quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

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Fragmento da segunda novela da Trilogia da Geada
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Tenho 35 anos. Estou infeliz. E desempregado. O desemprego pode ser ótimo, umas férias de verdade, quando temos para onde voltar, a casa dos pais, dos avós, ilhas paradisíacas. Não é o meu caso. Estou paralisado. Talvez bebendo demais. Não encontro perspectivas de futuro. Não tenho descendentes. O que poderiam herdar se os tivesse? Os meus casos são com balzaquianas entristecidas, abandonadas, ou que abandonaram, em nome do feminismo, da independência da mulher contemporânea, a história pequena e tranquila que um dia suas mães sonharam.
O que estou fazendo da vida? Estou lendo, abrindo e fechando a janela. Estou descascando limões e esfregando nos olhos. Estou bocejando. Estou perseguindo insetos. Estou pregando as pálpebras. Estou na obscuridade. Um dia vou meter a cabeça numa serra elétrica, a mesma serra que matou Tati.
Por ter consciência desse quadro lamentável, numa manhã dessas acordei decido a virar o jogo. Sou escravo dos meus humores. Vesti um blazer e fui falar com ele. Os seguranças e as secretárias não me conheciam pessoalmente, tampouco tinham ouvido falar de mim. Fazia mais de seis anos que eu não ia ali. Foi difícil chegar à sala da diretoria. Tive que fazer cadastramento, pendurar um crachá no bolso, ser anunciado e esperar. A secretária abriu a porta e me encaminhou. Tatá não pareceu surpreso ao me ver.
A que devo a honra? Aceita uma água, café?
Ali estava meu primo, grisalho como meu pai.
Café, eu disse.
Ele pegou o telefone: Dois expressos. E em seguida: Quanto tempo, Jassei, o que tem feito?
Ele estava ansioso. Falava sem deixar intervalos que permitissem que minhas respostas fossem mais do que vazios pois é, estou por aí, correndo, etc. Bateram à porta. A copeira entrou carregando uma bandeja com as xícaras. Com um ar desdenhoso, ele disse: Pode deixar aqui, nós mesmos nos servimos.
A copeira pediu licença e se retirou. Tatá serviu as xícaras.
Açúcar ou adoçante?
Puro, respondi. Depois eu disse: Vou trabalhar aqui.
Tatá me olhou pela primeira vez nos olhos e se deteve. Seu olhar era escuro como um poço. Então sorriu encolhendo os ombros como quem pergunta como é?. E disse: Você nunca gostou de marcenaria, Jassei.
Nunca gostei de marcenaria... é verdade. Mas nutro desejos audaciosos, só não consigo colocá-los em prática. Sou o primeiro que me diz não. Eu não tenho admiração por mim. Tatá, Tati e eu não éramos inseparáveis, embora estudássemos no mesmo colégio. Eu tirava notas baixas. Tatá não. Dizia a dona Leda, nossa professor de língua portuguesa, que eu vivia fugindo do tema. E eu fugia mesmo. Mas acreditava que deveria tirar notas boas pela minha capacidade de fugir do tema. Eu sabia ir longe, mas era um tempo em que a escola nos queria adestrados. Meu pai me quis adestrado por um tempo, depois desistiu de mim. Tatá adestrou a si mesmo logo de cara. Agora já estava na hora de eu mostrar quem eu era, ser firme com ele. Não fugiria desse tema. Eu disse: Vou trabalhar no setor de comunicação.
Eu não tenho como colocá-lo na empresa assim de uma hora para outra, nossos quadros estão inchados, estamos passando por um momento crítico.
Preciso trabalhar, Tatá.
Você está devendo dinheiro para alguém?
Há anos venho me guiando pela bússola da contramão. Avião para os negócios, como dizia tia Ruth, o sacana do Tatá estava querendo saber o meu preço.
Estou devendo para o banco.
Quanto?
Não é da sua conta.
Meu tom era amargo. O dele tinha gosto de meia suja.
Se você vem me pedir emprego, é da minha conta, baixou o voz tornando-a ainda mais áspera.
Não vim pedir nada, essa empresa é tão minha quanto sua.
Jassei, você nunca quis fazer parte dela, fui eu quem a transformou no que ela é, além do mais, você recebe sua parte mensalmente.
Mil reais?
Nada mais justo.
Não vou discutir com você, Tatá.
