terça-feira, 18 de agosto de 2009

barras antipânico e barrinhas de cereal

Jeff Bridges e John Goodman
.
Lebowski e eu
para Reka
.
Entramos no elevador Lebowski e eu. Fedíamos a maconha. Notamos que o espelho no qual costumávamos olhar nossos reflexos, o espelho havia sido retirado de uma das três paredes que constituíam o elevador. Depois, que também as três paredes que constituíam o elevador igualmente tinham sido removidas. Achamos que a porta, a porta que dá acesso ao elevador, pensamos que a porta continuava ali abrindo e fechando, porém logo vimos quanto estávamos errados, não havia mais a porta. Então olhamos para cima, qual não foi nossa surpresa, Lebowski e eu nos deparamos com um teto que não havia mais. Aquele era um roteiro de decepções seguidas de decepções. Isto é um roteiro de decepções seguidas de decepções, disse-me Lebowski. Foi aí que juntos olhamos para o chão e já não havia chão. A coisa degringolara complemente. Foi necessário que Lebowski e eu flutuássemos. Mas flutuar assim de última hora?, reclamou Lebowski.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

barras antipânico e barrinhas de cereal

Hunter Thompson
.
Bordel Calcinha de Seda
.
Para o ator Pascoal Vilaboim
.
Fazia uma tarde de 31 graus, daquelas em que a cueca fica encharcada, quando ouvi ela dizer “Já cruzei o Brasil a bordo de um trem chamado Jontex” e dar uma gargalhada que fez com que todas as mesas do restaurante virassem para nos olhar. Parecia bastante animada, mas você notaria que sua mandíbula tinha a trava comum dos consumidores de anfetamina. Ela era uma das mulheres mais desejadas do País, famosa, diversos trabalhos no cinema, ex-modelo, mais de quarenta capas de revistas. Foi mais ou menos quando ela falou “Minha vida toda é um sem-querer” que notei seu estado, ela estava chapada às 11 da manhã naquele restaurante em Ipanema. Fora uma semana esquisita, algo novo e determinante chamava a atenção dos cidadãos cariocas em geral para sua pessoa, o acontecimento de vislumbrarem sua fotografia também nas páginas policiais. O motivo da publicidade inconveniente era o fato de que as pessoas que viviam ao seu redor, não de uma hora para outra, mas sistematicamente, tinham começado a tomar chá de sumiço, como ironicamente informava a nota na parte inferior da primeira página dos jornais. “Inacreditável”, foi o que balbuciei quando ela tirou um exemplar do JB de dentro da sacola com outras compras e me mostrou a manchete. Estampando a página policial via-se uma fotografia de típico flagrante feito por algum paparazzi. De qualquer maneira, meu aturdimento não pareceu espantá-la, e mesmo a fofoca toda em torno de seu nome de algum jeito estranho a alegrava. Fitou-me objetiva com aqueles olhos basalto-claros, e eu não consegui manter-me encarando com a mesma convicção com que ela fazia, já que naquele momento estava confirmando que os jornais não mentiam sobre o assunto. “Neno, eles estão certos, eu fiz mesmo essas coisas”, foi o que ela me disse. Eu não queria escutar, não me importava. Ela segurou minha mão e puxou para si pousando sobre os dedos seus beiços grossos como que me injetando um veneno. E fez as perguntas afirmativas que eu temia “Você sabe que eu te amo, né?” É, eu achava que sabia. “E você, Neno, me ama?” O que responder? O quê, se o garçom acabava de depositar sobre nossa mesa o filé que pedimos, a carne pouco passada, sangrenta, repetindo aquela piada estupidamente mecânica de “o boi veio que veio ainda berrando”, tudo com um sorriso desenhado como que à força nos lábios. Não fui capaz de tocar na comida. Não fui capaz de dizer a Fafá se a amava ou não. Aquela matéria, seu flagra nas esquinas do Leblon, a suspeita dela ser uma criminosa, aquelas perguntas, a piada do garçom, tudo me embrulhara o estômago. Ainda por cima foi preciso lembrar que apesar de Fafá ser uma das garotas mais cobiçadas do País, suas qualidades artísticas de fato eram vergonhosamente limitadas, constatação com a qual meu estômago intensificou naquele dia escaldante de verão, a propósito da minha ida ao banheiro, as golfadas do sucrilhos do meu desjejum, aproveitando que eu já estava mesmo com o rosto dentro da privada. Não queria que fosse eu, mas o sujeito igual a mim que lavava a boca na pia após vomitar até mesmo a fumaça dos sete cigarros que já havia ingerido até então. O cara do espelho e eu sabíamos, era notório, Fafá havia sido garota de programa anos atrás. E tendia ela mesma a não esconder de ninguém. A quem lhe perguntasse “Fafá, é verdade que você foi prostituta antes da fama?, ela responderia sorrindo “Quem não foi, meu bem?” Mas agora as coisas tinham mudado um pouco. Fafá havia se tornado uma colega do Paulo Coelho, sua vida estava exposta para quem quisesse, e todos pareciam querer, pois em menos de dois meses seu livro Bordel Calcinha de Seda – Confissões de Fafá era o mais popular dos que com ela dividiam as prateleiras de best-sellers. Fafá não estava somente famosa, mas milionária também. Eu tinha lido a obra ainda nos originais e, confesso, na época foi o que acelerou meu processo de paixão por ela. Não sei se todo homem, mas eu com certeza sonhava em tirar do baixo meretrício uma linda e indefesa garota. Conheci