quinta-feira, 3 de setembro de 2009

bárbara kirchner

Bárbara Kirchner, pela lente de Albert Nane
escute no myspace Dun Dom e outras
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Dun dom
.
que estranho som
tenho a impressão
que estou ouvindo
teu coração
.
dun dom
.
que nome tem
o som
que guardei pra dizer pra mim
.
dun dom
.
é o som
tão bom
que vem daí
que vem de você
tomara que seja teu coração
.
dun dom
.
é o som
tão bom
um som que faz
dun dom
dun dom
nós dois fazendo
o mesmo o som
Bárbara Kirchner
e Thadeu Wojciechowski

notas para um livro bonito

na casa da minha mãe quando cai a
noite a televisão é insignificante diante dos
contos de Andersen que leio para meus sobrinhos
na casa da minha mãe as visitas só
não fazem cócegas na barriga dos
cães porque não há cães
vê-se abacate, mimosa, mamão e
outras luas apodrecendo na fruteira
damasco e castanhas nos potes pintados à
mão por essa senhorinha sem pressas
na casa da minha mãe lava a
louça ela mesma e os pratos
assobiam junto com suas unhas que
fazem isso por gratidão de anfitriãs
não por responsabilidade de funcionária
na casa da minha mãe ela dá
banho nos netos com mãos de água que
envelhecem 30 anos e depois não
voltam totalmente ao normal
uma das crianças tosse e o termômetro é
todo ele a casa da minha mãe
na sala do carinho se espera a Páscoa porque
ninguém desistiu quando foi tempo
molha-se as plantas cantarolando “cheguei na
beira do porto / onde as ondas se espáia
a tua saudade corta / feito aço de naváia” na casa
minha mãe veste camisola, roupão de
flanela e calça pantufas, uma ambulância passa
ao longe, abafada pela chuva
tomamos chá, um antídoto contra gripe
conferimos portas e janelas
e se a noite contém musgos, os
olhos cansados da minha mãe também

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

viva o mestre antonio thadeu wojciechowski

Thadeu e a afetuosa Mika
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Que loucura!
.
Se ao finito tempo dessa vida
um pouco mais de sonho e loucura
por um ouvido entrasse e, sem saída,
ali ficasse até a total cura,
.
quem sabe o homem em outra via
veria o que não vê e o que procura!
Se em toda a parte Deus deu a medida,
por que poetas, santos, loucos, mura?
.
Fosse igual à mistura o mistério
onde os extremos convivem, tudo bem!,
ainda havia graça nesse vem
.
e vai. Mas como rir se o mundo sério
fecha as portas e os vínculos que tem
e todos nota dez só tiram zero ?
.
Thadeu Wojciechowski

notas para um livro bonito

à garçonete
peço outro pão de queijo
que é uma comida das
mais simpáticas e macias
receita toda mineira
dengosa, cheia de
im: cafézim cum pãozim
um tipo de alimento que
jamais servirá para vinganças
essa estupidez que se come fria
porque pão de queijo é
o seguinte: tem que tá quentim