De quanto você precisa para quitar essa dívida e sumir da minha frente?
Você me enoja, Tadeu.
Não somos mais crianças, Jassei, vou aumentar o seu pró-labore de não fazer nada para 2.500 reais, está bem assim? Além de dar a quantia necessária para você quitar suas dívidas, em troca peço que suma da minha vida. Quanto você deve?
Sete mil.
Tatá abriu uma gaveta. Ele se transformou num sujeito bem estruturado, funcional, que provoca admiração pela sua eficácia nos negócios e posição social. Ele e Tati eram um ano e meio mais novos do que eu. Lembro-me bem da vez em que incendiamos o galpão das festas, onde funcionava a churrasqueira, quase que fizemos churrasco de Brennelli quando inventamos de acender o resto de carvão que sobrara. Tia Ruth tinha guardado ali fantasias carnavalescas de várias mulheres da vizinhança (não sei por que logo no galpão) que acabaram servindo de comida para a fome incontrolável do fogo. Eu levei toda a culpa e Tatá saiu de vítima. Cada um de nós levava vida própria. Tentando deixar algum rastro de fogo e brilho por onde passasse. Tatá conseguia, eu não, por mais que incendiasse um galpão inteiro, logo tudo eram cinzas. Às vezes fazíamos programas juntos. Num sábado de manhã, um amigo do vô Breno que tinha vindo fazer o aperitivo lá em casa, perguntou se a gente já tinha ido na zona. E nos explicou direitinho como fazer. Era só chegar lá e dizer que ele nos tinha indicado. Na sexta-feira seguinte Tatá veio com a proposta.
Vamos.
Topo, disse eu.
Melhor não, é perigoso, alertou Tati.
Convencemos Tati e fomos.
Agora eu estava sendo a puta de Tatá.
Ele tirou um talão de cheques da gaveta em sua mesa de trabalho. Vale mais o dono da carteira do que a carteira, por mais que o dono da carteira não valha nada? Tatá viu o cavalo passar encilhado e montou, o mesmo cavalo que agora me escoiceava. Ele assumiu o lugar que era meu por direito e eu nunca quis. Preencheu o cheque, arrancou do bloco e estendeu para mim. Eu disse um obrigado baixo. O fracassado da família.
E fui saindo da sala da diretoria.
E você se casou com esse filho da puta, Mana, pensei. Ele me roubou muitas coisas, mas você ele não podia ter levado. Vieram-me à mente imagens da gente com doze, treze anos. Eu saltando nas costas de Tatá, ele se debatendo, eu o espancando, depois o abraçando com força, prendendo seus movimentos. Derrubando Tatá. Ele tentando fugir e, ainda no chão, me dando as costas. Eu subindo nas costas dele, como ele fosse um bezerro desesperado. Então eu empurrando a cabeça de Tatá na direção do chão e gritando come grama, lazarento, come grama. E de repente eu sentindo alguém me puxar com força, arrancando-me de cima dele, dando bronca em nós dois: Estão de castigo, cada um para seu quarto, agora.
Mas foi ele quem começou, vô.
Não interessa, não quero ver dois primos brigando, isso é muito indigno, já para dentro.
E então eu indignado e ao mesmo tempo envergonhado porque vô Breno, que vivia nos dando ensinamentos pacifistas, de tolerância, tinha sido obrigado a se meter entre mim e meu primo. Eu me remoí, considerando-me o pior ser humano sobre a face da terra. E fiquei um tempo buscando um mínimo olhar de arrependimento de Tatá que, pelo contrário, tinha um risinho de escárnio na boca suja de terra e grama.
Agora eu estava ali em seu escritório, diante do mesmo risinho porco. Abri a porta. E senti um impulso incontrolável. Me virei e perguntei: Como ela está?
Saia faísca da gente. Tatá franziu a testa e me encarou com raiva. Um dia vou chutar a cara desse filho da puta, pensei, vou esmigalhar os joelhos dele, vou arrancar seus braços fora. Não, não vale a pena. Se tem uma coisa que aprendi com os anos é essa: não escoiceie se você não é burro, jegue ou mula.
Saia daqui, disse ele, antes que eu chame a segurança.
A gente se encarou por um tempo. Então saí do escritório também como que arrancado dali pelos braços já frágeis de vô Breno. Cruzei os corredores e a portaria. Tinha a cabeça pensa e os olhos ardendo em fogo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

