quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

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Árvores

tenho oito anos
é manhã de sábado
caminho com meu pai pelo bairro

ele para diante de uma árvore
ele a está abraçando
colando o rosto em seu tronco rugoso

as árvores são melhor que a ciência, diz, as árvores
sob a serra elétrica são como Gandhi diante da violência
contra o mal que se faz contra elas são
as mais perfeitas filhas de Deus

corta (a palavra não é coincidência) para hoje

tenho 31 anos

vejo o funcionário da prefeitura que apunhala
galhos e troncos

pergunto: não é você aquele que adora cair de boca em abacates
(cada funcionário ao ler este poema use a fruta de sua preferência)?

corta

casa de campo do sr. prefeito

quem deu a ordem de derrubar
centenas de árvores em toda a cidade cidade cidade?, grita o bronzeado prefeito

a casa de campo dele é lindamente arborizada
você pode sair caminhar após o almoço
sem sequer se lambuzar com protetor solar

digo, na casa de campo do sr. prefeito

é, quem é que não gosta de sombra e água fresca? (quem pergunta?)

nunca saberei o que é o sadismo (quem pergunta?)

esses ecologistas também exageram, hein! (quem?)

corta

meus oito anos

e é assim, diz meu pai, algumas árvores
a gente vê soltando folhas
outras, arrebentando as calçadas

2 comentários:

  1. Lindo, Leprevost... sem falar na estrutura cinematográfica... corta! bjos querido!

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  2. "Que saudades da aurora..."...
    Bonito esse!

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