes de me cansar, foi o mais leve e educado que os sócios diretores e conselheiros pronunciaram. Se você tivesse presenciado... bando de velhos retrógrados. Posso imaginá-los na sauna, a bolsa escrotal mais murcha que um, sei lá, me dá ânsia só de... “Senhores, imaginem nossos netos na piscina, no verão, e um casalzinho desses se malhando”, falou um dos mais exaltados. Um outro tirou sarro: “E a tua mulher, dividindo o vestiário com um Roberta Close, já pensou?” “Êee, camarada, a Roberta Close, pelo que tenho presenciado aqui no clube, é bem mais bonita que a maioria das nobres e elegantes esposas da maioria dos associados”, disse e riu um quarto cidadão, o baixinho que nunca sai da tal da Toca, aquele antrozinho engordurado onde meia dúzia de misóginos alcoólatras contumazes se encontra, no mínimo três vezes por semana. Ah, quer saber, deixemos como está, a gente continua fazendo o que sempre fez, eles não vão ser capazes de barrar duas amigas com mensalidade em dia, carteirinha com foto atualizada e exame médico impecável. Nesse verão a piscina é nossa.

sabrina lopes

a última na honrada sucessão
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eu apaguei você não posso te ligar
e digo mais:
você tem ejaculação precoce
eu fingi todos os orgasmos
você é burro
burro e covarde
e aqui declaro meu amor
enlutada desde que entendo
teu longo longo
silêncio
o nada precede o nada
minhas mãos me levam por linhas tortas
.
a forma dos teus olhos
a cor deles
o jeito como se mexem quando você conta uma história
.
só tu podia te tirar do peito
da tua periquita palpitante
raspou com espinha de peixe
não me restou chance
de agradecer, generar ou saber
do jeito que você fez
fez a raiva lupa da dor teus
olhos
.
com sono
a cor
o jeito como eles riem quando você faz o suíço hippie
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tua taquicardia em mim já foi alegre
.
acendo a luz
olhos sobressaltados
mas as narinas, livres
mas o ar, usado
.
teus olhos,
a adoração neles
o jeito como escurecem quando um amigo se perde
e
pernas gregas
porque sólidas e consistentes
você ria
a barriga roliça
o nariz quebrado
o pau que procurei em todas as lojas
.
o que eu tenho pra te devolver
são os presentes que guardei pra você
.
Sabrina Lopes

viva os mestres solda e jamil

Jamil Snege, do livro Senhor, 1989.
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*Pesquei lá no blog do Solda...
que está de aniversário.
Tudo de bom e muito mais pra ele.

