sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

só é ilusão aquilo que não esqueço, o resto foi real

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.....Dia desses recebi um telefonema da tia Ruth: Jassei, há alguém interessado na chácara, você sabe, um comprador em potencial, e eu estou cansada, aquilo virou um elefante branco, eu não tenho mais idade para me incomodar, Tatit está na Europa, preciso que você cuide do assunto.
.....Você sabe, ela fala muito rápido e alto e eu não consigo entender, ainda mais quando ainda nem acordei direito. Mas assim que ela fez uma pausa, perguntei:
E Mana?
.....O quadro dela é estável, Jassei, não podemos fazer nada, só esperar.
.....E então, como que liquidando o assunto Mana, ela voltou imediatamente ao assunto chácara, como se fosse possível separar um do outro.
.....A chácara é um dos últimos bens restantes do espólio de nossa família. Por isso que, após a esbaforida intimação de minha tia, se antes de devolver o fone ao gancho tivesse caído no erro de não dizer enfaticamente um “sim, senhora, providenciarei tudo, pode ficar tranquila”, ela teria ficado uma fera comigo. Mas que remédio, eu sou o ovelha negra tem muito tempo, então que se fodam. Enquanto eles estão cuidando dos negócios, eu só tenho cabeça para você, Mana.
.....Mesmo assim a conversa não foi muito amigável quanto deveria ser entre o sobrinho e sua tia, talvez pelo fato de que em algum momento, sem esconder o tom de decepção na voz, acabei perguntando: Então vai ser assim, tia, vamos simplesmente vender o que restou da chácara?
.....É claro, Jassei, que vamos simplesmente vender a propriedade, ou, por acaso, você vai ficar com ela?
.....Ficar com ela?, coitado de mim, um pobretão, quase não tenho dinheiro suficiente para pagar o aluguel e me alimentar ao mesmo tempo, há meses que preciso escolher se como ou se continuo morando no meu quarto-e-sala precário. Ao menos se o Tatit, o rico da família comprasse a propriedade, mas não pode sequer ouvir falar daquele, como ele mesmo chama, elefante branco. A velha chácara não interessa aos projetos do Tatit. É lastimável no que ele acabou se transformando, nem vale a pena comentar.
.....Mas e você, Mana, pelo amor de Deus, como você estará?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Zilda Arns e a construção de um mundo melhor

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Zilda Arns - 1934/2010
Fotografada por Gilson Camargo
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.....Publico fragmento do último discurso de dona Zilda Arns, preparado para palestra em Porto Príncipe, no Haiti, onde, em missão humanitária, faleceu, vítima de terremoto que matou milhares de pessoas. Zilda Arns era médica pediatra e sanitarista, fundadora da Pastoral da criança - http://www.pastoraldacrianca.org.br/. Dedicou a vida às causas sociais e foi quatro vezes indicada ao Nobel da Paz. Será velada amanhã, em Curitiba, no Palacio das Araucarias.
....Aqui, o discurso de dona Zilda Arns na íntegra:
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.....Em dezembro de 2009, completei 50 anos como médica e, antes de 2002, confesso que nunca tinha ouvido falar em qualquer programa da Unicef ou da Organização Mundial de Saúde (OMS), ou de outra agência da Organização das Nações Unidas (ONU), que estimulasse a espiritualidade como um componente do desenvolvimento pessoal. Como um dos membros da delegação do Brasil na Assembleia das Nações Unidas em 2002, que reuniu 186 países, em favor da infância, tive a satisfação de ouvir a definição final sobre o desenvolvimento da criança, que inclui o seu "desenvolvimento físico, social, mental, espiritual e cognitivo". Este foi um avanço, e vem ao encontro do processo de formação e comunicação que fazemos na Pastoral da Criança. Neste processo, vê-se a pessoa de maneira completa e integrada em sua relação pessoal com o próximo, com o ambiente e com Deus.
.....Estou convencida de que a solução da maioria dos problemas sociais está relacionada com a redução urgente das desigualdades sociais, com a eliminação da corrupção, a promoção da justiça social, o acesso à saúde e à educação de qualidade, ajuda mútua financeira e técnica entre as nações, para a preservação e restauração do meio ambiente. Como destaca o recente documento do papa Bento 16, "Caritas in veritate" (Caridade na verdade), "a natureza é um dom de Deus, e precisa ser usada com responsabilidade." O mundo está despertando para os sinais do aquecimento global, que se manifesta nos desastres naturais, mais intensos e frequentes. A grande crise econômica demonstrou a inter-relação entre os países. Para não sucumbir, exige-se uma solidariedade entre as nações. É a solidariedade e a fraternidade aquilo de que o mundo precisa mais para sobreviver e encontrar o caminho da paz.
Zilda Arns

