domingo, 7 de março de 2010

uma epígrafe

.
a poesia impede a vida
de virar literatura
.
Fabrício Corsaletti

douglas kim

.
mas quem sou eu pra dizer o que é possível
e o que é impossível
..
Mas quem sou eu para dizer o que é possível e o que é impossível. Quando acaba, até um enforcamento é bonito. Digo isso e imediatamente surge a dúvida: existe algum alívio desnecessário? Mors tua vita mea. Não importa se permanecemos leais aos nossos fracassos ou satisfeitos com os nossos minúsculos heroísmos. Um dos períodos mais intensos da minha vida foi quando não quis fazer nada, não realizei nada. Todas as possibilidades, essas odaliscas que ajudam a concretizar os desejos, esfregavam seus véus no meu rosto e dançavam com fervor. Nessa vida não importa por qual porta você entre, a saída é a mesma para todos. Não é a mentira, é a verdade que é intolerável, sabemos todos. Douglas Kim.
.

quinta-feira, 4 de março de 2010

a ala dos desconsolados


.

Meu amigo, o poeta mestre Ivan Justen Santana, tem feito uma série de traduções das poesias do Bob Dylan. Há um mês e meio mais ou menos, pedi a versão de Desolation Row, uma das canções do Dylan que mais me comovem. Generosamente, Ivan colocou mãos à obra, e aqui está, não poderia ser mais perfeito. Lá no blog dele estão outros clássicos do rapsodo norte-americano. http://ossurtado.blogspot.com/.

A ala dos desconsolados
(Desolation row)
.
Vendem-se postais do enforcamento
Pintam-se os passaportes de marrom
O salão de beleza lotou de marinheiros
E esses dias o circo chegou
.
Lá vem o comissário cego
Mantido em transe permanente
Uma mão atada ao cara da corda bamba
A outra nas suas calças de sempre
.
E a tropa de choque está inquieta
Precisam ser movimentados
Enquanto Lady e eu observamos
Da Ala dos Desconsolados
.
.
Cinderela parece tão acessível
“Os iguais se reconhecem”, sorri ela
E põe as mãos nos bolsos de trás
Feito uma Bette Davis Cinderela
.
Entra Romeo, gemendo queixas
“Acho que eu sou teu proprietário”
E alguém diz, “Lugar errado, amigo,
Saia sem pagar de otário”
.
E o único som que sobra
Após sirenes e ossos quebrados
É Cinderela fazendo a faxina
Na Ala dos Desconsolados
.
.
Agora a lua está quase oculta
Estrelas se velam em segredo
Mesmo a dama que lê a sorte
Levou suas coisas pra dentro
.
Todos menos Caim e Abel
E o corcunda de Notre Dame
Todos estão fazendo amor
Ou esperando a tempestade
.
E o Bom Samaritano veste-se
Tomando todos os cuidados
Ele vai sair no desfile desta noite
Na Ala dos Desconsolados
.
.
Ofélia está embaixo da janela
Confesso que temo muito por ela
Após completar vinte e dois anos
Já é uma solteirona velha
.
Pra ela, a morte é bem romântica
E ela veste um colete blindado
Sua profissão é a sua religião
Sua inação é o seu pecado
.
E embora ao arco-íris de Noé
Os olhos dela estejam fixados
Ela gasta seu tempo espreitando
A Ala dos Desconsolados
.
.
Einstein, disfarçado de Robin Hood
Leva as memórias num baú
Passou por aqui uma hora atrás
Com seu amigo, um monge cru
.
Parecia tão imaculadamente assustador
Enquanto filava um cigarro
E aí saiu farejando canos de esgoto
E recitando um ABC bizarro
.
Você nem se incomodaria em vê-lo
Mas ele já foi famoso por esses lados
Tocava um violino elétrico
Na Ala dos Desconsolados
.
.
O Dr. Sujeira mantém seu mundo
Dentro dum caneco de couro
E todos os seus pacientes sem sexo
Querem estourar aquele couro
.
A enfermeira, uma triste qualquer
Administra o cianureto aos traumas
Ela também guarda os cartões que dizem
“Tende piedade desta alma”
.
Eles todos brincam com apitinhos
Pode-se ouvi-los a soprá-los
Se esticar a cabeça pra fora o suficiente
Da Ala dos Desconsolados
.
.
Do outro lado da rua, pregam cortinas
E se preparam prum bacanal
Pois então é o Fantasma da Ópera
A perfeita imagem sacerdotal
.
Alimentam Casanova às colheradas
Pra ele se sentir mais à vontade
E aí o matarão de autoconfiança
Depois de o envenenarem com frases
.
E o Fantasma grita às magricelas
“Sumam daqui os que ficaram abalados
Pois Casanova foi punido por ter ido
À Ala dos Desconsolados”
.
.
Agora à meia-noite todos os agentes
E a equipe de super-homens
Saem à cata de todas as pessoas
Que sabem mais que os supers podem
.
Então levam-nas até a fábrica
Onde a máquina de enfarte
É afivelada aos ombros delas
E logo depois eles trazem
.
O querosene dos castelos
E dos Seguros os homens magros
Vêm conferir que ninguém escapa
Da Ala dos Desconsolados
.
.
Seja louvado o Netuno de Nero
O Titanic navega à aurora
E agora todo mundo grita
“De qual lado você mora?”
.
E Ezra Pound e T. S. Eliot
Lutam na torre de controle
Enquanto calipsocantores riem deles
E pescadores trazem flores
.
Ali entre as janelas do oceano
Onde sereias têm seus prados
E ninguém precisa pensar muito
Na Ala dos Desconsolados
.
.
Sim, recebi sua carta ontem
(Foi quando quebrou a maçaneta)
Me perguntar se estou indo bem
Foi algum tipo de brincadeira?
.
Todos esses que você menciona
Sim, eu conheço, são uns toscos
Tive que lhes dar nomes diferentes
E rearranjar todos os seus rostos
.
Agora eu já não leio mais tão bem
Não mande mais estes seus recados
A não ser que sejam remetidos
Da Ala dos Desconsolados
Bob Dylan
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

uma epígrafe

.
.....Minha vida se dispersa continuamente. Como um rio que sai do leito e transborda sobre a terra. Então, tenho de abandonar muitas coisas e pensar no que é útil e bom. Só assim controlo as águas e as faço voltar ao seu leito. É como um pêndulo. Foi sempre assim. Já me acostumei a viver com essas inundações que arrasam tudo, e depois a calma, o controle, a solidão, o silêncio. É como uma longa aprendizagem. Infinita. Desconfio que nunca se concluirá. Pedro Juan Gutiérrez.

terça-feira, 2 de março de 2010

antologia luis capucho

.


duas epígrafes

.
.....O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz a gente se sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.
Charles Bukowski
.
.....Tente me expelir / ao me sentir ausente
Vinicius de Moraes

segunda-feira, 1 de março de 2010