sábado, 22 de agosto de 2009

barras antipânico e barrinhas de cereal

Bernard Shaw
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Bernard adentra a cena entre parênteses e em itálico,
de casaca, traz um guarda-chuva e alguma parafernália 2
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(...)
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Ufa! Mas eu tava querendo te contar, essa coisa de artes marciais e coisa e tal, iam já os meus 83 anos e resolvi treinar jiu-jitsu, foi então que se me deu a revelação: apenas 1% dos praticantes tem cérebro, os restantes são cartilagem e inchaço. Te olhando assim agora desse ângulo oblíquo, ocorreu-me: Por algum acaso você, assim, não trabalha na televisão? Não, né. Suspeitei. É que te achei parecido com o sujeitinho lá do canal 667. É mesmo, você está acobertado de razão, trabalhar na televisão é uma coisa ingrata. Quem é que lembra do pintinho amarelinho do Gugu? Por outro lado, a televisão enriqueceu muita gente, menos a maioria dos atores. Agora, nós que não éramos atores nem maioria... era impressionante, eles vinham e te esfregavam dólares na cara. Sim, sim, eu já trabalhei em televisão, mas tem muito tempo. Aqueles que diziam sim, eu gosto de dinheiro!, esses com certeza ficaram mais ricos que muitos outros que pareciam incapazes de dizer sentença tão simples. De minha parte, ganhei tanto dinheiro que chegou um momento da minha vida que notas e moedas jorravam da palma da minha mão, era assim, eu abria a mão e dinheiro, mais ou menos como acontece com o homem-aranha, mas comigo era dinheiro. Um belo dia, aliás, num péssimo dia, a fonte secou, mas restou essa mancha aqui, lembrança de tempos do quando fui alguém, só essa marca, com a qual sou obrigado a viver em paz, apesar de crucificado, se é que me entende? Agora não, agora pra mim televisão é só uma coisa onde instalar o videogame. Eu adoro videogame, fico até três da manhã plugado. Mas a mancha é o seguinte, no começo não era assim, eu esfregava, esfregava, arranhava, rasgava e a mancha não saía, então desisti. Melhor ser um Cristo pós-crucificação que ficar carregando a cruz pra baixo e pra cima, é ou não é? Mas o fato é que graças a essas desgraçadas dessas manchas aqui nas mãos, transformei-me a mim num belo hipocondríaco. Eu achava que tinha todas as enfermidades da humanidade, ficava muito nervoso, gritava frases que não me diziam respeito: Que adianta ser dono de uma mansão de frente para a Baía de Guaratuba estando na fila de transplante de fígado? E assim foi, eu estava acabado, mesmo, sem dinheiro e sem amor, sozinho e mal-acompanhado. Foi quando soube que crescem lágrimas no nosso rosto no lugar da barba. E, no entanto, apesar de acabado, sem dinheiro e sem amor, sozinho e mal-acompanhado, hipocondríaco, achando que guardava todas as penúrias humanas, nervoso, etc., a bem da verdade, devo admitir, jamais tive doença que não fosse uma mera gripe passageira. Agora mesmo, veja você, estou gripado. Viu a quantidade de guardanapos que usei? Você achou que era tão somente uma mania? Não. Estou mesmo gripadinho. Até, vou revelar, estou aqui na Confeitaria vadiando porque no inverno não consigo produzir nada. Eu praticamente não trabalho no inverno. E como em Curitiba pelo menos onze dos doze meses do ano são invernais, então já viu. Sempre foi as sim, no inverno não consigo produzir nada, só catarro. O melhor a se fazer durante o inverno é ficar fechado em casa. Aí talvez não nos constipemos uns aos outros. Mas eu não consigo, deu 16 horas e eu me empirulito aqui pra Rua XV. A questão primordial, meu rapaz, é: como viver num lugar sem portas? Não tem ideia, né? Pois deixe que eu responda: sozinho. Não se assuste, amigo, foi só uma piadinha. Eu não fico triste mas nem que a vaca tussa. Inclusive, uma coisa que me parece imperdoável no ser humano é isso de se acreditar triste, de modo que passa a enxergar nos outros a sua tristeza, e chega a ficar ofendido se não lhe identificam igual sofrimento. Mas deixa pra lá, isso é psicanalítico demais. E essa bonitinha aí, quem é? Sua amiga? Não? Que pena. Aposto que é a sensação do Centro. Ela parece ser dessas que passam e a piazada não consegue movimentar um miligrama de pálpebras, que é pra não desgrudar os olhos. Deve ser dessas que têm a fada Sininho tatuada na virilha, ai ai. Poxa-puxa vida, o colega vai me per doar, mas visão assim tão feminil despertou-me a urgência de privada, vou correndinho ali e já tô de volta, não saia daí e, se der, traga a menina pra nossa mesa.
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(...)
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Ufa! Você já reparou que quando a gente precisa mijar nossas pernas andam mais rápido? Como eu tô assim, todo transmutado em tartaruga, acaba que parece que cada vez que eu vou no banheiro o banheiro foi transferido uns 100 metros adiante, ao que se não tenho concentração e força de vontade, acabo fazendo nas calças mesmo. Sabe, eu estava pensando lá no banheiro agorinha mesmo, sexo fraco é o dos homens, pois não? O meu pelo menos é. Senão, veja: Constantemente sou tocaiado pela volúpia de mocinhas como essa e seus delírios famintos. Falando nela, cadê a moça, já partiu? Foi isso, veio comprar um maço de cigarros e deu no pé? Que pena. Você deve estar se perguntando: Será que esse velho safado dá no couro? Veja, é bem verdade que vivo lutando contra meus enfraquecidos, dobráveis e esmigalháveis 90 aninhos de pessimismo realista. Ainda mais com Elga lá em casa, que vive promovendo cenas de histeria e irracionalidade, cada vez que chamo uma amiguinha para me ajudar a relaxar. Elga e seus arroubos de incompreensão e o ideólogo basbaque sou eu? Nem que a vaca tussa! Aqui ó! E ainda mais essa agora do meu aniversário. Já posso ver, vão me fazer sentar na cabeceira da retangular e longa mesa para a ceia. A criadagem virá nos servir, algo frugal, estarei eu esperando, até que levantarão a tampa do meu prato: Frango! Como sempre em todos meus aniversários, frango. Elga sabe o quanto detesto frango e mesmo assim. Será necessário insuflar-me batendo com força no prato, fazendo com que o pequeno galináceo acabe por pousar sobre a peruca da senhora mui distinta que estará à minha esquerda. Elga, claro, levantar-se-á, com o perdão da mesóclise, e passará a gesticular energeticamente, lançando-me impropérios. Além do mais, o sujeito que inventou o frango é um péssimo designer, já viu a dificuldade que é comê-lo?, todas aquelas articulações, somos obrigados a destrinchá-las com garras e presas, o frango não admite talher, o frango é um rebelde da culinária. E, por essas e outras, eu não me limitarei a dizer repetidas vezes: Eu não gosto de frango, você sabe, Elga, que eu não como frango. A senhora à minha esquerda, enquanto ajeita o frango numa travessa improvisada, e limpando o vestido, dirá afável: Bernard, não seja tão radical, dê-nos a alegria de vê-lo abrir uma exceção para degustar esta apetitosa ave. Ah, aquela galinha chamando a outra de sua espécie de ave, que palhaçada! Então Elga, como que lendo meu pensamento, dirá: Santo Deus, Bernard, tuas emoções vieram ter em que ponto! Que impertinência, Elga sempre a falar de minhas emoções. O que é que aquela feiosa entende de emoções, se nem uma boa pica tem para sofrer em cima? De modo, amigo, que desde já estou preparando um breve discurso para quando este momento constrangedor chegar, amanhã, durante o meu jantar de aniversário. Quando elas menos esperarem, eu direi em bom som para que todos sejam obrigados a escutar este velhote: Minha lindinha Elga e ilustres convidados, quero esclarecer que minhas emoções são mais sutis que o movimento das bochechas rosadas em umas, e esqueléticas em outras, das senhoras aqui presentes e seus perfumes franceses entre aspas, insuportavelmente empestando o meu ar, não obstante, venho alertar que as senhoras ainda não viram um-nada do que podem causar-lhes minhas emoções sem controle, agora exijo que ponham-se todos daqui para fora! Então, após tal façanha, virão me conter dois frangotes, chamemos assim, dois franguinhos que eu nunca terei visto em toda minha vida, nem mais estúpidos, convidados, óbvia constatação, de Elga Maria a bruxinha gorda. Dois tipos que estão mais para o sétimo lugar numa competição canina. São os estúpidos em que terei de aplicar minhas técnicas de jiu-jitsu brasileiro, que é o mais violento e impiedoso dos jiu-jitsus, arte que aprendi pessoalmente com mestre Hélio Greice, meu contemporâneo. O problema de tudo isso é que a Elga não tem respeito por mim. Admiração então, nem pensar. Antes me temesse. Qual o quê, jamais temeria um velhote cujas moscas, até mesmo as moscas, já começam a orbitar. Mas me resta o jiu-jitsu, uma técnica para a qual a força é menos importante que a capacidade de rastejar feito uma cobra lisa pelas brechas que o oponente deixa em vacilo. Será assim, eu sei, só não vou matar os dois convidadinhos da Elga porque um outro, aparentemente um homem autoritário, arrogante, desagradável, presunçoso, tão gordo quanto vivo, na verdade, revelar-se-á com mesóclise e tudo, uma daquelas espécies de fenômeno social, quase obsoleta, da turma do deixa-disso. Menos ruim, não precisarei sujar minhas mãos. Até que, tudo acalmado, após eu ter dito exatamente esta frase menos ruim, não precisarei sujar minhas mãos, Elga, a gorducha fedidinha, irá se dirigir a mim sorrindo e, como se eu fosse um pobre de um velho gagá, dizendo: Ai como você é irreverente, cavalheiro, nós adoramos o teu humor. Cavalheiro? Quem ela pensa que é para ousar a tal ponto, chamando-me de cavalheiro? Eu devia levantar aquele vestido, baixar-lhe as anáguas e dar-lhe umas boas palmadas. Elga eguinha pocotó dos infernos. Poxa-puxa vida, tudo isso logo comigo, que não bebo, não jogo, à exceção das minhas amiguinhas do meio da tarde, nunca fui libertino. Pô, como não perder a paciência com uma Elga dessa que não quer mais que se esticar na poltrona com um charuto de cannabis enfiado na boca, o copo de uísque na mesinha de centro e, como ela mesma diz, um bom romance policial? Faça-me o favor. O que esperar desta moça que viveu uma existência toda na companhia de pessoas que eram pagas para educá-la quando, como diz a Clarice, Lispector, como não?, há coisas que só se aprende quando ninguém ensina? Acontece que eu não sou pago, nem nunca fui, e tudo o que pretendi ensinar-lhe pareceu-me vazar de um ouvido a outro. Que coisa! Sim, meu caro, talvez eu devesse admitir que Elga não é toda de se jogar fora, é até bastante vistosa. Não fosse extravagante demais, com blusas de cores alegres e as tetas desse tamanho. Às vezes fico até impressionado com autossuficiência da menina. Se não fosse tão intensamente autoritária, chegando mesmo ao nível da brutalidade, mesmo física, por vezes. Elga é boa de grito, mas, convenhamos, se grito resolvesse, não existia porco à pururuca com a maçã na boca, não é mesmo? O melhor método para tirar Elguinha do sério é usando palavras de não estar nem aí. Meu aniversário, sei bem, é só um pretexto pra gordinha fazer suas festas lá em casa, eu bebendo água da torneira e ela com aqueles equinos brindando com champanhe. Bolas. É por isso que me recordo com tamanha alegria de um tempo em que eu mesmo preparava minhas festas de aniversário, eram sempre festas surpresa, digo, festa surpresa para os convidados, porque eram festas de aniversário que eu mesmo preparei para mim e nas quais nunca dei o ar da graça, tá entendendo?, eu não ia nas minhas próprias comemorações, e os bestas dos convidados lá: Cadê o Bernard? O Bernard morreu, queridos, quando ele voltar de Floripa talvez volte ressuscitado, mas ele preparou essa festinha pra que vocês todos, estúpidos admiradores, viessem festejá-lo e deixassem o caminho livre pra ele se empirulitar lá para aquela ilha cheia de tus e visses. Não eram jogadas de mestre, hein? Tive que partir pra