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

luiz felipe leprevost na confeitaria das famílias

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.....Meu amigo Fabz (o lado artista plástico do escritor Fabiano Vianna) me fez essa puta homenagem. Adoro o traço dele e achei ducaralho a maneira como me desenhou na Confeitaria das Famílias, que é um dos meus lugares preferidos em Curitiba. Obrigadão, maninho. Quem quiser conhecer alguns de seus outros desenhos é só ir lá no http://www.flickr.com/photos/fabz.
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Luiz Felipe Leprevost na Confeitaria das Famílias, por Fabz
http://www.flickr.com/photos/fabz
Clique na imagem para vê-la maior

deu na coluna acordes locais, da gazeta do povo

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.....Assinada pelo jornalista Luiz Claudio Oliveira, matéria que saiu na coluna Acordes Locais, no Caderno G da Gazeta do Povo de hoje, 13 de janeiro. Fiquei feliz de ser lembrado pelo Raphael Moraes, da banda Nuvens. E, embora não goste de quesitos competitivos, acredito que proposta como essa do Luiz Claudio tem como intuito essencial o aquecimento da cena local, do diálogo, da convivência, do mercado, da formação de platéia, campo, opinião etc, o que é bom para todos nós curitibanos. Também vou mandar logo já as minhas indicações para o mail blogsobretudorpc@gmail.com. Como se diz por aí: não fique fora dessa.
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.....Os melhores da música paranaense de 2009
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.....Desde a semana passada, iniciei aqui nesta coluna a escolha dos melhores da música paranaense de 2009. Sugeri algumas categorias para que fossem escolhidos os nomes que, na opinião dos leitores desta coluna e dos internautas que acompanham o blog Sobretudo (http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/sobretudo/), se destacaram na música local no ano passado. Por enquanto, ainda não estamos na fase da votação, propriamente dita, mas apenas na coleta de indicações. Todo mundo que for citado mais de uma vez será incluído, não interessa se é banda nova ou antiga, se tem ou se não tem disco gravado. O único critério é que tenha alguma ligação com o Paraná, que more aqui, ou que tenha feito um trabalho por aqui.
.....Esta fase de indicações seguirá até a semana que vem. As enviadas por e-mail (blogsobretudorpc@gmail.com) devem ter como assunto a expressão “Melhores de 2009” – é importante a especificação do assunto para que as mensagens não se percam. Os nomes também podem ser indicados nos comentários dos posts do blog Sobretudo que tratem do tema.
.....Valerão as indicações que chegarem até a zero hora da próxima terça-feira (19/1). Então, vou relacionar todos em suas respectivas categorias e aí partiremos para uma votação por meio de enquetes (uma para cada categoria). Os links serão indicados nesta coluna e no blog Sobretudo na próxima quarta-feira, dia 20. Se houver muitos indicados, faremos uma primeira seleção dos mais votados para escolhermos os finalistas em uma nova bateria de enquetes, mas isto vocês só vão saber se vai acontecer, na próxima quarta-feira. No blog Sobretudo, na medida do possível, vou dando umas parciais.
.....O músico Raphael Moraes, da banda Nuvens, mandou suas indicações e sugeriu mais duas categorias e eu reproduzo aqui com a argumentação e já as indicações dele:
.....“Melhor compositor: na qual eu votaria em Luiz Felipe Leprevost, que conheci esse ano e me surpreendi com suas canções!
.....Melhor show: nessa eu indicaria o show Síntese da Essência, de André Abujamra, que por morar em Curitiba há tanto tempo, não tem como não ser considerado daqui!”
.....Acho justo e, portanto, essas duas categorias serão incluídas, desde que surjam outras indicações para elas até a próxima segunda-feira.
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.....Vem aí em 2010
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.....Outra que mandou e-mail com suas indicações foi a cantora, compositora e símbolo do rock feminino Marielle Loyola. As indicações foram anotadas, mas olha também o que ela revelou: “Esse ano finalizo meu primeiro disco-solo viu?? Será uma releitura de cantoras do rádio...tipo Emilinha, Lana Bitencourt, Maysa, Dolores, e por ai vai....é um trabalho meu de três anos...e agora vai!!” Que venha mesmo! Nem ouvi, mas já gostei.
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.....Categorias
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.....Para lembrar, repito aqui as categorias – e atenção: tem gente boa ficando de fora:
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.....- Melhor banda ou músico rock/pop
.....- Melhor grupo ou músico MPB/nova MPB
.....- Melhor cantor
.....- Melhor cantora
.....- Melhor instrumentista
.....- Melhor site ou blog ou twitter de música paranaense (não vale votar no meu Sobretudo, para não parecer marmelada)
.....- Melhor compositor
.....- Melhor Show
Luiz Claudio Oliveira