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Dias com mais sol
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a sombra imita
meus movimentos
parece suplicar
que eu a tire da parede
da prisão do chão

a sombra não tem
nervos ossos
musculos coração

a sombra é feita
de feixes de escuridão

às vezes até serve de farol
quando aparece melhor
nos dias com mais sol

a sombra habita
em cada pessoa
parece colada
mas se vou olhar cadê
eu vim com o seu fim

a sombra não tem
sequer destroços
crepúsculos sim

a sombra se deita
bem embaixo de mim

às vezes se funde ao arrebol
e aparece melhor
nos dias com mais sol

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

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Naquela manhã, numa Flip em que estive como público (foram duas, ou três, não sei exatamente), entrei na enorme fila de autógrafos da escritora Adélia Prado. Eu já havia lido a poesia completa dela e alguma prosa. Mas não trazia livro debaixo do braço no momento. Eu era um dos últimos e, depois de mais de 1 hora na fila, quando chegou a minha vez, ela disse em seu conhecido sotaque mineiro: Uai, ficou nessa fila imensa só pra me dar um abraço? Sim, respondi, e pra dizer que sua poesia é fundamental pra mim. Havia ênfase na palavra, como se “fundamental” pudesse abarcar uma infinidade de sensações, sentimentos, experiências de minha vida. Então ela perguntou: Você também escreve? Escrevo, mas..., e completei a frase com um profundo suspiro. Ela apertou a minha mão e disse: Posso pedir uma coisa a você, filho? Nessa altura eu já chorava. Pode pedir sim. E ela: Promete que não vai parar de escrever? Aconteça o que acontecer, não pare, tá bem? Não vou parar, prometo, eu falei. Ela sorriu. Então dei um beijo em sua bochecha, agradeci com o meu melhor coração e saí caminhando sobre as pedras tortuosas das ruas de Parati.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

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Está sendo lançado o novo número da sensacional revista Coyote. Coyote 21. Nesta edição nos deleitam, inspiram e fazem mais sensíveis e inteligentes textos dos meus irmãos de fé Ivan Justen Santana http://ossurtado.blogspot.com/ e Mario Domingues, ladeados por Franz Kafka, João Gilberto Noll, Raymond Chandler, entre outros talentos das artes. Contando ainda com homenagem mais do que especial ao escritor Wilson Bueno.
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“A poesia contorna a Economia. É criação improdutiva como a Festa, o Amor. Não é mercadoria, ignora o interesse, está à margem do calculo” - escreve Jair Ferreira dos Santos em seu ensaio inédito, O Pavão é uma Galinha em Flor, publicado no novo número da revista Coyote que ganha as livrarias do Brasil esta semana.
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Editada em Londrina (PR), a edição traz um conto inédito do escritor gaúcho João Gilberto Noll e uma entrevista com a crítica norte-americana Marjorie Perloff. Julgando boa parte da poesia escrita hoje de "prosa preguiçosa", Perloff dispara: "Minha principal crítica hoje é em relação a falta de interesse no aspecto sonoro e visual da maior parte da poesia que aparece sobre minha mesa".
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Coyote 21 apresenta ao público brasileiro a poesia radical do espanhol Leopoldo María Panero, traduzido por Vinícius Lima, e aforismos de Frank Kafka, traduzidos por Silveira de Souza. A revista traz também a poética de Mariana Ianelli e apresenta a literatura de Ivan Justen Santana e Mario Domingues, dois novos talentos da poesia paranaense, além de um conto do londrinense Marco Fabiani.
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A publicação também traz poemas e narrativas de dois livros inéditos deixados pelo escritor curitibano Wilson Bueno, brutalmente assassinado em maio deste ano. Fotografias da série Autodesconstrução, da artista pernambucana Priscilla Buhr, complementam a edição.
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A revista Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária. A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina e editada pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes.
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COYOTE 21 // 52 páginas // R$ 5,00 (Londrina) e R$ 10,00 (outras cidades). Uma publicação da Kan Editora. Distribuição nacional Editora Iluminuras.
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Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161. Pode também ser adquirida pela internet através do site www.iluminuras.com.br.
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Contatos losnak@onda.com.br / zonabranca@uol.com.br / rgarcialopes@gmail.com
Fone (43) 3334-3299 / (43) 3322-2115 / (11) 3731-3281