medidas drásticas como essas. Pelo amor de Deus, viviam sempre me puxando o saco. Eu tinha que quase berrar: Se vocês continuarem puxando meu saco e me tratando tão bem assim eu vou ter que mandar os seguranças expulsá-los!, e era como se entrasse por uma orelha e vazasse pelo nariz, porque eles só viviam interessados nos pozinhos mágicos que a Elga-mãe, minha falecida irmã, que era a mãe da Elga de agora, arranjava, tá entendendo?, e esse velhinho aqui parecia um ser invisível. Fico me perguntando: Será Elguinha um escorpião?, ou estará mais para aranha venenosa? É uma questão complexa, pois veja, o escorpião age de modo bem diverso do da aranha, o escorpião, perto da vítima, ataca, a aranha não, a aranha é meio burra, só não é burra em certos momentos, por exemplo, no momento em que se vê acuada e nos pica, o escorpião, por sua vez, vendo-se sem alternativas, enfia o ferrão na própria cabeça, isso sim é heroísmo. Em suma, pra ter certeza só se eu preparasse uma situação terrível em que colocasse Elga em xeque-mate, aí daria para saber se ela enfiaria, partindo do suposto de que Elga é venenosa, claro, o ferrão no próprio cérebro. Mas não posso fazer uma coisa dessas, afinal de contas ela é minha sobrinha, não é mesmo? Sangue do meu sangue. Que droga, aposto que ela espera babando o dia em que eu dê uma de escorpião, mas tal data não chegará, Elga ainda terá de limpar minha bunda com Alzheimer, desgraçada. Mas também ela quer o quê?, que amanhã eu me coloque no hall de entrada do casarão e: Boa noite, como vai?, obrigado pela presença, o que é isso, não precisava, o prazer é meu, olha só, até você por aqui, nossa, quanto tempo, que saudade, fique à vontade, era isso?, claro que era isso que ela queria. Ah, que se dane, eu lá sou palhaço, poxa-puxa vida? O esquema vai ser o seguinte: os primeiros convidados vão chegando e eu ó me empirulito pro quarto, me fazendo de indisposto. É exatamente assim que ajo desde meu aniversário de 87 anos, corro pro quarto indisposto. Corro é modo de dizer, na verdade eu como que tartarugueio, ou seja, me arrasto, que é pra parecer bem velho e fraco e doente. Aí chego no quarto, após todo um teatrinho tchekhoviano e, ufa, estou a salvo. Abraço-me à minha farmacopeia e, ufa, estou mais a salvo ainda. Posso relaxar por alguns minutos. Inclusive, falando em relaxar, o amigo me dá licença pra eu mais lépido e menos tartaruga dirigir-me até ali o nosso bathroom.
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(...)
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Ufa! Dessa vez foi dureza, tinha um sujeito lá dentro que não saía nunca, aí quando eu entrei, putz, o negócio tava feio, o cara fez um estrago mesmo, sei lá, deve ter comido um urubu no café da manhã, gente sem educação. Mas como eu tava te contando, teve um outro ano do meu aniversário, sei lá, acho que estava fazendo 88 anos, vixe!, então foi no ano retrasado. Foi, tenho quase certeza. Bem, não importa, só sei que a cambada me encheu a paciência, até que eu busquei meu rifle, pois é, eu tenho uma espingarda, vai saber, pro caso de precisar. Pois bem, tinha um sujeito pendurado só de cuecas no meu lustre. Eu gritei: Vai de leve aí ô Power Rangers! Ele se fez de desentendido. Então foi assim, naquele dia eu precisei usar a Bichinha, que é como batizei minha espingarda, fui lá e acertei um tiro no meio do lustre, eu sou bom de tiro, todos os bundões dos convidados da Elga se assustaram, o Power Rangers rosa estatelou-se em cima da mesa de sobremesa. Depois eu fiquei um tempo mirando um por um dos convidados, e eles se borrando de medo, foi hilário. Aí eu desabei na poltrona e disse assim à meia-voz, como um verdadeiro sábio diria, eu disse: Estão esperando o quê?, adeus, cambada, tchau, hein, tchau pra sempre, acabou a festa. Agora me diga você, dei tchau pra sempre pro bando de maricas e aposto que a opulenta comedora de polenta da Elga vai convidar todos eles pra voltarem no meu aniversário de amanhã, quando completarei meus noventinha. Ora, suck my dick, tão pensando o quê? O que mais me impressiona é que essa gentalha tem a cara de pau de voltar, como se eu fosse um velhote gagá que não vai lembrar da fuça deles com detalhes. Ora, faça-me o favor. Além do mais, não sei se a Elga sabe, porque não é ela quem cuida das contas, mas Samanta e Leônidas, nossos empregados, sempre me deixam a par, gasta-se uma pequena fortuna para se produzir essas festinhas frívolas. E eu vivia dizendo para os criados, suplicando mesmo, para que eles se rebelassem contra as festas da Elga. Mas eles são uns trouxas conformados, isso porque ganham sei lá quantos salários mínimos. Porque se ganhassem um só, aposto que aprenderiam rapidinho a dizer: Vocês nos pagam um salário mínimo como se isso fosse o máximo, seus exploradores de meia-tigela, hoje não tem festinha, escutou bem, Seu Bernard S.? Seria lindo vê-los revoltados, mas nunca vai acontecer, não passam de dois bons vivants, na verdade, na verdade, na verdade, o casarão é mais deles do que nosso, o que dizer dos churrasconhas que eles fazem de quinze em quinze dias e duram de sexta à tarde até domingo um pouquinho antes da meia-noite? Hein? Não são somente as traças que moram dentro dos livros. Existem muitos outros seres, principalmente na minha biblioteca, acontece que eles guardam carvão, lenha, têm até um freezer pra congelar a carne para o próximo evento. É, na biblioteca. É o cúmulo. Esses maloqueiros do cacete! Irrito-me sobremaneira, pois que a churrasqueira avizinha-se da biblioteca que, se não tenho mais visão para ler, ao menos deveria ser respeitada por ser lá o lugar em que durmo e, principalmente, sei lá por que cargas dágua, de domingo para segunda. E não adianta eu ir até a churrasqueira e, com educação, explicar, sendo mesmo didático, dizendo: Meus queridos, é já domingo, faz três dias que vocês deglutem carne bovina e maconha, olhem, será que não dá pra dar uma trégua pra esse velho amigo de vocês, o dono da casa, diga-se de passagem, lá fora já vai anoitecendo e eu também estou anoitecendo, estão me entendendo?, uma pessoa com sono é o mesmo que uma pessoa anoitecendo, cês conseguem me compreender?, e tudo que uma pessoa que está anoitecendo deseja é que lhe deem boa-noite, lhe desejem bons sonhos e DESAPAREÇAM! Mas, meu amigão, eu lhe garanto, não adianta nada, ninguém mais respeita esse seu aristocratazinho cujo coração é uma mesa sem uma das pernas. Eu não aguento mais expulsar essas hordas de sanguessugas, é um tormento. Quando não são os funcionários é Elga outra vez, acho que ela tenta me comemorar umas quatro vezes por ano, foi por isso que cheguei tão rápido assim nos meus noventinha. A mãe dela fazia a mesma coisa. Certa ocasião, num passado próximo, Elguinha pocotó veio com essa: Bernard, você não pode expulsar os meus convidados! Os teus convidados, Elga? É, Bernard, os meus convidados, que seja, para o teu aniversário. Então, pra variar, eu tentei ser didático: Escuta, Elgui, eu não reconheço esta data como sendo uma data festiva, tá entendendo?, logo não a reconheço como sendo a data do meu aniversário, principalmente porque eu me guio pelo calendário chinês. Calendário chinês, Bernard, ora, me poupe, você não tem o mínimo de bom-senso. Pois bem, dona Elga, se falta bom-senso aos jegues, às mulas, aos burros, então também a mim me falta bom-senso, porra! Baixe o tom, baixe o tom, Bernard, os meus convidados podem ouvir as tuas asneiras. De uma vez por todas, Elga, ninguém está interessado se você é ou não é uma bosta de uma mulher que não se exalta! E quase que pulei no pescoço da lazarentinha. Depois, vi-me obrigado a me acalmar e fui para o salão, acabei conversando com o insuportável do amante da Elga, um filho da mãe de um psicanalista, eu me sinto dissecado quando fico conversando mais de dois minutos com ele. É outro puxa-saco de meia-tigela, ou você duvida que elogio demais, babação de ovo, como dizem os cariocas, puxação de bolsa escrotal e tudo isso junto, não são capazes de dissecar uma pessoa que, afinal de contas, é a porcaria de um livro aberto todo rabiscado e com as páginas despregando ou, até mesmo, faltando? Eu detesto conversar com quem só sabe falar em termos técnicos, você vai falar com um botânico e ele já mete na conversa umas monocotiledôneas, dicotiledôneas, paralelinérvias, reticulinérvias e sei lá mais o quê, aí você vai falar com um desgraçado de um psicanalista e ele já vem botando o sistema nervoso na jogada, pô, você só cita, assim coloquialmente, Deus, e o cara já me sai com essa: Deus, Bernard, que história é essa de Deus? Meu velho Bernard, se há um Deus possível ele se chama Sistema Nervoso. Ah, mas que maçada conversar com um imbecil desses. Cê veja como esse negócio do meu aniversário me deixa apavorado, se pelo menos a Elga encomendasse uns brigadeiros, mas nem isso, só tem álcool e frango, que horror. Ou então que se profissionalize, eu falei certa ocasião para Elga, inscreva os meus aniversários nessas leis de incentivo à cultura da cidade, afinal de contas eu, com a minha idade, já sou patrimônio tombado e, quem sabe, até domínio público, não é mesmo? O que me azucrina mais é que eu sei que a festinha de amanhã vai ser igual à do ano passado. Na festa do ano passado, tudo o que podia dar errado deu errado. Agora, tem uma coisa, eu costumo ficar com a parte boa seja lá do que for. Quanto a Elga, uma coisa é inegável, com ela o inacreditável é real, tá me entendendo?, porque estas festas que ela me faz, estas festas são realmente inacreditáveis. Bando de esquizofrênicos viciados em ecstasy! Poxa-puxa vida, como falei. Deu até uma tontura. Vamos mudar de assunto, pois não? Falemos um bocadinho de você. Você não é atleta não, né? Nada, só que não gosto muito de atletas. Cê não é mesmo, né? Nem atleta de Cristo? Que bom. O quê?, cê simpatiza com atletas? Olha, acho que não vai dar mais pra gente continuar sendo amigo. Não, nada demais, mas pondera, pondera meu amigo, põe a mão na consciência e pondera. Já parou pra pensar que talvez os novos sádicos do mundo sejam os personal trainners? Pois é. Pois é. Pois é, mas jiu-jitsu não é um esporte, é uma arte, depois que você domina as técnicas ele é um jogo de altíssima racionalidade, é quase como um jogo de xadrez, com a diferença que, no caso do jiu-jitsu, você está no tabuleiro, digo, você é o peão, o cavalo, enfim, como preferir. Já nos outros esportes a coisa funciona mais ou menos assim, quem perde é como que o canibal frustrado a falar no telefone: Não, bróder, ainda não comi ninguém. O quê? Se todas essas minhas estórias são verídicas? Cê deve de tá de brincadeira. Verídico?, verídico uma pinoia, aconteceu mesmo. Não, não, não, nunca me casei. Nunca. Eita que pareço até um daqueles personagens nonagenários do García Márquez. Queria eu, apesar de não ter me casado, ter sido um grande solitário, mas não fui, vivi cercado de gente, nem agora, depois de velho, consigo amargar uma solidãozinha que seja. Eu adoro, meu garoto, a solidão, a solidão é uma coisa muito nossa. Poxa vida, o ser humano é tão solitário quanto um ser humano, se é que você me entende? Não é que não adore as meninas, porque eu adoro, adoro mesmo. Eu adoro as meninas. Mas respeito, pra não ser acusado de velho tarado. Respeito, mas adoro. Me dou bem com elas até hoje. Não casei, fazer o quê?, paciência. E você, tem uma prática frequente sexual? Hein? O.k., não vamos ficar falando sobre isso. Mas, olha, quer aceitar um conselho desse velhote aqui? Sabe quando eu comecei a me dar bem com a mulherada? Quando eu descobri que as gostosas também choram, se é que me entende? Elas também se sentem solitárias. Todo mundo se sente sozinho, é um horror. Olha, a solidão é uma big band. É verdade, eu entendo à beça desse assunto, uma coisa pelo menos sobre isso eu sei: a solidão anda em bandos. Tá rindo né?, é que você identificou a coisa, sentiu o aroma da perpétua. Eu