Fafá no Calcinha de Seda, o bordel, não no livro. O lugar era aconchegante, poltronas forradas com camurça, tapeçarias. A clientela era fiel. A dona, uma libanesa, fumava narguilé a noite toda. Havia começado o negócio com o esposo, já falecido e a filha, mais ninguém. O marido cuidava de administrar. A filha se desdobrava para agradar a todos (a filha não era Fafá, ela só apareceu por lá uns sete anos depois). E a libanesa fazia a faxina e as compras. Quando a casa lotava demais, a libanesa também fazia um programa ou outro. O Calcinha então se transformou em um sofisticado lupanar. Fafá trabalhou lá nos tempos áureos. Ela nasceu em 1977 em uma fazenda de gado, perto de Guarapuava. Quando fez 16 anos fugiu do pai bondoso e da mãe quase santa vítima de glaucoma, sem jamais ter voltado para rever o lugar de sua infância, tampouco a família, que permaneceu atolada naquele ambiente arcaico. Perambulou de cidade em cidade até chegar em Curitiba. A sua primeira vez foi em um banheiro de posto, na estrada, no qual o dono, após os serviços, lhe serviu um prato feito. Só conseguiu conforto e segurança após sete meses de incertezas e sufocos, quando de sua chegada ao Calcinha de Seda. Na noite em que a conheci estava especialmente feliz. Depois nunca mais encontrei aquela alegria dentro dela, nem mesmo quando a sorte lhe bateu à porta. Lembro que logo foi tirando o vestidinho de pano com estampas floridas. Sentou-se na cama, contorceu os braços para trás, alcançou as costas e desabotoou o sutiã. Hipnotizava-me sua desenvoltura, havia um certo descaso em suas ações. Era uma paisagem a escultura de seu corpo. Eu suava, as axilas empapadas, o verão se espatifava na janela. Fazia o calor dos infernos, de maneira que cheguei a pensar se aquela garota não tinha vindo exatamente desse lugar. “É um anjo”, refleti na ocasião. “Vai ficar aí parado igual um sapo?”, indagou-me. Ordenou que eu tirasse as roupas. “Que coincidência”, eu disse, “a minha camisa também é florida”. Ela achou graça do modo como a arranquei por cima da cabeça sem que abrisse um botão sequer. Desfiz-me dos panos, mas continuei, segundo ela, “Paradão-sabão”, até que resolveu vir me beijar. Eu ainda de cueca e com as minhas velhas meias azuis. Ofereceu-me os peitos. Pegou-me pelos pulsos. Abri os dedos. Senti o peso nas mãos. Ela me puxou para cima, abriu as pernas e, executando um movimento perfeito, técnico, científico, me engoliu. Ela e aquelas maluquices que fazia, e suas ideias com foco bastante específico sobre as coisas. Por exemplo, a respeito da vida de puta que levou, dizia “Puteiro é uma coisa muito boa, se você não vende a mercadoria, pode comer o estoque”. Eu achava engraçado. Com ela participei de indescritíveis banquetes, isso já depois de Fafá ter alcançado o estrelato. Chamava-me para as orgias com outras garotas e sussurrava “Você é o bendito fruto”. Por ser o bendito fruto fui ficando famoso também. Eu era o sujeito que conhecia as intimidades daquela beldade cobiçada. Aliás, eu era apenas um dos caras, mas a minha assessoria de imprensa funcionou melhor que a dos outros. Então todos entendiam, e mesmo Fafá, que eu era o namorado oficial, o “fodedor” oficial. Os jornais, revistas e programas de tv sensacionalistas fizeram uma lista dos homens que saíram com Fafá e nos chamaram de “fodedores”. Ficamos mais ou menos sendo manchete de duas ou três edições das revistas. Aparecíamos em programas de televisão quase que diariamente. Fafá cada vez com menos pudores. Dava declarações bombásticas, o que ela contava, Sade não havia contado na Filosofia na Alcova. Tínhamos ido longe demais em nossas escavações sexuais. E ido longe demais com a repercussão disso. Intimamente Fafá já não suportava a situação, mas a coisa havia se transformado em uma bola de neve. Não sei dizer exatamente quando, mas comecei a estranhá-la. Certo dia encontrei um revólver sobre a pia do banheiro. Aquilo não devia ser apenas mais uma de suas propostas sadomasoquistas. De fato não era. A observei com cautela, segui seus passos. Presenciei Fafá liquidar um por um os seus “fodedores”. Fez tudo com frieza. Depois sofria por minutos. Então se tornava gelada novamente. Eu não a ajudava, assistia de longe. Desconfio que ela soubesse que eu a seguia. Eu devia me preocupar, chegaria a minha vez. Mas a tranquilidade se aconchegou em meu sangue, e optei por não fugir. Estava deitado, então, na cama de sua cobertura na Barra da Tijuca. Somente a lua cheia lá fora a iluminar sua silhueta. Fafá se aproximou, eu não me mexi. Ela descarregou em minha direção pá pá pá pá quatro tiros secos, ritmados. Não sei explicar como, mas nenhum dos tiros me acertou. O colchão de água vazou. O travesseiro cuspiu penas de ganso. Eu permaneci ileso. Atônita, Fafá largou a arma, aliás, como sempre acontecia logo que eliminava cada um dos seus amantes. Levantei e a abracei. Ela chorou suplicando que não a abandonasse. Eu não abandonei. Fugimos para Cuba. Fizemos adulteração facial. Fafá ficou a cara da Anjelina Jolie, juro. Eu, com traços que lembram o Hunter Thompson, mas com cabelo. A polícia brasileira continua a nos caçar com obstinação. Hoje ganhamos a vida fazendo shows de sexo explícito. Somos um sucesso.