o pão brutal de ontem

Onde nasci passará o metrô

Um exame que custa 2.500? Assim as seguradoras de saúde vão falir. Onde nasci passará o metrô e o sereno das manhãs esconde as armaduras e escudos que carrega o povo. Cada porta de edifício, um não-lugar, que desemboca ali no shopping. Construí sobrados populares nos “bairrão” por aí — ótimo negócio, ganhei muito dinheiro naquela época. Minha esposa morreu em uma viagem à Foz do Iguaçu, um ônibus lotado de inocentes, que a televisão chamou de muambeiros, esse ônibus... ela vinha dirigindo uma Mercedes e simplesmente deu de frente com esse ônibus. Hoje ela está engavetada em um cemitério vertical, foi cremada. Pena ela não ter estado aqui para assistir minha ascensão. Na Colônia onde nasci também ganhei muito dinheiro construindo condomínios de luxo com grandes campos de golfe. Jovens publicitários se divertem ora jogando, ora armando tenda de mil metros quadrados para celebrar com festas rave. Antes os hippies acampavam nesses terrenos com seus baseados e barracas, com seus violões. E antes disso, eram terras sagradas, dos índios, conta a lenda. Esse broxe aqui ganhei de uma avó de pernas roxas e inchadas, da Colônia que transformei em condomínios de luxo. O broche era para me dar sorte, ela disse. Não sei onde ela mora agora. Talvez não tenha tido a mesma sorte que eu. Bem, virei hiper-tenso, dono nem sei de quantas empresas — muita cagada por lá. Adoro ar-condicionado. Como os arrombamentos cresceram 92% na cidade, as janelas do escritório e da minha casa são incrementadas com pantográficas. Como os turistas que nos visitam vêm à negócios, pelo potencial de consumo, acabei entrando no mercado do turismo — construí três flats, mas meus sócios eram todos uns filhos da puta, então acabei tendo que vender a minha parte antes que a coisa resultasse em morte. Durante o café da manhã, pela TV, numa dessas matérias sobre reciclagem de lixo, vejo que o Gari Sorriso pode sorrir mais do que eu. Isso me desconcerta, então mudo de canal. Depois desligo a televisão. Leio o jornal. A última notícia na qual me detive, dizia que empresário de sucesso, pai de família, viu sua filha de cinco anos ser atropelada na saída da escola, na tarde de ontem. Não era a minha filha, mas poderia. No entanto, essa não foi a matéria mais importante do dia. A mais importante dizia: Novo reajuste dos preços do combustível. Apesar de que na faculdade a gente aprende que quando alguém morre assim na rua a micro-economia informal de uma parte da cidade sofre as conseqüências. Por exemplo, o guardador de carros, por causa do alvoroço que os guardas de trânsito fizeram, graças ao atropelamento da menina, acabou que perdeu nessa trinta reais, em menos de duas horas. No meu trabalho, não posso me dar ao luxo de deixar de ganhar trinta reais por hora. Dinheiro tem que entrar que nem água vindo da torneira. Nunca entendi porque as pessoas param para ver gente morta no meio da rua. Acho que a curiosidade sempre é maior e mais urgente que qualquer outro compromisso. A pose enigmática da morte, não é mesmo? Escutei uma velha dizer que, de fato, morrer na hora do rush é uma merda. E depois a velha da janela do ônibus mandou um policial de trânsito tomar no cu, no cu, no cu. De minha parte, não posso parar, sinto muito, morreu, morreu, tchau, adeus, eu preciso correr, senão o baralho voa. Meio dólar comprava o lugar onde nasci. E eu comprei. Comprei porque qualquer auditor fiscal sabe que mesmo nós, aventureiros, por mais que estejamos ricos, somos inseguros entre juras, juros e negociatas. Filosofia é viver entre bula de remédio genérico para pressão, CPI, FMI e o escambau. É ter estado dentro de vulcões financeiros mais violentos que o de Krakatoa, é ter surfado em dólar como ele fosse ondas Tsunamis. É ter que se confrontar com ativistas, seja lá do que for, essas pragas, ervas daninhas do diabo, vivem exclusivamente para atrapalhar meus esquemas. Comigo não tem lenga-lenga, servi o exército na minha época, era o melhor pára-quedista. Vivo metido em política, senão você não consegue nenhuma brecha. Tenho conhecimento, só por isso invisto em tecnologia bélica. A cena mais feia que vi? Um bebê raquítico respirando com dificuldade em uma estufa da maternidade. Era meu filho, e morreu. Primeiro o filho, depois minha esposa. E agora eu aqui, na máquina de ressonância, lembrando disso tudo e do dia em que eu próprio devo ter nascido. E também recordando das tetas daquela avó lá da Colônia, das suas pernas roxas, inchadas feito uma geografia de campo de batalha. A máquina de ressonância parece um tubo de pasta de dente. Ou, um caixão tecnológico cheio de luzes. Penso nos labirintos das estradas que o Governo está asfaltando no Paraná todo, alguma grana dali bem que podia ser depositada em alguma das minhas contas. Fico estático dentro da máquina, preocupado com a economia do país e da minha cidade, preocupado em como vou fazer para elaborar a próxima sonegação, o caixa dois/três/quatro. Todas iguais: as veias daquela avó e as veias que irrigam meu cérebro, onde eu posso ter algum problema, um câncer... Deus (ele já me ajudou tanto nessa vida) acuda que não, que não seja nada, só uma suspeita. Penso em tudo isso. Pensar demais pode estragar a sanidade de qualquer um. Só não quero jamais fazer parte de um grupo de presidiários que tem de cavar túneis para fugir e é esmagado por desabamento de terra, ou triturado por saraivada de metralhadora antes de chegar ao esgoto da liberdade.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

o pão brutal de ontem

Como é que eu não tinha prestado atenção nisso?
.
Vilma cochicha no meu ouvido: “Aquela ali é a Margi de quem falei.”
“Sei.”
“Margi já foi gostosíssima, gatíssima, superlativa, agora é essa caveira.”
“Isso tá me cheirando a inveja, Vilma.”
“Imagina, inveja eu, ontem mesmo encontrei com ela lá no Dentadas Pub, umbiguinho amostra, o piercing pedindo mordida, é uma galinha essa guria.”
Nunca contei pra Vilma, mas foram incontáveis as vezes em que escrevi o alfabeto inteiro com a língua no corpo superlativo da Margi.
“Zé!”, Vilma me chama semi-gritando, “tá ouvindo?”
“Tô, claro, fala.”
“Então, ontem eu cruzei com ela lá no Dentadas...”
Interrompo: “Com ela quem?”
“Porra, Zé, com ela, a Marginalzinha.”
“Ah, tá, e aí?”
“Aí eu disse: Olá, como vai, é um prazer revê-la. Eu fui educadíssima, Zé.”
Vilma espera que eu me pronuncie, mas nada faço, então ela prossegue: “Sabe o que a Margi fez?”
Fico sem escolha, então pergunto: “O quê?”
“Ela não retribuiu meu sorriso, Zé, não retribuiu.”
“Claro, depois de encher o saco da guria, sendo educada e não sei mais o quê, você ainda queria que ela abrisse um sorriso? Aposto, Vilma, que enquanto você dizia ‘olá como vai, etc’, na verdade, o subtexto era ‘oi, Margi, quantas vezes nessa semana você tomou um porre com os escrotos dos teus amigos do peito, cheirou aqueles pozinhos mágicos e vomitou no banheiro do Dentadas?’”
Vilma ouve minha ironia, talvez por isso mesmo, continua obcecada: “Você sabia que ela é totalmente viciada, em tudo, e, pra piorar, tem bulimia?"
"Claro que não, a menina só é magra, é só isso, Vilma."
"Não senhor, repara bem, ela já tá até sem boca. Duvido que uma biscate dessas seja capaz de chorar, a coitada.”
Então fito bem Margi no canto esquerdo do restaurante e sou obrigado a admitir que Vilma está certa. Margi não está somente sem boca, também já perdeu a cabeça.
Digo isso a Vilma, que só então repara melhor e: "Nossa, como é que eu não tinha prestado atenção nisso?, Margi perdeu a cabeça."
Então, diante de tal cena, Vilma, acendendo um cigarro, tenta forjar lágrimas, mas seus olhos são completamente secos.

notas para um livro bonito

rené magritte
vaidade em
excesso é
auto-difamação
triste quanto um
álbum feito só
de auto-retratos