sou assim mesmo, eu quis ser assim, eu quis ter a liberdade de a qualquer momento da minha vida gritar aos quatro ventos: Sim, eu sou inverossímil! Eu sou inverossímil! Eu sou inverossímil!, cê tá me entendendo? Claro que não tá, não tá entendendo nem 50% por cento do que digo, você ainda nem tem barba na cara. Vou te ensinar um troço que rapidinho vai começar a nascer barba no teu rosto. É o seguinte: pega titica de galinha, bastante, esfrega bem, e passa por dentro da bochecha, o muco vai absorver a titica e é tiro e queda, a barba cresce que é uma maravilha. Olha, vamos esclarecer uma questão, eu me dou bem com o silêncio. Parece que não, só porque hoje estou falando pra burro, mas é que você é um excelente papo, por isso que estou falando, mas eu gosto mesmo é de silêncio, eu adoro os silêncios, os silêncios e as árvores. Quer dizer, na minha opinião, as árvores são os seres humanos mais silenciosos do planeta. As árvores são silenciosas e, como se não bastasse, estão plantadas na liberdade. É demais, eu me esbaldo. O silêncio são horrores de palavras. Por isso que gosto de ir à igreja, eu gosto de ir à igreja, não à missa, eu gosto de ir à igreja porque elas são, como já disseram, esculturas de silêncio. Mas eu vou pouco na igreja, nunca tive uma boa relação com Deus. Aliás, toda vez que tentava me compreender, acabava brigando com Deus. Agora não mais, é que já desisti de me compreender. Agora eu sou assim, digamos, mais sangrado que sagrado, tá me entendendo? Eu descobri isso, não foi fácil, mas descobri, é impossível um ser humano se livrar do desconhecimento de si mesmo, foi aí que eu relaxei, parei de me preocupar com Deus e tudo o mais. Faz anos que eu faço assim, tento manter a consciência, apesar de que somente os vivos têm essa outra faculdade, decorrente da consciência, que é a faculdade justamente de perder a consciência. Então essa acaba sendo uma ótima pergunta, não é mesmo?, o que é melhor, estar vivo e sem consciência?, ou chegar ao ponto em que nada disso mais tem significado nenhum? É um horror, se a gente começa a dar uma de filósofo, pronto, acabou a tranquilidade. Meu Deus, chego a ter pena dos intelectuais. Você não é intelectual não, né? Ah, que susto, Deus me livre pegar um intelectual pela frente. Intelectual gosta de falar, não é verdade? Nossa, intelectual fala pra burro, é um blablablá atrás do outro, tudo sem pé nem cabeça, e o intelectual se achando o gênio da lâmpada, né? Já os sábios raramente falam, não é verdade? Sábio é tudo caladão, acho que é porque daí acontece o seguinte, se um sábio começa a falar demais, a gente logo vê que de sábio o idiota não tem nada, é só gênero, esses imbecis que ficam caladões o tempo inteiro e quando se pronunciam falam bem baixinho, é que no fundo eles estão se borrando de medo de que a gente descubra que eles não são sábios coisíssima nenhuma, é ou não é? Em contrapartida, existem os gênios, os gênios são bacanas, eu me divirto com os gênios, porque se existe uma raça, por assim dizer, que não tem desconfiômetro, essa raça é a dos gênios. Os gênios são o máximo, eles falam, falam, falam, os gênios só falam, nunca escutam ninguém. Eu gosto dos gênios, os gênios são impagáveis, eu gosto dos gênios porque eles nunca estão aí pra nada, os palhaços. Já a gente, os pobres mortais, nós somos tão trouxas que vivemos nos preocupando com o futuro, não é verdade? Um poeta espanhol disse: o pior da viagem é chegar na Estação Clorofórmio. Eu já cheguei. Por isso vivo sendo confundido com um daqueles anciões sábios do Senhor dos Anéis. Mas no fundo eu não passo de um esclerosado de meia pataca, com os brônquios que são já o próprio rosto da tosse. É por isso que quando me aparecem esses piás de bosta se achando poetas, enfiando nesses porcarias desses blogs bloquinhos de textos cheios de métrica e rima, uns formalistazinhos de nada, ficam discutindo entre eles quem é que domina terças e redondilhas, quando aparece uma racinha dessas, eu logo pergunto: O que é que o Hobbit tá enchendo o saco? Tudo um bando de mosquito que com um mísero peteleco se esfarela com uma gotinha do teu sangue junto entre aquilo que nem víscera é. Quantos desses chupadores de sangue alheio chegarão a ser um verdadeiro vampiro?, é o que me pergunto. Agora, veja você, eu era muito amigo de um pintor famoso aqui da cidade, um dia cheguei pra ele e, com a maior franqueza, disse-lhe: Olha, você deveria parar de andar comigo, senão vão se lembrar de você um dia como aquele artista plástico das pinturas para violino, flauta, oboé e dançarinas do É o Tchan. É que eu vivo vulgarizando a arte em que toco, assim como uma espécie de Midas às avessas. É por isso que não me engolem por aí, eu sou carne de pescoço mesmo, sempre fui. Essa gente fodedora um do cuzinho do outro, isso é uma coisa que dá ganas na gente de vomitar, pois que o alimento vomitado é a escultura da necessidade, já que é suja e fétida, é esterco nossa alma. É o mesmo processo nas esferas públicas, povo e governantes, governados e patrões, todos, exímios, mesmo os pedintes, maquiadores. Irrefutável é o argumento de que mesmo o sangue frio sangue é. E sangues sangram, sempre, no entanto. Ferrão e fervura, ferradura e foda. E há infindas não realizadas promessas, que nem mesmo delas a atmosfera de futuro e esperança, quiçá, resistirá a ligas, seitas, sites, gangues, ongs, blogs, etc. Seus milhões de olhos são o lusco-fusco sob pálpebras que ora aplaudem seu anestesiado pesadelo de cidade. Como fosse a cartografia um tanto sentimental de uma vila assim-assado. Por certo Curitiba não é de todo uma cidade, como dizem acusatoriamente alguns, putona. Mas, convenhamos, boazinha também não é. Eu sempre encontrei languidão em suas manhãs, apesar de seu saboroso silêncio de antanho vir cada vez mais dando lugar ao trânsito das saídas e entradas de Faculdades Particulares e comércios em geral, bares e casas noturnas de péssima espécie. Hoje, você sabe bem, há os que prefiram fazer seu desjejum nos famosos Costelões 24 horas espalhados por aí. E há, claro, os como eu, nós?, posso incluí-lo?, que bom, há os como nós, que resistem à baba caricatural em tom pastel de um sotaque fabular ensinado pelas novelas televisivas. Nalgum momento, nalguma daquelas ruas de paralelepípedos, os cidadãos poderiam presenciar o famoso Bloco Carnavalesco Crueldade Social passando. É preciso entender de uma vez por todas que uma orelha em manifestação é o povo, uma superverbalização é o povo, aí sim acabaríamos com esse bando de urubus que aparecem no horário eleitoral de ano em ano. Eu li muito o Bertold Brecht, eu sei do que estou falando. Para nós, amiguinho, restam estes crepusculares momentos, empanturrados, como não?, de potinhos de coalhada de mel. O amigo vai aceitar uma de, digamos assim, sobremesa, não?, eu vou. Ôo do balcão, uma coalhada farta aqui pra mim, agradecido. Mas é como eu ia falando, se o nosso centro durante o dia se mostra pontualmente maquinal, vigiado e entupido de gentes de negócios, à noite as negociatas mudam o foco de interesse, não é mesmo? Tráfico, prostituição, polícias fazendo seu caixa-dois pessoal. É assim que funciona, na política local cada vereador, secretário, deputado, etc., engendram suas freak razões para a canalhice de cada dia. E se você é um artista, você por acaso não é artista, ou é?, não né, certo, mas se fosse, seria assim: cada artista da terra, mais hora menos hora, acaba sofrendo o impacto de ter seus delírios lavados a baldes frios. Ôo do balcão, esqueceu?, duas coalhadas aqui, pra mim e pra esse bom-papo que tá comigo, pois que falar de polititica me dá fome. Agora, claro que eu concordo com uma coisa, isso é pouquíssimo discutível, eu sei, claro que sei que sem dor o homem acaba, é onda que quebra pra fora de si mesma. Mas, é como dizem, no dos outros é refresco, não é assim? Então. Por outro lado, será que devo me animar? Parece que disseram que os Bancos do País estão com um bom plano para pedintes, mas só os que têm limite superior a três mil no cheque especial. É o fim dos tempos, não tenho razão em reclamar? Claro que tenho. Apesar de que sou um pobre coitado beirando os noventinha. No fundo vivi todo esse tempo e não sei nada de nada. Mas você perdoe os meus arroubos de professor de Deus, puro delírio, só não vou negar agora tudo o que anteriormente afirmei porque nem sequer sei o que anteriormente afirmei. O que sei eu? Nada de nada. Dei uma de beatnik. Agora, veja bem, moço, eu sou professor de formação, lecionei minha vida toda, catedrático da Universidade e tudo, e mesmo assim posso afirmar que só sei aquilo que sei. Ou seja, nadinha de nada. Ou seja, só eu sei aquilo que eu sei e o que eu não sei, cê tá me entendendo? Tá entendendo que eu só sei aquilo que na verdade não sei? Viu onde eu queria chegar? Nossa mãe do céu, eu fico pensando em cada coisa. Já me embananei todo, vamos mudar de assunto. Você tem namorada? Não? Mas um moço assim tão vistoso que nem você, tinha que ter uns rabinho de saia. Sabe o que eu gosto muito nessa cidade?, de manhãzinha assim, bem cedinho, as pacas mastigando o gramado do Parque Barigüi na primavera, não é bonito? Ou então as pombas cobrindo feito peruca acinzentada a cabeça do Cavalo Babão no Largo da Ordem. Isso é que é o cu do chique, não as festas cafonas que a Elga dá. Hoje mesmo, enquanto preparava tudo pra festinha de amanhã, disse-me ela: Eu sou uma boa anfitriã, não? E eu disse assim, bastante didático: Elga, eu tava tentando ser generoso, mas esse teu olharzinho de carente profissional me deu uma súbita vontade de te tratar de um modo cretino. Deixa eu dar uma idinha ali no banheiro e então vamos embora, que cê acha?, pode ser?
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(...)
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Ufa! Dessa vez eu tava apertado. Viu, mas antes de ir embora, vamos esperar anoitecer, pra gente ficar achando que a cidade é só isso: luzes enfiadas no concreto. Sabe, eu também já cheguei a uma constatação séria acerca da mulherada, disso eu realmente já estou convencido, eu tenho mesmo certeza de que no fundo do fundo toda mulher não passa de uma verdadeira mulher, se é que você me entende? Isso, chama ela aqui, vamos falar essa bobagem pra ela, de repente ela nos acha simpáticos e vai querer discutir machismo e feminismo, vai ser uma delícia, que essas discussões só me aguçam a libido. Í, não é que ela está vindo mesmo. Olá, como vai? Espero não tê-la assustado com este beijinho nas costas da mão, antigamente fazíamos assim. Seja bem-vinda, viu, lindinha. Que tal uma coalhada com mel e uma Wimi? Como eu ia dizendo pro meu amigão aqui: Se você quer saber se as mulheres fazem comigo o que elas querem, eu vou dizer que sim, que as mulheres fazem comigo o que elas querem. Querida, você não se assuste com o vovô aqui, mas eu tenho que lhe dizer uma coisa: Esse teu cheirinho de quem acabou de sair do banho me provoca ideias adultas. Ah, quer dizer então que vocês dois já se conheciam? Cê tava esperando ela? Sei, ah, estudam juntos na Federal? Que beleza. Bom, então ficamos assim, até a próxima, tchau-tchau, até mais, e olha, não se esqueçam de verificar se o elevador está parado no andar quando vocês forem embarcar. Eu sei, eu sei que estamos no mezanino, mas mesmo assim, de boas intenções o inferno está cheio, não é verdade? Í, caramba, começou a chover de novo, não vai dar pra gente ir embora. Deixem que lhes fale da minha teoria da chuva. Pra mim, pingo de chuva é vaga-lume transparente, é vaga-lume se esborrachando no chão. Vocês viram aquela minha belezinha, o meu guarda-chuva amarelo? É, ele é um guarda-chuva amarelo porque é um girassol preto. Ah, está ali caído. Eu sou um velho, quase que não consigo me abaixar para apanhá-lo, pois posso travar a coluna a qualquer momento, mas mesmo assim eu me abaixo, que se dane, quando é preciso que eu me abaixe, eu abaixo.