notas para um livro bonito

se eu conseguisse
sair de mim
seria como fugisse de
dentro do zumbido de
mais ou menos 749
abelhas picando meu
cérebro incansavelmente

domingo, 16 de agosto de 2009

paulo sandrini

Paulo Sandrini
.
Bom, houve esse terror vivido pelo Paulo Sandrini. Ainda bem que as coisas se resolveram e ele voltou para casa são e seguro. Em seu blog http://paulosandrini.blogspot.com/ o escritor explica o que não tem explicação, a violência sofrida em terras de nossos irmãos venezuelanos. Não pretendo dar corda para forças malignas. É uma pena que após tantos exemplos de derrotas relacionadas à humanidade, em alguns lugares do mundo, exista os que pensam e agem de modo ditatorial, fazendo com que pessoas inocentes sofram. Nesse momento estendo a mão amiga ao artista e parceiro Sandrini. Apesar de se tratar de relato fundamental, não reproduzirei aqui seu texto a respeito do equívoco que o machucou. De todo modo, acredito o estar apoiando e apoiando seus pares venezuelanos ao, nesse sítio, propagar os seguintes importantes poemas, de autoria de Rafael Cadenas, traduzidos pelo Paulo:
.
O argumento
.
Pela manhã
lemos anestesiados
as notícias
da guerra (qualquer guerra),
um oficial
bem merece alguns combates;
cada facção
deseja mostrar que Deus
está do seu lado
com o argumento definitivo;
nossos olhos correm
as páginas- buscamos mais confirmações
de nossa derrota-
e o jornal traz o que esperamos encontrar.
.
Ao despertar
.
Que sei eu de razões?
Meu pensamento é esta manhã que se eleva
sobre a ondulação do cerro,
a neblina que envolve
alguns pássaros,
o rumor
do mercado, os gaviões que ainda
se aproximam desta margem da cidade,
a xícara de café
antes de sair à rua
quando ainda não estou comigo
.
A busca
.
Nunca encontramos o Graal.
Os relatos não eram verídicos.
Só a fadiga dos caminhos acompanhou
os que se aventuraram,
Mas esperavam histórias.
Que seria nossa vida
Sem elas?
.
Nada se resolveu,
poderíamos ter ficado em casa.
Mas somos tão inquietos.
No entanto, concluída a viagem
sentimos que em nós- não mais reféns
da esperança -havia nascido
outro templo.
.
Rafael Cadenas
Tradução: Paulo Sandrini
(16 de agosto de 2009)