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

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Ninguém é insubstituível. Trabalhar para ser insubstituível. Se vai conseguir? Haver ou não alguém na fila, ou mesmo você estar em uma, responderá – ninguém é insubstituível. Mas, sim, já conheci pessoas insubstituíveis. E, acredite, elas eram mais sós do que as outras. Porém, a gente notava que não havia nenhuma ingenuidade, vaidade, arrogância, falta de consciência ou arrependimento em suas solidões. Na maioria dos casos, aliás, havia beleza. Mas mesmo essas pessoas morreram ou morrerão um dia – para a ordem do universo, ninguém é insubstituível (e nem mesmo tal conceito existe), por mais que a morte não garanta qualquer sucessão. Então que se dane. De um jeito ou de outro, ciente que atua também na vida o imponderável e que a luta já está perdida, trabalhar para ser insubstituível.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

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Afrodite não tem autores prediletos, mas cenas prediletas de peças que nunca leu até o fim. Afrodite não tem pratos preferidos, mas lanchonetes onde julga haver sandubas bem servidos e saudáveis. Afrodite não devolve meus discos, nem me deixa cortar os pulsos de manhã depois que a ouço cantar um repertório que conheço tão bem como se eu mesmo o tivesse composto com meus três acordes. Afrodite e seus olhos que dizem sempre a verdade não custa caro pra quem sabe mentir. Suas idéias infantis me comovem bem mais do que a filosofia. Contorno suas tetas, barriga, bunda, coxas, panturrilhas. Sua beleza tem o efeito de monomanias em mim. Reparo nos seus dentes e me pergunto se o segredo está em fazê-la sorrir. Enquanto Afrodite sorrir tudo ficará bem, caso contrário, imediatamente borrado, com trevas injetadas nas veias.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sexta-feira (05 de novembro) abro o show da banda carioca Os outros, no Wonka. Esse vídeo meu tem um pouco do barulho que pretendo fazer por lá. E quem quiser conferir o trampo d´Os outros vai aqui http://www.myspace.com/osoutros ou aqui http://www.youtube.com/watch?v=9Pewg8cYmcI.