viva o mestre amir haddad

Amir Haddad
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Amir Haddad é diretor e professor de teatro, diversas vezes premiado. Com 46 anos de teatro, seu trabalho é, nacionalmente e internacionalmente reconhecido, tem como objetivo recuperar o sentido de festa do teatro e a dramaticidade das festas populares, ressaltando os aspectos de pesquisa e de educação que norteiam suas buscas pela transformação do teatro, comprovados pela constância e persistência com que desenvolve núcleos de trabalho - espaços de desenvolvimento de seus questionamentos sobre o ator como indivíduo, o espaço, a dramaturgia -, e pela prática permanente enquanto educador.
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Criador do grupo Tá na Rua (iniciado em 1980) e considerado um dos maiores encenadores do Brasil, Amir Haddad leva a arte do teatro para o espaço aberto das ruas e praças, ressaltando a importância das comemorações populares na vida social e cultural das cidades. É criador de um teatro preocupado em se comunicar e se tornar cada vez mais próximo de sua platéia. Dos palcos às salas abertas, das quadras às ruas e às praças, rompeu a quarta parede para abrir um caminho em direção a um teatro vivo e transformador para quem vive e o faz.
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Em 2000, foi criado o Instituto Tá Na Rua para as Artes, Educação e Cidadania como um centro de referência para o ensino, a pesquisa e a criação em teatro popular no Brasil, difundido a prática e a metodologia de seu trabalho.
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*Hoje, às 14 horas, no ACT,
oficina ministrada pelo Amir.
Estarei lá. Isso me fará muito bem.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