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

só é ilusão aquilo que não esqueço, o resto foi real

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.....Pobre Mana. Pobres de nós. Os frutos queimavam apodrecimentos. No interior do inverno, na palma de nossas mãos, a geada brotava, cobria a plantação do afeto. Quem de nós pecava mais ao silenciar do que ao se declarar. Silenciávamos turbulências macias que rasgavam fundo. Você quis clausura o que era deriva. Sua paixão pulsava fora feito um tapa, a tampa da panela de pressão latejando. Você, uma menina prenha, percorria mudez e seiva, incisões não cicatrizadas. Da última vez em que nos vimos, éramos duas árvores podadas nos tendões. Galhos sem folha ou fruto, com nós apenas. Ardiam suas costas sem manta. Ardia meu pescoço sem cachecol. Mana, eu ainda não sabia que ninguém guarda para sempre o domínio do que apalpou. A origem do amor é uma, mas seu amadurecimento muitas vezes fruta cujo sumo é todo ele o medo. E mesmo assim você se aproximou e me beijou a bochecha lisa, depois sussurrou em meu ouvido: Amo você, Jassei Brennelli.
.....Por que fez isso se você não tinha certeza se era mentira ou não e eu sabia que era verdade?

só é ilusão aquilo que não esqueço, o resto foi real

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.....De repente me vem à memória o dia em que eu e meus primos nos vestimos com camisas com babado e gravata borboleta confeccionados por Dona Zilá. Para o casamento de quem mesmo? Sei que você veio em meu quarto, divina, com um vestido amarelo, com laço nas costas. Os cabelos exalavam o frescor do condicionador que você acabara de usar no banho. Causou-me uma impressão e tanto. Até que minha mãe lhe falou: O que é isso, Mana, vai de Botas Sete Léguas na festa?
.....Olhei para seus pés e lá estavam elas, azuis, rudes, contrastando com a delicadeza de seu vestido.
.....O meu sapato estava me matando, dona Gica, justificou-se você.
.....Imediatamente, eu que há horas vinha brigando com minha mãe por causa do par envernizado que mastigava meus pés, corri colocar também minhas galochas.
.....Quer saber?, desisto de você, Jassei, meio que gritou minha mãe, se você quer ir mal vestido, que vá, lavo as mãos.
.....Mas eu sou o gato de botas, mãe, disse eu num tom brincalhão, exibindo-me um pouco para você, que riu.
.....É que eu queria mostrar que éramos cúmplices daquele crime de etiqueta. Onde já se viu ir a um casamento calçando Sete Léguas? De todo modo, não nos importava muito se minha mãe já saia puta da vida em direção ao quarto dela praguejando: Melhor eu ir ver teu pai, do jeito que vocês são, é bem capaz dele querer ir de botas também, aí é que todo mundo vai mesmo ter motivo pra dizer “esses Brennelli são um bando de jacu”.
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(...)
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.....Na última vez em que nos falamos, eu estava deitado na grama, um pouco grogue de sono, por causa do cigarro de maconha que você tinha trazido. Minhas pálpebras eram janelas que abrissem na horizontal. Assim, do ângulo em que estava, vi algo como o vulto de sua mão suave entrando pela gola da camisa, avançando lenta sobre meu peito, acariciando meus pêlos. Fiquei alguns segundos recebendo seus carinhos, então desgrudei as pestanas e suspirei: Anjo.
.....Daí você se aproximou e me beijou a bochecha lisa, depois sussurrou em meu ouvido: Amo você, Jassei Brennelli.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