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Corpo a corpo com o carniceiro 3
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covarde, covarde
covarde, covarde, covarde
covarde, merda
acho que eu queria pouco
bem pouco
sei lá, comer cupcake na Praça Espanha
num sábado de primavera
descer o rio Nhundiaquara de bóia
mas você...
você nem isso
sabe de uma coisa, ou você nasce com uma bela voz
ou desenvolve uma bela voz
mas você é um covarde
fica aí tomando chá de maçã com canela
desde que parou de ficar bêbado feito um gambá
sem se dar conta do pecado original irremediável
merda
por falar nisso, você já compôs uma das tuas
em homenagem ao gambá?
puta que pariu, cadê o meu remédio?
não fica me olhando com essa cara de fashion-vítima
com o coração no olho
não sou o que você...
você por acaso já viu uma auréola em volta da minha cabeça?
você nunca...
você nunca devia ter me dito palavrinhas amenas
simples e diretas sobre os teus sentimentos
eu não sirvo para musa, Dr. Museu da canção
eu não quero que aconteça
não mais
se eu encostar este dedo em você
primeiro, eu coloco o diabo no teu corpo
depois, você cai fulminado
isso, ri, ri mesmo
vai rindo
você não faz a menor ideia de com quantas pessoas
eu já trepei
você nem...
eu comecei muito nova
é que eu sempre achei que os seres humanos deviam ser
especialistas em seres humanos
e você, não acha
que os seres humanos deviam ser especialistas
em seres humanos?
então
eu não sou o que você construiu
não mesmo
lembra que um dia a gente foi assistir uma peça de teatro
e no final você me disse: achei super radical
e eu: radical o quê?
radical é empinar a roda da frente da bicicleta
mas você não é capaz pedalar nem mesmo um pedalinho
no Parque Barigüi
e era só o que eu precisa
um pouco de romantismo, sabe
mas então
eu não sou o que...
radical, né?
você quer radicalismo
ponha uma mulher na vitrine
olhe do outro lado da rua
xingue ela do quiser
ponha uma vaca na vitrine, com cabresto e tudo
ponha a tua putinha na vitrine
hein, que tal isso?
hein?
diz, diz que eu sou a tua putinha
jogue pedra
apedreje a vitrine
sou eu em cacos o vidro estilhaçado
o sol batendo nos cacos e refletindo, ferindo teus olhos
teu coração nos olhos
pise em mim com os pés descalços
me humilhe
me xingue de prostigaliranha
hein, eu sou, a tua prostigaliranhazinha?
olhe no meu olho e diga
no meu coração no olho e diga
eu fui um erro?
claro que fui
o que você queria?
o que foi que falhou no continho de fadas?
essa é uma história de esquartejamento, mordidas
e deglutição, meu chapa
sabe, você devia compor alguma coisa
em minha homenagem
um réquiem
réquiem para um frango à passarinho
um frango à passarinho, é como eu
me sinto, Sr. Sentimentos Sinceros
é, porque eu sou uma galinha
não sou, a tua?
diz que sim
eu preciso do diabo no sangue
eu dormi em camas erradas
e agora tudo que posso oferecer
é essa espécie de trash food em que me transformei
não sou mais o prato principal
agora sou este troço que não orna
tipo galeto com DJ
tá na hora do meu remédio
eu sei que você escondeu no bolso
cadê?
não bastam as suturas para impedir
que os membros doam
me dá, preciso dos comprimidos
dá aqui
me dá essa porra logo, caralho
(ele dá o potinho com os comprimidos para ela
ela engole dois
)
fashion-vítima
essa foi boa
as vacas e as galinhas são totalmente estúpidas
elas não desistem nunca
sabe, há muitos modos de se ferir alguém
e várias maneiras de se fazer um curativo
e no entanto, existem apenas dois tipos de esparadrapo
o que não gruda e o que não solta
você não acha que isso, de algum modo
tem a ver com o amor?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

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Corpo a corpo com o carniceiro 2
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músico é foda
sabe, sou alguém que gosta de contemplar a natureza
tomei gosto pela ecologia acho que por causa das viagens
com meus pais
dos 11 aos 14 morei na África
dos 14 aos 15 no Havaí
dos 15 aos 17 fiquei com eles na Amazônia
morar nesses lugares era o trabalho do meu pai
ele era engenheiro de uma empresa que...
só sei que meu era super patriota
a gente saudava a bandeira brasileira uma vez por semana
estivéssemos no país que fosse
papai era muito patriota, yeah, yeah, yeah
mas não quero falar disso
seria complicado
eu tenho a saudade frágil
além do mais, não é nada edificante para uma criança
viver cercado de selvageria por todos os lados
e, no entanto, enclausurado numa beleza infantil
rico, nobre, esnobe, tomado de sofreguidão
jamais aprendi a surfar, por exemplo
mas não quero falar dessas coisas
de tudo me ficou de bom o amor que tenho pela natureza
e os passeios que não fiz de bicicleta pelo norte de Oahu
as deliciosas saladas com cogumelos shimeji
kani kama, molho pesto de salsinha, manga e abacaxi que
comi contrariado
músico é foda
sabe, eu não posso não cantar
adoro compor canções que falam sobre animais
uma das minhas preferidas é a que fala de cangurus
sua condição marsupial
o feto sendo formado dentro da barriga rasgada
e o canguruzinho ainda sem olhos, sem orelhas, sem patas definidas
a pele fina, frágil, transparente
e vai aos poucos se desenvolvendo
um dia já tem pelos
noutro, já tá dando uns saltos por aí
procurando fêmeas em quem
eu tenho muito prazer em fazer essas canções
mas vivo me perguntando se é possível afagar as pessoas
com melodias e palavras
se de fato as baladas românticas podem, de algum modo
substituir o carinho das mãos encostando no rosto
da pessoa que você ama
porque o amor exige no mínimo a palma das mãos
só depois do início pelo tato chegamos em lugares
mais ousados do percurso
como esfregar os dentinhos da frente, roedores
assim bem de leve no clitoris dela
e passar a língua em círculos em volta do ânus
e deixar ela urinar na nossa boca
enquanto num 69 ela nos faz uma gulosa
intercalando com o Beijo Grego
sabe, quando eu canto, mesmo que não tenha niguém ouvindo
quando eu canto sinto doer a raíz dos cabelos
os olhos inflamam como que acometidos por conjuntivite
doe por baixo das unhas
doem os dentes
não foi à toa que fiquei bêbado dos meus 14 aos 25 anos
que estive destroçado dos 25 até hoje
não sei se sou romântico o bastante
não consigo ser um deles, mas tenho simpatia por caras
com penteados tribais e roupas estravagantes
e pela ideia da ciclomobilidade
e por casais dançando descalços
pisando nos salgadinhos e doces no fim do baile de debutantes
ou talvez eu devesse estudar rabeca no Conservatório
largar tudo e ir morar no Superagüi, vigilante da fauna e da flora
ou então meter uma bala nos miolos
você acha isso romântico o bastante?
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Corpo a corpo com o carniceiro 1