notas para um livro bonito

pode mesmo que
não exista o diabo
então quem é esse
que gira com
fúria de abocanhar o
próprio rabo?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

barras antipânico e barrinhas de cereal

Bernard Shaw
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Bernard adentra a cena entre parênteses e em itálico,
de casaca, traz um guarda-chuva e alguma parafernália 1
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as formigas te desmontarão
Rodrigo Madeira

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Viemos eu e meu cavalo com buzina e rodas, na verdade um pangaré, estacionei ali naquela quadra, que não precisa de Cartão de Estar. Eu detesto esse negócio do Cartão de Estar. Poxa vida, mas eu vinha vindo, cê não vai acreditar, eu vi você aqui e pensei que era um sósia meu, então eu entrei e vi que não, vi que você é o próprio outro eu mesmo, tá me entendendo?, só que bem mais jovem. Você me desculpe eu vir assim de pijama, mas é que fui abduzido pelo pijama, sabe como é. Me atrasei? Um pouquinho, né? Me atrasei porque acabei de voltar da manicure. Eu odeio manicures. Eu disse inclusive isso pra ela, que ficou assustada. Eu disse: Dona manicure, saiba a senhora que eu odeio manicures. Aí mostrei a mão direita, assim, e ela, como você agora, pôde contar cinco dedos. Mesmo assim eu disse: Odeio manicures porque por culpa de uma delas eu perdi um dedo nesta mão. Depois eu mostrei a mão esquerda, assim, tá vendo os cinco dedos nela?, a manicure também viu os cinco, aí então, mesmo assim eu disse: Eu também perdi um dedo nesta mão, a esquerda. A manicure fez essa mesma cara atônita que você está fazendo agora, então eu fiz com que ela relaxasse, dizendo: É que eu tinha seis dedos em cada uma das mãos. Ela não entendeu nada. Eu assusto as manicures porque na verdade eu é que tenho pavor de manicures. Agora você veja, para amanhã Elga, que não é manicure nem nada, prepara sofisticada recepção em nosso lar. Devo estar apresentável, por isso mandou que eu fosse até um desses salões de beleza, fazer as unhas e aparar a barba. Ora, não sou metrossexual, mas consenti, preciso mesmo fazer as unhas uma vez por mês, senão elas ficam parecendo cascos de cavalo. Ficou bom, você acha que ficou, como disse Elga, apresentável? Veja só, aí a manicure, estrábica de tudo, começou, sem me olhar muito nos olhos, todo um papo de a senhora deveria isso e aquilo. Pois é, ela me confundiu com uma velha. Poxa vida, logo eu que sou muito másculo, apesar da pelanca e tudo. Mas a tal da manicure me irritou, ela não parou com aquele blablablá dela de hein, amiga pra cá, hein, amiga pra lá. Até que eu não me aguentei mais e disse assim na lata: Você é uma pessoa que não se bronzeia, não posso ser tua amiga. É que o meu lado feminino é uma polaca muito da orgulhosa. Polaca da Nhanha. E se for preciso ser mal-educada sou até capaz de gesticular com o garfo com um pedaço enorme de bife fincado nele. Essa manicure, coitada, ganhou uma cliente: O quê, minha Senhora? Eu não posso acreditar no que estou ouvindo. Quer dizer que a Senhora não acredita que suco de beterraba ajuda a manter o pigmento? E a manicure ali na minha frente com aquela cara de entojo estrábico. Como é que a Senhora acha que um morador do inverno nessa cidade cinzopaca mantém o seu bronzeado? E assim sucedeu com a vesguinha. Mas você me desculpe o atraso. Esperou demais? Que frio, não é mesmo? Dá uma licencinha, preciso correr ali no toalete.
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(...)
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Ufa, agora sim, que alívio. Cê me desculpa mas cheguei aqui como se eu fosse um herbivorossaurus todo me cagando nas calças.
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(...)
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Putz grila, cê me desculpe, deixei o guarda-chuva aqui largado. Dizem que guarda-chuva aberto dentro de lugar fechado assim feito um girassol negro acaba trazendo mau agouro. Ai ai, que correria. É preciso secar o suor da testa, meu Pai, não devia ter corrido tanto. Cê alcança um guardanapo, por gentileza? Poxa, por que esta cara emburrada, meu rapaz? Devo pedir novas desculpas? Não. Não vou pedir desculpas, prefiro estreias sem data e hora marcadas. Ou será que devo dar duas batidinhas na madeira porque amei até mais tarde, ora bolas? Além do mais, não sou inglês, não tenho hora para tomar o chá. Eu não me atraso, nunca, eu não me atraso, principalmente porque comecei o dia adiando. Ah, quer saber, não existe inocência, só existe justificativa, eu não me atraso. Entendeu? Aliás, minto, não existe justificativa, só existe pedido de desculpa. Eu, bem, que se dane, eu não peço desculpas. Apesar de que já pedi uma meia dúzia delas quando cheguei aqui, foi ou não foi? Agora, que fique bem esclarecido desde já: Por aquilo que me obrigam eu não me responsabilizo. Isso tudo é culpa da chata da Elga, você conhece a fera, cheia de horário pra tudo que é movimento, se não tem horário não se movimenta, então fica arranjando horário pra ter o que fazer no meio desses horários, tá entendendo?, uma chata a Elga. No mais, tente cumprir horários, há sempre o lixo a retirar, ou então você corta o dedo enquanto passa manteiga no pão, ou ainda o gás que acaba exatamente no momento do banho. Quer saber, desisti de olhar no relógio. É que toda vez que olhava me deparava com a certeza de que sim, meu amigo, eu não uso relógio. Eu acho um horror essa turma de cumpridores de horários, vivem achando que é necessário procurar o psicanalista pra saber os motivos de sua resistência em relação aos compromissos. Como se as calçadas esburacadas já não fossem motivo de sobra pra se chegar depois em qual quer compromisso. Que se dane. E o pior: Ao final da consulta recebem aquele simpático até a semana que vem seguido, é claro, do não se esqueça, a felicidade não bate na porta de gente feia. Adianta, poxa vida, trazer uma labareda em cada pelo do corpo? Não tem saída, Deus até opera, mas só o médico tem diploma. E, pela vontade de, não vou botar Deus no meio, mas de forças maiores, a gente vive mesmo atrasado. Qual o problema? Vai tirar a mãe da forca? Eu não tenho mãe tem sei lá quantas décadas. E forca então nem se fala. Agora me pergunto, e estendo a pergunta ao amigo: Pesa-me ter vivido até os 30 anos às custas de mamãe? Não, claro que não, pudesse teria vivido até hoje às custas de mamãe. De todo modo, aos 90 anos nada mais nos pesa, exceto pelo que trazemos dentro da carcaça. Refiro-me aos ossos. Este esqueleto (Chacoalha o corpo como querendo desmontálo) que está quase esfarelando. Além do mais, de um velho que morre de velhice, diz-se: Morreu de si mesmo. É tudo muito esquisito na minha idade, é como se em cada conversa eu estivesse narrando minhas memórias póstumas, mas acontece que sou uma espécie de Brás Cubas, sei lá se infelizmente, vivíssimo. E estar assim como estou, vivíssimo, é supimpa, formidável, daí a comparação com Brás Cubas, se é que me entende, e daí que deixei pra lá essa estória de infelizmente?, eu sempre estou usando as palavras no lugar errado, ora bolas. Vou te alertar, meu rapaz, é bom que saiba desde já, e fique sossegado, não vou cobrar nada demais pela revelação. Pois bem, você sabe quando um homem passa a reconhecer sua velhice? Quando ele passa, por mais banhos que tome, a exalar um cheiro de porão empoeirado. Ora, e o nosso cheiro é o nosso espírito, não é mesmo? Este cheiro de sopa, eis o que sou hoje. Por isso que sou perfeito para o inverno. Por isso quanto mais velho fui ficando, mais fui gostando do inverno. Eu adoro o inverno e detesto o verão. Mas eu gosto do inverno com sol. Invernos cinzopacos não me atraem. Verão eu odeio, ainda mais verão com chuva, putz que coisa horrível. Pra mim verão é um nojo, porque verão é quando os mosquitos pesquisam quem vai sair de bermuda na manhã seguinte. Dizem que não há nada mais bonito que o pôr do sol na Baía de Guaratuba. Pra mim tem, é estar em qualquer final de tarde em que eu não seja devorado pelos mosquitos. Dizem que velho não sente picada de mosquito. Isso é a maior falácia. Já viu como é fina a pele dos velhotes? Pensa, os mosquitos injetam veneno até no nosso osso. Mas poxa vida, puxa vida, fui falando, falando, falando igual que uma matraca, como se a gente se conhecesse há um século e nem me apresentei. Permita-me: Meu nome é Bernard S., amanhã completo 90 anos de idade e, pode acreditar, já superei a moda, a moeda, a contestação. Muito prazer. Poxa-puxa, que aperto de mão forte que você tem. Tá vendo aquela placa ali, dizendo Fazemos todo tipo de sanduíche, por exemplo, misto-quente, tá vendo? Então, fui eu que fiz, eu faço assim à mão, vou lixando a madeira e talhando, fiz e dei de presente aqui pro pessoal da Confeitaria. Eu não devia ficar vindo aqui comer essas guloseimas, por causa da saúde, sabe como é que é, mas não resisto, pelo menos duas ou três vezes na semana, eu venho pra cá e me escondo aqui em cima no Salão de Chá. A Elga diz que eu vou acabar emborcando aqui numa mesa dessas, que a minha gula por doces e risoles vai fazer com que a indesejada venha me buscar logo aqui na Confeitaria das Famílias, é uma espécie de maldição que a Elguinha me lançou, bem, que se dane, pior pra eles aqui da casa. Agora, parece-me demasiado óbvio que não há nada mais obscuro e gelado quanto morrer, não é mesmo? A questão é: Quantas vezes um homem de 90 anos de idade desejou morrer, mas por motivos evidentes, e não mais óbvios do que justo o fato de estar com 90 anos e ainda ver-se vivo... Quantas vezes, enfim, esse homem desejou morrer, mas pelo visto, já dissemos antes, droga tô ficando repetitivo... Em suma: Quantas vezes esse homem de 90 anos de idade desejou morrer, mas sempre desistiu? Esta é uma pergunta que não direciono a terceiros, mesmo porque existem poucos terceiros no mundo que eu conheça e que estejam avançados em tal idade. De modo que, esta é uma pergunta que dirijo a ninguém mais ninguém menos que eu próprio. Quantas vezes o Senhor, seu Bernard S., já desejou morrer antes de chegar a este ponto no qual está? Não sabe, não é? Não tem a menor ideia? Talvez então o Senhor nunca tenha desejado morrer. É o que digo a mim mesmo. Mas e agora, que lhe pesa a cauda e a corcova? Não, nem agora... talvez. O fato é que amanhã farei os tais 90 anos de existência. Isso mesmo, amanhã é meu aniversário. Poxa-puxa, só agora você entendeu? Não, não precisa, o presente é estar aqui com você. Bom, já que o amigo insiste, que tal me pagar um risoles e uma Wimi? Ôoo do balcão, um risoles de queijo e uma Wimi aqui na conta do meu amigo. Agora você veja, 90 anos de existência e venho que venho, preservado de quaisquer fanatismos, opondo-me, inclusive, a eles. E assim mesmo, amanhã me verei obrigado a comemorar, comemorar o quê, meu Pai?, meus 300 anos, digo, meus 90 anos de existência bamboleante. 90 anos e esta barba. Não, 90 não, muito mais de 90, que as barbas elas vêm dos nossos queridos bisavôs ou tataravôs, por isso falei 300, eu estava certo quando falei 300. 300 mesmo, pois tanto dos bisavôs e tataravôs homens, quanto das bisavós e tataravós mulheres, nos vêm as barbas. Engraçado em tudo isso é que estou convencido de que só cheguei até aqui porque a terra não gosta das carnes de gentes velhas, e é justo por isso que os velhos, depois que atingiram a velhice suprema, vão vivendo até não querer mais. É a virtude da tolerância daqueles que só comem carne fresca. Toleram as outras, mas sem um pingo de humour. De fato, não tem graça nenhuma morrer aos 90 anos, é por isso que aquele que chegou aos 90 não morre nunca mais. Pensa, amigão: Se vim até aqui, virei eterno. Amanhã é a minha vez de virar eterno definitivamente. O problema é que não virão em minha festa os meus, chamemos assim, contemporâneos, os meus verdadeiros amigos, meus amores de um tempo que não volta mais. Ah, aquele tempo, havia no ar, além de todas nossas incertezas, havia no ar algumas certezas, por exemplo, a certeza de que o grande chato é aquele que insiste em pedir o livro que nos emprestou de volta. Eu por algum acaso não estou com livro teu lá em casa, né? Ah, que bom, assim fica tudo nos conformes. Porque se tivesse livro seu lá em casa, dificilmente eu devolveria, é que agora não leio mais os livros da minha biblioteca, agora só quero ficar lá dormindo-os, e se eu devolvesse os teus, acabaria desfalcado dos sonhos que a biblioteca tem me proporcionado, tá entendendo? Mas está tudo nos conformes, não é? Tudo nos conformes e amanhã farei estes malditos 90 anos. 90 anos de imaturidade. 90 anos escrevendo prefácios para e sobre minha própria pessoa, instruções destinadas ao metteur en scène para atores, diretores, críticos, simpatizantes, etc. e outros trouxas, sempre insistindo no efeito moral de meus textos, chamados com recorrência de teatro desagradável. Desagradável mesmo, ainda bem que abandonei essa chatice, lidar com povo de teatro é uma coisa intragável. Ora bolas, querem agrados, que vão ajoelhar no milho! Comigo não tem nada de agradável, amanhã mesmo terei que suportar a festa, a maldita festa: Continua abstêmio, Bernard? Continuo, claro, mesmo assim, obrigado, Mas nem uma bicadinha, Bernard?, você mudou muito, está ficando sem graça. É claro que eu mudei, poxa vida, noventinha, não notaram?, seus beberrões putanheiros, seus... seus... seus duplamente carnívoros. E você, Bernard, não vai experimentar uma lasca desse delicioso lombinho à pururuca? Ou vai nos dizer que já está na base da dentadura? Dentadura... Tendo que aguentar esses chatos, e já com meus noventinha, acaba que eu tô merecendo ser canonizado. Santo!, essa é boa, Santo Bernard, o planeta não teria condições de acolher dignamente um santo como eu. Um santo já com os pés na cova. Puta que pariu, uma cova deve de ser um troço gelado pra burro. Esse frio é um crime, e ainda por cima a histérica da Elga me inventa essa porcaria de festa. No frio, meus ossos (Chacoalha o corpo como querendo desmontá-lo) acabam se contraindo até chegarem no ponto de eu virar um farelo humano. E Elga querendo festejar. A família é um esquizo troço, loucos são os familiares dentro da família, fora dela o mundo diga. Pra cada cinco ou seis sobrinhos-netos que nasçam, um tio-avô dará adeus. Só Elga, esta minha sobrinha, não me dá de presente uns sobrinhozinhos-netos para então eu poder me despedir. Feia, quem manda Elguinha ser tão feia. É feia que dói a desgraçada, por isso faz tanta festa, pra esquecer, viver anestesiada. Desculpe, companheiro, não sei explicar com clareza os motivos, mas às vezes eu fico assim mesmo completamente desanimado. É bom, claro, manter-me ciente de algumas coisas: De que, por exemplo, minha escova de dente vai continuar e meus dentes não. (Faz ação de pegar uma borboleta no ar, mas não há nada na mão dele, é só um efeito lúdico) Veja isso aqui, por exemplo, essa belezinha que tenho segura pelas asinhas entre o polegar e o indicador, escute bem, ninguém ainda me convenceu de que essas borboletas não são óvnis. É que a humanidade também é, não sobretudo, mas ainda assim, uma total compilação de catástrofes. Somos todos essa coisa: só tristeza e lábios compressos em meio a sorrisos trêmulos. Quer o meu perfil? Pois bem, que seja: Sou dolente entre a língua e o dente. Sou delicado e delinquente. Não sou pedante nem pedinte. E estou fulo da vida porque semana passada meu encanador me deu os canos. Como isto me foi traumático, decidi traumatizar-me à exaustão, tendo em vista que a defesa de qualquer trauma é repeti-lo. Então comecei a marcar dia sim dia não com o tal do encanador que, parece-me óbvio, já perdeu o respeito por mim. E é assim que vivo: suportando. É preciso suportar. E a verdade é que, embora eu não fume, vejo-me obrigado a concordar que no momento estamos precisando bem mais de cigarros e cartões de crédito do que de eternidade. Mas é necessário suportar. Urge que suportemos toda e qualquer overdose de réquiens. O que mais de meu perfil? Vejamos. Sou vegetariano. É que se eu como carne, pronto, lá estão um bando de Pit bulls brigando dentro do intestino. É correta a tua reclamação, o pessoal reclama mesmo, diz que conversar comigo é coisa pra descerebrado, que ninguém entende lhufas da minha linha de raciocínio, mas você acompanha, fique calmo, vou dando esses saltos porque com a idade que tenho se eu fico apegado a detalhes a coisa não anda, é óbvio que eu poderia narrar, por exemplo, as sutilezas de um único ser humano, ou de uma única casa, mas aí... Não podei as garras da fraqueza quando pude, agora fui agarrado. Gosto de dar meus passeios. Vivo por aí nas esquinas. É agradável aqui na Confeitaria das Famílias, você não acha? Apesar de que nunca vi uma família inteira entrar aqui, sempre os clientes estão sozinhos ou em dupla. Você já percebeu, não é mesmo?, tô por essas bandas tem quase um século. Eu ajudei a fundar essa cidade. Nem sei como foi que a gente inventou até cimento capaz de agarrar na neblina. De todo jeito, tanto agarrou que estamos aqui hoje. Se eu te disser que justo essa era uma dúvida que assombrava um par de simbolistas, você não vai me acreditar, mas ninguém lhes tirava da cabeça que o Emílio de Menezes na verdade era o leão-marinho Leôncio, aquele do desenho animado, se não me engano, do Pica-pau. Mas você não deve nem saber do que eu tô falando. Simbolismo, é disso que eu tô falando. Quer saber o que foi, o que é?, vai pesquisar, que agora tô com preguiça. Entra na internet, tem tudo lá no Google, não é assim? Eu tô dizendo, piá, era um tempo aquele em que as línguas dançavam geadas. Sempre que alguém entrava no elevador vinha aquela frase preciso de um amor que me aborreça. Dá uma segurada aí que preciso correr lá nos fundinhos.
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(...)
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Ufa!, que alívio, se eu continuar assim mijando sem parar, daqui a pouco a Elga vai querer que eu comece a usar fraldão descartável, mas isso nunca! Olha, mas voltando à estória do amor e coisa e tal, eu vou te dizer uma coisa, na minha opinião, amor não correspondido é doença psicossomática. Aliás, permita-me reformular: na minha opinião, amor não correspondido não é amor. Ou até, pensando melhor, acho que só é amor quando a realidade perde a insignificância, entende? Engraçado, o amor tem ouvido absoluto, mas é surdo a certos chamados. Agora é que se me confundiu tudo, ai ai, preciso pensar. Perdoe-me ter chegado ao ponto de até parar pra pensar. Perdoe isso também de colocar a mão no queixo assim igual O Pensador, perdoe, são os velhos hábitos. Perdoe, mas é que tô quebrando a cachola aqui com um questionamento: E se o amor for uma pedra maciça com um oco por dentro? Eu sei, eu sei, mas a questão é: você pode amar muito alguém hoje e noutro dia amar muito outra pessoa, na mesma intensidade, entende?, e não precisa ser necessariamente o teu cachorro. Quer comer alguma coisa?, o amor, digo, esse papo sobre essas coisas, aliás, papo a respeito de qualquer coisa, dá uma fome desgraçada. Quer um risoles? Não? Eu quero: Ôo do balcão, você mesmo aí de branco tentando enganar que é enfermeiro, traz pra mim outra Wimi laranjinha e um risoles, dessa vez de queijo, que eu acabei de virar vegetariano. Nem perguntei: Você é vegetariano? Não. Eu tava começando a querer ser, mas em você não sendo, então de repente eu desisto também. Í, rapaz, chame o corpo de bombeiros, isole a área toda, chame reforços pelo rádio, se posicione na saída de emergência, que venham os helicópteros, pois agora a minha ida ao banheiro será por outro motivo, você sabe qual. Poxa vida, acho que os primeiros risoles e a Wimi não me caíram bem.
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(...)
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Ufa!, que alívio. Demorei muito? Que bom. Sabe que quanto àquele papo de vegetaria- nismo e coisa e tal, parece que o pessoal votou uma lei aí em relação ao gado. Deve estar dando o maior pepino, porque claro que os deputados que querem aprovar não têm fazenda de gado, e os que não querem aprovar têm fazenda de gado, então como é que fica, né? Agora é que a gente vai ver quantas cabeças de gado existem na fazenda do Governador. Não sou muito de falar de política, mas você é piá novo, sabe quem é o Prefeito de Curitiba? Sabe, né. E o Governador do Estado? Claro que sabe. Foi o que eu fiz, apelidei os nossos políticos de Péssimos. Pra mim é assim: Péssimo III é o nosso prefeito, certo?, e é inimigo de morte de Péssimo II, que é o Governador, que era inimigo de morte de Péssimo I, etc. Fica meio confuso, mas é como eu me acho. Alguns acharam uma lástima que Péssimo I tivesse morrido, é que naquele ano ele tava cotado pra um prêmio que eu inventei pros políticos: Prêmio Nobel da Corrupção. Não é bacana?, dar a eles o que eles merecem, eu só conseguiria premiar um político assim, é toda e qualquer homenagem que eles realmente merecem. Não, eu não, nunca fui político, não me interessava ser, e nem hoje me interessa. Mas certa ocasião oportunizou-se a mim a feitura de um discurso bem no meio da Praça Osório, nem sei quanto tempo atrás, e não sei bem por quais feitos, ocorreu que subi à tribuna e comecei, falando de mim no plural como gostam os políticos: Agradecemos com sinceros votos de grata gratidão 1º os nossos filhos da puta, depois os vossos filhos da puta... Nem bem iniciara a explanação, sei lá por que cargas dágua, os seguranças me chutaram palanque abaixo. Mas não vamos falar de mim. Você por acaso é bombeiro, meu rapaz?, não? Por nada, é que às vezes me vem ao pensamento isso de achar que nós humanos como que deveríamos vir com aquelas portas antipânico dentro da gente. Cê sabe que uma boa portinha antipânico é você ser mestre numa arte marcial qualquer. Mas pelo amor de Deus, tô que tô me mijando, perdoe este boca-suja, mas preciso correr rapidinho ali na casinha.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