notas para um livro bonito

não existe lua quando olho pela janela do
apartamento, na rua o lobisomem late
alarmes disparam, o vento lambe
santinhos de publicidade no asfalto
a madrugada não é nem um pouco
generosa com nosso sono
é preciso dar a ela doses e mais doses de
palavras sujas, parágrafos apunhalados e
romances inteiros desterrados
escritos para derreter nas mãos dos
leitores feito a geada, a geada, a geada é
minha melhor amiga, a neve é que
não me conhece, aqui dentro é lá fora
uma alameda do Pilarzinho
e tudo se resume a isso: eu arrancar
um a um todos os pêlos do ursinho de
pelúcia do bebê da casa, com sua
nudez imaculada embrulhada em lã
lamentando uma Curitiba que nos
serve vivos para banquetes de quero-queros
ou então, a morte a nos rebatizar com gripe e
filas nos postinhos de saúde
para onde me arrasto, engatinho
e a geada conhece meus lábios, conhece o
vapor amargo que de dentro das veias exala
geada, geada, geada, geada, a geada é
minha amiga íntima, a neve é que
não me conhece, o frio, lascivo, não o espero
embora saiba que voltará, o frio, não dependo dele
mas rôo suas unhas, a geada é minha
melhor amiga, só não quero morrer sem
a certeza de que a neve não tem gosto de
algodão doce, por enquanto me embebedo
com doses e mais doses de palavras sujas
pulsando de tantas bocas com hálito de
nicotina, parágrafos apunhalados e
romances inteiros soterrados na neblina
escritos para ofender as mãos dos leitores
.
*espero que seja meu último
poema de inverno esse ano.
maldita gripe.

