apontamentos sobre o verão: 1. o que aqui começa, o que continua? 2. meu fraco são as axilas, e a nuca, também a nuca. 3. esforço-me para ser um bicho de estimação, sou indomado. 4. veja os pombos, tendo os pés no chão ou nas alturas se faz muita cagada. 5. o verde é um personagem, o vermelho outro. 6. é sobre um coro de bêbados também. 7. a tarde e a noite, a primeira finda, a outra se estica, tudo escurece, o poema de hoje. 8. a urgência não dá espaço para escolhas. 9. a beleza está aqui na minha frente, ela dança intercalando sofreguidão e a mais morna e macia das ações. 10. parabéns aos Hércules que fingem suportar. 11. deixa a tristeza escorrer.12. sabe aquela música Doody IV, do Nei Lisboa? 13. toda fragilidade é na primeira pessoa. 14. meu pau não é dos maiores, mas sei usar bem. 15. sempre estamos aprendendo outras coisas do mesmo das coisas. 16. que alternativas tenho eu? 17. as folhas são ferrugem nos galhos, o fim de tarde colhe a luz azulejada, começa a chover, o centro alaga, devo chamar isso de cenário? 18. o poema narrativo está se reinventando. 19. a luz parece deslocada no meio do cinza do dia. 20. a poesia é erro. 21. há aqueles que sorvem catástrofes feito sorvetes sorvessem. 22. o corpo é o começo do meu texto é o meu nome completo.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
herdamos de nossa avó uma fitinha cassete com canções natalinas cantadas em italiano. todos os anos, esta é a hora em que meu pai a coloca para tocar. já tenho idade para uma dose de uísque. bebo comovido, as canções são algo de que nunca me livrarei. em minutos vou tomar meu banho e colocar a camisa nova. todos começarão a chegar com seus pacotes. sempre tenho a sensação de que não vou ganhar nada de ninguém. e por que deveria? ficaria feliz se conseguisse alguma vez ser um bom homem. de todo modo, no final, alguém aparecerá com um livro, com uma camiseta alguns números menores, um vidro de perfume embrulhado com meu nome na etiqueta. sabe, o italiano é uma lingua e tanto, e a poesia de Eugênio Montale um dia deve ter me salvado. sinto muita saudade da dona desta fitinha, aquele pinguinzinho com neve na cabeça, meu verdadeiro papai noel. todos os anos, esta é a hora. nada pode ser mais belo, triste e necessário.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
peça de teatro
muitos, infelizmente, sentiram tão somente o cheiro do linóleo, porém outros, como eu, o dos atores. percebia, sentado na platéia, miúdas sutilizas que eram assombros. o elenco. desejava saber o que ia datilografado nas folhas que vez em quando as personagens trocavam ao gosto do acaso, efeito igualmente construído. todo livro, o sagrado. os intérpretes decoravam e abandonavam as folhas. alguém distraído que por ali passasse. ou transeuntes apressados. os ônibus não especulam, vão, retornam em quarenta minutos. palavras para serem esquecidas. eu permanecia a decodificar o bilhete do namorado ao abraçar a moça por trás como que fazendo seu adeus. foi assim. numa cidade velha em que morei. o adeus mais duro é olho no olho, diziam, e eu já sabia. apostava-se no trabalho dos topógrafos. êxtase da companhia teatral. encenavam a memória, acumulo de esquecimentos. o vento também era personagem. ao perder o chapéu, junto, o homem, perdia a cabeça. ia buscar, estava enterrado. não sabíamos de onde vinham os bebês. não digo que ao partir tenhamos saído ilesos. o nariz do velho apontou e caminhamos rumo ao sul. viver para fundar e abandonar, dizia. o risco, única opção, dizia. os atores. meus pés vivos, a carne sem pele. só vim porque você veio, sussurrei em seu ouvido. ela havia amadurecido sua característica dramaticidade de sempre. não era a primeira vez em que me deleitava com tamanha capacidade cômica.