variações do solilóquio do lucky

porque não escrevo mais lindas peças de amor

1. quando a gente ama de verdade é muito fácil dizer eu te amo.

2. ...

1. ...

2. ...

1. ...

2. ...

1. eu te amo...

2. ...

1. ...

2. ...

1. ...

2. idem.

notas para um livro bonito

ter a certeza que doemos é fundamental para
nossa sobrevivência, toda medicina sabe isso
e embora a máquina de ressonância revele nossa
mais encravada raiz dolorosa, na verdade
está pouco se lixando para ela, está
pouco se lixando para nossas terminações
nervosas, está pouco se lixando se vão
injetar morfina na nossa espinha
afagar uma lesão é fazê-la doer mais
a dor é um hospital sem médicos dentro da gente
a dor é dentro da gente, sempre uma ambulância com
as sirenes ligadas a nos percorrer as veias

terça-feira, 18 de agosto de 2009

barras antipânico e barrinhas de cereal


Ótima companhia para urubus

Laçaram-me no pasto mesmo, sem frescura. Derrubaram-me. Amarraram minhas quatro patas na altura dos tendões. A corda, com alguém segurando, ficou bem esticadinha, envolvendo uma árvore ou algo resistente, pra me impedir de levantar. Um deles se encarregou da minha cabeça. Segurou meus chifres firmemente e torceu o pescoço na direção oposta àquela em que estava deitado meu corpo. Assim, desse modo simples, facilmente fiquei imobilizado. A partir daí não foi preciso muito pra que finalizassem a tarefa. Bastou um canivetinho de bolso. O mais impiedoso dos três pegou com a mão e apoiou meu saco, esticando bem, sentindo as bolotas, empurrou-as pra cima do escroto. E com cortes sutis, porém nada cirúrgicos, abriu duas portinhas. Eles não se desesperaram nem nada no momento em que lutei, e lutei com todas minhas forças, para vencê-los, afinal boi é boi não é homem, e por isso não pensa, e, por consequência, não pode vencer o homem. E tampouco pode entender o porquê de uma ação dessas. De fato, nada podia justificar tal crueldade, ao menos não do meu ponto de vista, nem mesmo suas razões socioeconômicas e políticas. De mim escorreu um pouco de água e, por fim, as bolas, que foram o motivo de tal esforço. Diziam os caubóis, enquanto riam, que o fato de estar vazando muita água pelas portinhas era sinal de que eu não prestava para reprodução e, por isso mesmo, mais do que qualquer outro, tinha merecido o que fora feito contra minha integridade. Depois espirraram na ferida um pouco daquele produto roxo e ardido, aquele que se passa em ferimento de cavalo, suíno, carneiro, etc. O caubói do canivetinho o lavou antes de guardá-lo no bolso. E pronto, estava feito. Depois do serviço eles ficaram receosos de me soltar, primeiro desamarraram minhas patas, depois soltaram a cabeça. Até tentei esbravejar, mas estava tão intensamente tonto e dolorido, que pra levantar foi como levantasse o peso de uma banheira com cimento dentro. Já em pé andei muito lentamente, as patas traseiras abertas, pisando quase que em ovos (sem piadinhas, por favor) na ponta dos cascos. Parecia estar cagado, com o orgulho ferido. Os caubóis riam. Diziam que desde então eu estava mais pra vaca que pra boi. Aí, às gargalhadas, me chamaram de boiola. Eu fiquei no pasto, né, fazer o quê? Eles voltaram pra casa, acenderam o fogo da churrasqueira e se deliciaram com os dois testículos que há pouco me tinham roubado. Ser castrado foi só o começo. Em seguida emagreci, sofri um tipo de depressão pós-operatória, mas logo voltei a engordar. E quando já estava bem gordinho, eles voltaram a se interessar por mim. Daí foi um piscar de olhos pra me tirarem o couro, a carne, os ossos, o resto da honra, as cartilagens, o diabo. Hoje sou uma ótima companhia pra urubus.

nomos

NOMOS
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Eliana Borges (artes visuais), Mário Carta (música), Paulo Demarchi (música) e Ricardo Corona (poesia sonora), sob a direção de Giovana de Salles (artes cênicas), reuniram-se para apresentar essa sessão de performances denominada NOMOS.
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Teatro da Caixa, dias 18 (terça), 19 (quarta) e 20 (quinta) de agosto, às 20 h.
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um dos moveres será a aproximação um do outro a ponto de não se reconhecerem poeta, músico e artista plástica
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e as suas categorias desfazem-se para a performance fazer-se no espaço e, sobretudo, fazer deste espaço um lugar de sentidos incessantes
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um nomadismo que aparece também nas ações, já que estas permitem serem lidas individualmente, mas não como fim ou divisa e sim como margem feita de água
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as ações ocupam lugares, territórios, planos, ambientes numa deriva de gestos que esburacam o logus da definição e movem-se (nomos errático) em direção ao sentido
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antes de mimar ou moldar o corpo com o significado, NOMOS move-se em espaço aberto, espaço propriamente espaçoso e mais do que especial
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porque apesar do risco, o corpo deseja o gozo da não-significação
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o que poderia querer o corpo nesse espaço de relação que a performance inaugura e que não pode durar?
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Ricardo Corona

barras antipânico e barrinhas de cereal

Jeff Bridges e John Goodman
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Lebowski e eu
para Reka
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Entramos no elevador Lebowski e eu. Fedíamos a maconha. Notamos que o espelho no qual costumávamos olhar nossos reflexos, o espelho havia sido retirado de uma das três paredes que constituíam o elevador. Depois, que também as três paredes que constituíam o elevador igualmente tinham sido removidas. Achamos que a porta, a porta que dá acesso ao elevador, pensamos que a porta continuava ali abrindo e fechando, porém logo vimos quanto estávamos errados, não havia mais a porta. Então olhamos para cima, qual não foi nossa surpresa, Lebowski e eu nos deparamos com um teto que não havia mais. Aquele era um roteiro de decepções seguidas de decepções. Isto é um roteiro de decepções seguidas de decepções, disse-me Lebowski. Foi aí que juntos olhamos para o chão e já não havia chão. A coisa degringolara complemente. Foi necessário que Lebowski e eu flutuássemos. Mas flutuar assim de última hora?, reclamou Lebowski.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