sábado, 15 de agosto de 2009

o pão brutal de ontem

Condimínios no Pilarzinhos
.
Apenas o que se lê nos jornais diariamente
.
No Pilarzinho os motoboys fazem o que querem, curvas e ladeiras são suas casas, empinam motos, outros passeiam a pressa. Passam Kombis da Prefeitura. A Moça do Senso com sua prancheta. Vê-se faixas de agradecimento ao vereador, penduradas em ruas onde chegou o anti-pó. Proliferam Vidraçarias, Materiais de Construção. Proliferam casas com a placa de “cuidado, cão anti-social” no portão. Proliferam Cabeleireiros Unissex no redor de ruas e ladeiras sem saída, algumas com placas de trânsito informativas, outras um buraco sem aviso, abismos que levam à vales onde estão os casebres mais pobres, onde há na parede escrito em carvão “vendo bom-bom caseiro”, onde alguém terá deixado no poste de madeira a mensagem “corto árvores, ligar número tal.” Na parte alta, pracinhas com gangorra e escorregador, alguns manos fumando maconha. Deveras bucólico e triste, conforme o ângulo da análise. Alto índice de violência? Não. Apenas o que se lê nos jornais diariamente. Cruel, não é mesmo? Algo que beira o corriqueiro. A não ser que a construção civil em parceria com especuladores imobiliários tenha papel significativo em relação ao aumento populacional, contribuindo assim com as taxas de incivilidade. Diga você. Há o Bar dos Polacos. Nele, caso você esteja à base de água mineral, o bairro se torna um tanto tedioso. Cachacinhas de mel e banana provocam efeito oposto. Há riscos de porre, então você terá de enfrentar a fila de vômito do banheiro do Polaco, experiência inesquecível. É um bairro mais que suportável, menos que agradável. Até hoje está lá a famosa Cruz, onde um certo poeta costumava pousar (é “pousar” mesmo!) nas fotografias. IPTU?, de valor intermediário. Bom para mansões, ruim para casebres atropelados por tais mansões. Ainda não está adoentado. Propicia vista de um belo horizonte, com intervalos de Ligeirinhos e caminhões do Lixo que não é lixo atravessando os olhos do contemplador. Vê-se oficinas de carros com gordos abaixados mostrando o cofrinho, calças sujas de graxa. Tratores estacionados, alheios ao trânsito. Há instituições ilustres habitando a região, exemplo é o Sanatório Bom Retiro, onde espero não acabar os meus dias. Ou (quem sabe, não é mesmo?) eu deveria estar dentro do nosso nobre hospício? Mas sigamos: Ao lado do Bom Retiro, há terrenos com porquinhos da índia e galinhas. Perto dali, o Bosque do Alemão. No Bosque, a Torre dos Filósofos, onde alguém escreve que o lugar é “destinado à observação da natureza e da cidade. Uma homenagem a todos os que se dedicam à escalada do pensamento, à vertigem do espírito, dentro da antiga tradição da filosofia e blablablá.” Sobre a destinação da Torre algum outro comenta por meio de pichação o seguinte: “Porcos chauvinistas, a cidade é nossa, sucumbirá aos pés dos oprimidos!” Preocupação, não das maiores, para a Guarda Municipal. A parte interna do bairro onde moram minha mãe, minha irmã e seus filhos, abriga ainda hoje pequenas chácaras de agricultores que estão, em grande parte, sendo vendidas a preço de banana para que as transformem em conjuntos habitacionais. Capivaras que mais parecem peludas pedras, guardiãs dentuças, locomovem-se nesse lugar que outrora foi colina. Rondam o condomínio, e isso não é nada estético. Minha irmã deseja mudar de endereço, ir para apartamento mais central, onde bichos de garras, presas, roncos e guiso existam (pois existem a nossa revelia), mas estejam bem escondidos nos subterrâneos, e só ousem emergir de tais esgotos quando corre alta e fria a madrugada. Por enquanto seu automóvel sobe e desce as grandes ladeiras levando meus sobrinhos. Ela, ora fotografa, ora acena para vizinhança de varandas que armazenam neblina. Casas com paredes infiltradas pela umidade, onde guriazinhas gripadas brincam de “casinha”. Já minha mãe é diferente de sua vizinha que cochila das 13:30 até 14:30, diariamente, após o almoço. E minha irmã, por sua vez, nem fica sabendo que no ponto de ônibus resmunga algo banal uma outra senhora antes de embarcar. Mais em frente, uma bicicleta esquecida sem corrente e cadeado descansa encostada na parede do armazém. Pilarzinho... e as manhãs são frutas típicas de inverno, especialmente mimosas, que ao anoitecer ainda não terão apodrecido. Funcionários públicos, aos sábados, lavam o automóvel com mangueira na calçada. A piazada se algazarra com o bete-ombro no campinho de várzea. Há duas ou três escolas públicas, onde não estudam os filhos da minha irmã, que são trazidas até o Colégio Positivo diariamente. Alessandra, menininha de 7, e Roberto, um piá de 5 anos. Mochila nas costas, lancheira na mão, fazem companhia um ao outro. Cuidam-se. O cadarço do tênis do Rô insiste em desamarrar, a irmã é quem se abaixa e dá o laço. Eles não conhecem os moradores do bairro. Eles não acenam para o moço da farmácia, a atendente da panificadora, loja de onde uma gorda se aproxima carregando saquinhos de pão e leite. Ale e Rô não comem casas inteiras de chocolate, feito ocorre nos contos dos irmãos Grimm, mas se lambuzam na hora do recreio. Ele é bom em matemática, ela só gosta de educação artística. A diretora da escola é uma bruxa, diz Ale para sua mãe (minha irmã), quando ela vai apanhá-los depois da aula, justamente quando o sereno começa a se apropriar da cidade, minutos antes de serem assaltados no portão do condomínio onde moram, quando dois sujeitos encapuzados os abordam e, brutos, fazem-nos encaminhar para dentro da casa de minha mãe. Lá, violentam minha irmã. Espancam minha mãe até a morte. E promovem maldades indizíveis com as crianças, cujos detalhes me causam vômitos sanguíneos só de lembrar.

segue temporada da peça, com texto de minha autoria, NA VERDADE NÃO ERA

Em cena, Ciliane Vendrusculo...
essa guria é poderosa mesmo
.
Na Verdade Não Era
.
Teatro José Maria Santos, rua Treze de Maio, 655.
de quarta a sábado, às 20 horas, e domingo às 19 horas.
10 e 5 reais. Até 30 de agosto.