sábado, 10 de dezembro de 2011
a pensão
só marginais transitam por lá, diziam
refúgio das gentes falidas
ruas sem ruidosas buzinas de motocicletas
sem teclados sintetizadores misturados com
sanfonas nas madrugadas
estragadas mulheres
enfermeiros aposentados
gatos pretos que funcionassem
qual manchas de óleo a correr ruelas
ela
atrás de uma cortina fina
mostrava-a mais que ocultava, flores na ventania
ao lado, cachorro desajeitado com cara de jegue
trombando nos móveis da sala e cozinha, um ambiente só
eu o temia mais que aos dragões que
dizem bater asas nos bosques
a qualquer momento abrirá suas asas
mostrará a língua para nós
alçará portão fora gargalhando chamas
enquanto tirarmos os pratos da mesa
a besta resolvia me interpelar com seu focinho e presas à mostra
querendo os pratos
também três homens, trajes brancos, puídos,
riam e jantavam desconexos assuntos
pensão iluminada por velas que pingavam sutis em
nossos olhos marejados de neblina
e o chá preparado por feiticeiras
no outro dia, após o café matutino, passeei
regiões afastadas do perímetro urbano
a periferia da periferia resistia
lugar de antes de haver metrópoles porque metrópole
casas de madeira, samambaias na varanda, hortênsias as cercando
estradinhas brancas que levavam até vacas distraídas
pastando a idade da pedra
sombra lilás de galhos e nuvens
quero-queros no noturno do inverno carregando uma
sacola ampla vazada de estrelas
o armazéns de madeira úmida
e a lagartixa recém acordada de um sono sem relógios
a defender os tijolos da parede de ataques dos mosquitos
nascidos para fazer-nos coçar
só marginais transitam por lá, diziam
refúgio das gentes falidas
ruas sem ruidosas buzinas de motocicletas
sem teclados sintetizadores misturados com
sanfonas nas madrugadas
estragadas mulheres
enfermeiros aposentados
gatos pretos que funcionassem
qual manchas de óleo a correr ruelas
ela
atrás de uma cortina fina
mostrava-a mais que ocultava, flores na ventania
ao lado, cachorro desajeitado com cara de jegue
trombando nos móveis da sala e cozinha, um ambiente só
eu o temia mais que aos dragões que
dizem bater asas nos bosques
a qualquer momento abrirá suas asas
mostrará a língua para nós
alçará portão fora gargalhando chamas
enquanto tirarmos os pratos da mesa
a besta resolvia me interpelar com seu focinho e presas à mostra
querendo os pratos
também três homens, trajes brancos, puídos,
riam e jantavam desconexos assuntos
pensão iluminada por velas que pingavam sutis em
nossos olhos marejados de neblina
e o chá preparado por feiticeiras
no outro dia, após o café matutino, passeei
regiões afastadas do perímetro urbano
a periferia da periferia resistia
lugar de antes de haver metrópoles porque metrópole
casas de madeira, samambaias na varanda, hortênsias as cercando
estradinhas brancas que levavam até vacas distraídas
pastando a idade da pedra
sombra lilás de galhos e nuvens
quero-queros no noturno do inverno carregando uma
sacola ampla vazada de estrelas
o armazéns de madeira úmida
e a lagartixa recém acordada de um sono sem relógios
a defender os tijolos da parede de ataques dos mosquitos
nascidos para fazer-nos coçar
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Lançamento da minha primeira novela
.
Olha aí, a capa do meu livro novo E se contorce igual a um dragãozinho ferido. Editado pela Arte & Letra Livros. Um primor o trabalho deles. O design todo é do Frede Marés Tizzot. E meu maninho Botika colocou uma orelha no bichinho vomitador de fogo. Dia 17, sábado, a partir das 15 horas, faremos o lançamento na Livraria Arte & Letra (Rua Pres. Taunay, 130 - fundos da Casa de Pedra - Batel).
cinema
há anos a Igreja obsoleta
era um lugar que doía
você adentrava suas dependências
uma força centrífuga sugava a energia dos segundos
o padre veio de outra cidade, há muito
não havia religiosos
para a inauguração, água benta
hoje, o Cine Passado
projeções a iluminar
não souberam um jeito de encontrar Deus lá dentro
Deus, este decepcionado lugar
há anos a Igreja obsoleta
era um lugar que doía
você adentrava suas dependências
uma força centrífuga sugava a energia dos segundos
o padre veio de outra cidade, há muito
não havia religiosos
para a inauguração, água benta
hoje, o Cine Passado
projeções a iluminar
não souberam um jeito de encontrar Deus lá dentro
Deus, este decepcionado lugar
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