barras antipânico e barrinhas de cereal

Hunter Thompson
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Bordel Calcinha de Seda
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Para o ator Pascoal Vilaboim
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Fazia uma tarde de 31 graus, daquelas em que a cueca fica encharcada, quando ouvi ela dizer “Já cruzei o Brasil a bordo de um trem chamado Jontex” e dar uma gargalhada que fez com que todas as mesas do restaurante virassem para nos olhar. Parecia bastante animada, mas você notaria que sua mandíbula tinha a trava comum dos consumidores de anfetamina. Ela era uma das mulheres mais desejadas do País, famosa, diversos trabalhos no cinema, ex-modelo, mais de quarenta capas de revistas. Foi mais ou menos quando ela falou “Minha vida toda é um sem-querer” que notei seu estado, ela estava chapada às 11 da manhã naquele restaurante em Ipanema. Fora uma semana esquisita, algo novo e determinante chamava a atenção dos cidadãos cariocas em geral para sua pessoa, o acontecimento de vislumbrarem sua fotografia também nas páginas policiais. O motivo da publicidade inconveniente era o fato de que as pessoas que viviam ao seu redor, não de uma hora para outra, mas sistematicamente, tinham começado a tomar chá de sumiço, como ironicamente informava a nota na parte inferior da primeira página dos jornais. “Inacreditável”, foi o que balbuciei quando ela tirou um exemplar do JB de dentro da sacola com outras compras e me mostrou a manchete. Estampando a página policial via-se uma fotografia de típico flagrante feito por algum paparazzi. De qualquer maneira, meu aturdimento não pareceu espantá-la, e mesmo a fofoca toda em torno de seu nome de algum jeito estranho a alegrava. Fitou-me objetiva com aqueles olhos basalto-claros, e eu não consegui manter-me encarando com a mesma convicção com que ela fazia, já que naquele momento estava confirmando que os jornais não mentiam sobre o assunto. “Neno, eles estão certos, eu fiz mesmo essas coisas”, foi o que ela me disse. Eu não queria escutar, não me importava. Ela segurou minha mão e puxou para si pousando sobre os dedos seus beiços grossos como que me injetando um veneno. E fez as perguntas afirmativas que eu temia “Você sabe que eu te amo, né?” É, eu achava que sabia. “E você, Neno, me ama?” O que responder? O quê, se o garçom acabava de depositar sobre nossa mesa o filé que pedimos, a carne pouco passada, sangrenta, repetindo aquela piada estupidamente mecânica de “o boi veio que veio ainda berrando”, tudo com um sorriso desenhado como que à força nos lábios. Não fui capaz de tocar na comida. Não fui capaz de dizer a Fafá se a amava ou não. Aquela matéria, seu flagra nas esquinas do Leblon, a suspeita dela ser uma criminosa, aquelas perguntas, a piada do garçom, tudo me embrulhara o estômago. Ainda por cima foi preciso lembrar que apesar de Fafá ser uma das garotas mais cobiçadas do País, suas qualidades artísticas de fato eram vergonhosamente limitadas, constatação com a qual meu estômago intensificou naquele dia escaldante de verão, a propósito da minha ida ao banheiro, as golfadas do sucrilhos do meu desjejum, aproveitando que eu já estava mesmo com o rosto dentro da privada. Não queria que fosse eu, mas o sujeito igual a mim que lavava a boca na pia após vomitar até mesmo a fumaça dos sete cigarros que já havia ingerido até então. O cara do espelho e eu sabíamos, era notório, Fafá havia sido garota de programa anos atrás. E tendia ela mesma a não esconder de ninguém. A quem lhe perguntasse “Fafá, é verdade que você foi prostituta antes da fama?, ela responderia sorrindo “Quem não foi, meu bem?” Mas agora as coisas tinham mudado um pouco. Fafá havia se tornado uma colega do Paulo Coelho, sua vida estava exposta para quem quisesse, e todos pareciam querer, pois em menos de dois meses seu livro Bordel Calcinha de Seda – Confissões de Fafá era o mais popular dos que com ela dividiam as prateleiras de best-sellers. Fafá não estava somente famosa, mas milionária também. Eu tinha lido a obra ainda nos originais e, confesso, na época foi o que acelerou meu processo de paixão por ela. Não sei se todo homem, mas eu com certeza sonhava em tirar do baixo meretrício uma linda e indefesa garota. Conheci Fafá no Calcinha de Seda, o bordel, não no livro. O lugar era aconchegante, poltronas forradas com camurça, tapeçarias. A clientela era fiel. A dona, uma libanesa, fumava narguilé a noite toda. Havia começado o negócio com o esposo, já falecido e a filha, mais ninguém. O marido cuidava de administrar. A filha se desdobrava para agradar a todos (a filha não era Fafá, ela só apareceu por lá uns sete anos depois). E a libanesa fazia a faxina e as compras. Quando a casa lotava demais, a libanesa também fazia um programa ou outro. O Calcinha então se transformou em um sofisticado lupanar. Fafá trabalhou lá nos tempos áureos. Ela nasceu em 1977 em uma fazenda de gado, perto de Guarapuava. Quando fez 16 anos fugiu do pai bondoso e da mãe quase santa vítima de glaucoma, sem jamais ter voltado para rever o lugar de sua infância, tampouco a família, que permaneceu atolada naquele ambiente arcaico. Perambulou de cidade em cidade até chegar em Curitiba. A sua primeira vez foi em um banheiro de posto, na estrada, no qual o dono, após os serviços, lhe serviu um prato feito. Só conseguiu conforto e segurança após sete meses de incertezas e sufocos, quando de sua chegada ao Calcinha de Seda. Na noite em que a conheci estava especialmente feliz. Depois nunca mais encontrei aquela alegria dentro dela, nem mesmo quando a sorte lhe bateu à porta. Lembro que logo foi tirando o vestidinho de pano com estampas floridas. Sentou-se na cama, contorceu os braços para trás, alcançou as costas e desabotoou o sutiã. Hipnotizava-me sua desenvoltura, havia um certo descaso em suas ações. Era uma paisagem a escultura de seu corpo. Eu suava, as axilas empapadas, o verão se espatifava na janela. Fazia o calor dos infernos, de maneira que cheguei a pensar se aquela garota não tinha vindo exatamente desse lugar. “É um anjo”, refleti na ocasião. “Vai ficar aí parado igual um sapo?”, indagou-me. Ordenou que eu tirasse as roupas. “Que coincidência”, eu disse, “a minha camisa também é florida”. Ela achou graça do modo como a arranquei por cima da cabeça sem que abrisse um botão sequer. Desfiz-me dos panos, mas continuei, segundo ela, “Paradão-sabão”, até que resolveu vir me beijar. Eu ainda de cueca e com as minhas velhas meias azuis. Ofereceu-me os peitos. Pegou-me pelos pulsos. Abri os dedos. Senti o peso nas mãos. Ela me puxou para cima, abriu as pernas e, executando um movimento perfeito, técnico, científico, me engoliu. Ela e aquelas maluquices que fazia, e suas ideias com foco bastante específico sobre as coisas. Por exemplo, a respeito da vida de puta que levou, dizia “Puteiro é uma coisa muito boa, se você não vende a mercadoria, pode comer o estoque”. Eu achava engraçado. Com ela participei de indescritíveis banquetes, isso já depois de Fafá ter alcançado o estrelato. Chamava-me para as orgias com outras garotas e sussurrava “Você é o bendito fruto”. Por ser o bendito fruto fui ficando famoso também. Eu era o sujeito que conhecia as intimidades daquela beldade cobiçada. Aliás, eu era apenas um dos caras, mas a minha assessoria de imprensa funcionou melhor que a dos outros. Então todos entendiam, e mesmo Fafá, que eu era o namorado oficial, o “fodedor” oficial. Os jornais, revistas e programas de tv sensacionalistas fizeram uma lista dos homens que saíram com Fafá e nos chamaram de “fodedores”. Ficamos mais ou menos sendo manchete de duas ou três edições das revistas. Aparecíamos em programas de televisão quase que diariamente. Fafá cada vez com menos pudores. Dava declarações bombásticas, o que ela contava, Sade não havia contado na Filosofia na Alcova. Tínhamos ido longe demais em nossas escavações sexuais. E ido longe demais com a repercussão disso. Intimamente Fafá já não suportava a situação, mas a coisa havia se transformado em uma bola de neve. Não sei dizer exatamente quando, mas comecei a estranhá-la. Certo dia encontrei um revólver sobre a pia do banheiro. Aquilo não devia ser apenas mais uma de suas propostas sadomasoquistas. De fato não era. A observei com cautela, segui seus passos. Presenciei Fafá liquidar um por um os seus “fodedores”. Fez tudo com frieza. Depois sofria por minutos. Então se tornava gelada novamente. Eu não a ajudava, assistia de longe. Desconfio que ela soubesse que eu a seguia. Eu devia me preocupar, chegaria a minha vez. Mas a tranquilidade se aconchegou em meu sangue, e optei por não fugir. Estava deitado, então, na cama de sua cobertura na Barra da Tijuca. Somente a lua cheia lá fora a iluminar sua silhueta. Fafá se aproximou, eu não me mexi. Ela descarregou em minha direção pá pá pá pá quatro tiros secos, ritmados. Não sei explicar como, mas nenhum dos tiros me acertou. O colchão de água vazou. O travesseiro cuspiu penas de ganso. Eu permaneci ileso. Atônita, Fafá largou a arma, aliás, como sempre acontecia logo que eliminava cada um dos seus amantes. Levantei e a abracei. Ela chorou suplicando que não a abandonasse. Eu não abandonei. Fugimos para Cuba. Fizemos adulteração facial. Fafá ficou a cara da Anjelina Jolie, juro. Eu, com traços que lembram o Hunter Thompson, mas com cabelo. A polícia brasileira continua a nos caçar com obstinação. Hoje ganhamos a vida fazendo shows de sexo explícito. Somos um sucesso.