se você quer o bem de uma boa pessoa

.....Bem, o ano de 2009 não foi dos mais fáceis pra mim. Em julho eu estava na pior afetivamente - coração partido, cabeça pensa e confusa, e um calombo crescendo na mão direita que, quando infeccionou doía e talvez se chamava tendinite aguda. Então tomei uma resolução, ia escrever uma série de letras que se pretendiam positivas, de bem com a vida. Mas esse tipo de canção simplesmente não surgia. Ninguém fica alegre de uma hora pra outra quando passa por uma maré ruim. É preciso dar tempo ao tempo, ter calma e sabedoria. E eu não sou muito calmo, tampouco sábio. Mas aquela onda negativa passou e eu toquei o barco. No final do ano o ar se tornou um tanto irrespirável novamente. Segui.
.....Passei a virada em Guaratuba com minha família. Meus sobrinhos me deram uma injeção vida. É sempre bom estar com quem nos ama e amamos. De Guaratuba fui a Pontal do Sul. Fiquei na casa de meus primos. Uma semana inteira indo passear na Ilha do Mel, Superagüi (onde resgatamos outro primo, esquecido por lá desde o Natal), comendo peixe e camarões fresquíssimo. De noite a gente espalhava citronela pelo corpo para espantar os mosquitos, bebia um rum cubano saboroso, com água de coco e gelo no copo. Curtíamos uma variedade de músicas populares do mundo inteiro. O único dia em que a chuva deixou os passeios realmente impraticáveis foi na sexta-feira. Então tomamos o rum também durante a tarde. Agora já estou em Curitiba, renovado, escrevendo em meu quarto, em Santa Felicidade, acreditando que tudo continuará bem bom daqui pra frente, já que 2010 começou da melhor maneira possível.
.....Certo, sobre as canções positivas que eu queria escrever... Veja bem, tem algum tempo já venho fabricando letras com personagens cuja história e características, por mais desiludidas e sem perspectiva de futuro, procuro não julgar. E assim meio que fiz uma minha galeria de desesperados. É o caso, por exemplo, de Ótima, parceria com o Troy Rossilho e Solitária, letra minha e música do Troy, do Carlito Birolli e do Matheus Lacerda.
.....De qualquer maneira, em pleno inverno curitibano, 2009, me enfiei no apartamento que Thiago Chaves dividia com a escritora Lígia Oliveira, no primeiro andar de um prédio rudimentar, na rua da Mão Inglesa, no centro de Curitiba. Grudei no Thiago e comecei, como que as tirando do fundo daquelas garrafas de vinho tinto, a jogar na mão dele uma letra depois da outra. Compusemos muita coisa nesse período em que andei amargo. O Thiago também passava por problemas íntimos. Então, as primeiras canções vieram pesadas, tristes demais, violentas. Uma delas, por exemplo, após falar de porões e desvãos, acabava com um verso que dizia “eu não tenho simpatia pelo Diabo”, numa citação aos Stones. Compusemos uma outra que, meses depois, após eu revelar ao Thiago os reais motivos da letra, foi batizada por ele de Amnésia Conveniente. O Otávio Linhares e o Alexandre França estavam lá naquela madrugada, sugeriram pequenas variações pra melodia, cantaram-na junto com a gente por horas e acabaram parceiros.
.....Finalmente, numa noite dessas em que parece que você está dentro de um freezer, escrevi os versos de Boa Pessoa. Lembro que a Lígia, num primeiro momento, achou que era um poema meio bobo. E era. Ela estava certa. Eu também tinha achado que não passava de uma coisinha um tanto melacueca. E um pouco curta demais. Na verdade, jamais disse isso antes a qualquer um deles, não tinha levado muita fé no poeminha, era demasiado simples e tinha surgido rápido demais da minha mão. Mesmo assim não dei o braço a torcer. Não queria acrescentar nem mudar nada. Era aquilo e pronto. Deixei a folha de caderno com o Thiago e vim embora pra Santa Felicidade. Uns dois dias depois, na sala do mesmo apartamento, ele tocou a canção. Minhas palavras musicadas tinham adquirido um novo plano existencial, o das boas músicas populares. E isso me pareceu bastante especial. A melodia que o Thiago criara era contagiante, conduzia os versos a uma identificação imediata, pra então emergir numa explosão de alegria coletiva. Depois dela, tomei gosto pela esperança e escrevi a letra de Felicidade Extra e ainda outra, bem curtinha, brincando com aquilo de se ter consciência sobre as coisas ou não, consciência pesada e tranquila etc. E mais uma, duas, dez vezes o Thiagão estava lá elevando a qualidade das palavras com seus acordes que nos fisgam fundo.
.....Quando o Alexandre Nero, com quem, dada sua estada no Rio de Janeiro, eu já não falava alguns longos meses, me ligou contando que ia começar a gravação de um álbum novo e que gostaria de ouvir as coisas que eu vinha compondo, não tive dúvida, além das canções todas que tenho com o Troy, França, Octávio Camargo e demais parceiros, fiz questão de apresentar a ele o Thiago e o que tínhamos criado. Especialmente, após ouvir Nero discorrer sobre o conceito do novo trabalho, intuí que Boa Pessoa trazia consigo muito da cara e do coração daquilo que ele procurava. Bom, pra encurtar a estória, Thiago e Nero ficaram amigos e, mesmo sem mim (os músicos são promíscuos, hehe), compuseram algumas outras obras de estalar de admiração os ouvidos da gente. Boa Pessoa acabou mesmo sendo incorporada ao repertório do disco do Nero, que deve ser lançado até março, com arranjos e execuções que são um primor.
.....Não pretendo ignorar o turbilhão de acontecimentos marcantes do ano recém findado. Talvez profissionalmente eu nunca antes tenha sido tão bem recebido, especialmente na área teatral. E isso graças a uma mocinha das mais geniais, generosas e graciosas chamada Nina Rosa Sá, diretora de relevante parcela do que vem acontecendo de real e bom no teatro de Curitiba. Mas a Nina é um capítulo à parte. Quem sabe escrevo sobre ela qualquer dia desses. Ah, e de coisas muito legais que aconteceram, tem também a imperturbável amizade que nasceu entre mim e os namorados Fabiano Vianna (inventor e editor da revista pulp Lama - http://www.revistalama.com.br/, um herói escudado pela produtora Milena Buzzetti) e Raquel Deliberali, novos amigos que já estão na "galeria do pra sempre" que trago no coração.
.....Mas por enquanto, o que quero dizer, é que não tenho a menor dúvida de que Boa Pessoa e Felicidade Extra, com toda sua carga emocional de esperança e superação no âmbito da intimidade e da relação entre nós e os nossos, salvaram-nos o ano de 2009 (ou devo dizer salvaram-nos do ano de 2009?), tanto o meu quanto o do Thiago. Por isso, apesar de já começar 2010 imediatamente subvertendo um compromisso (quase promessa), o de me manter longe do computador e da internet durante janeiro, coloco aqui no blog as duas letras. Mas, já que sem a participação fundamental das melodias o valor dessas minhas poesiaszinhas se torna um tanto só osso, peço encarecidamente que, quem tiver interesse, não deixe de acessar o myspace do Thiago Chaves (http://www.myspace.com/thiagozpchaves), onde há gravações das duas, em versão violão e voz, com Thiago cantando e tocando.
.....Pra finalizar, quero ainda e apenas dizer que a publicação das letras nesse blog tem a intenção de que elas sirvam como mensagens positivas, faíscas de estímulo para um ano inteiro que aponta futuros (de todos esses meus amigos e amores) repletos de alegrias, dias e noites que pretendo atravessar de bem com a vida. E desejo o mesmo a todos que me visitam e visitarão.
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.....Ps1. Peço desculpas àqueles que tentaram falar comigo via e-mail ou telefone e não conseguiram. Vou responder seus recados o mais rápido possível, agora que retornei a, chamemos levianamente assim, civilização.
.....Ps2. Nesses primeiros dias de 2010 li e me abalei com os poemas de Pássaro Ruim, do Rodrigo Madeira. Sem modéstia, esperto eu de ter aberto as leituras do ano com essa preciosidade. Fazia tempo que um livro de poesia não me dava tamanho gozo. Pela sua sensibilidade, temática e estilo. Pela ousadia do discurso e domínio de linguagem. Pelas camadas de realidade, memória e invenção que em seu bojo fervem. Pretendo falar mais detalhadamente sobre o Pássaro Ruim nos próximos dias.
.....Ps3. Fiquei muitíssimo feliz com a notícia de que no próximo Festival de Curitiba, em março, haverá montagens já confirmadas de duas peças minhas, A matou B ene vezes e, em sua terceira temporada, Na verdade não era.
.....Ps4. Acabo de entrar em seu blog (http://atirenodramaturgo.zip.net/index.html) e ficar sabendo que, após angustiados dias na UTI da Santa Casa, em São Paulo, meu amigo Mario Bortolotto está recuperado dos três tiros que levou no final do ano passado. Que maravilha.
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Felicidade extra
(Thiago Chaves, LF Leprevost)
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inda quero ver você
deixar pra trás
as coisas burras
ficar em paz
sem fazer juras
inda quero ver
inda quero ver
trazer o futuro
na garupa
quitado o seguro
da tua fuga
inda quero ver
o mal menor
que uma pulga
na cidade
mil olhos
feito lupa
admirando
a felicidade
na tua cara
na testa
na nuca
felicidade extra
agora ou nunca
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Boa pessoa
(Thiago Chaves, LF Leprevost)
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se você dormiu bem
se você comeu bem
se você quer o bem
de uma boa pessoa
nessas manhãs de frio
quando a geada pinta a grama
e o azul do céu
é de uma beleza que caçoa
quando nada
nada te faria tirar o pijama
não fosse o vento
que vai lá fora
é a voz do teu amor
que chama agora
e você vem
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