Sabe, nosso ouvido devia vir com um mecanismo que nos tornasse incapazes para ouvir determinadas combinações de palavras. Há frases que desejam nosso pior mal.

Suporta. Suporta até esquecer.

Não deviam chegar pra você e dizer Fulana chupou o pau de sei lá quem. Principalmente se Fulana é a garota que você ama. Um amigo não devia dar em cima dela na tua frente. A garota que você ama não devia chupar o pau de um amigo teu. Ele não devia dar as bolas pra ela como fossem chupetas. Não devia esfregar os dedos no grelo dela. Socar e esporrar no cu dela. E depois fazer questão que você fique sabendo. Com todos os detalhes sórdidos. Não devia ser assim. As palavras deviam recusar a semântica numa hora dessas. Ninguém devia ser inteligente demais pra ouvir um troço desses e interpretar. As mulheres gostam desses filhos da puta. Ficam loucas com essa espécie de corpo a corpo com o carniceiro. Você...

Eu...

Teu corpo é bonito.

Obrigada.

Sabe, tem caras que têm que pagar pra ter uma mulher.

Você também pagou pra me ter.

Mas não pra meter, kkkk.

Pagou com obsessão.

Com a dependência. Mas não tem a ver com entranhas.

Sempre tem a ver com entranhas. E o pior não chegou.

E eu já me envergonho tanto.

Não precisa.

Seria bom não precisar.

Quando começou?

Quando ouvi você dizendo: Ele é o menino mais algodão doce que já conheci.

Nunca tinha tido alguém em quem pudesse caminhar por dentro à vontade, com os pés descalços.

Eu não quero ser o menino algodão doce.

Não dá pra escolher.

Quero ser o carniceiro.

Não dá pra esco...

QUERO SER O CARNICEIRO.

De que modo?

Não sei, mas com certeza não apenas com o que está ao alcance das mãos.

A gente não tem instinto quando bem entende.

Vamos foder, meu pau tá explodindo.

Não enche o saco.

E você, também se sente a pior do mundo com frequência?

sábado, 30 de outubro de 2010

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Arte Simon Schubert.

Para dentro de um livro em branco
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ter sido corajoso para não partir
forte para não voltar
sábio para não me arrepender
ter bebibo mais suco de melancia
usado melhor as mãos os braços
os lábios a bochecha antes
de presenciar morrer o que amei
ter visto toda a filmografia do Kurosawa
e ido mais à praia – não devia ter abandonado o surfe
e estudado mais
dito mais sins às oportunidades de trabalho
e dado um jeito de estar perto de quem precisava estar perto
ter viajado para a Europa
me empenhado mais em levar meus textos ao palco
talvez escrito um livro chamado
Requiém para um frango à passarinho
ou Uma história de esquartejamento e deglutição
e ter aprendido xadrez
praticado budismo
ensaiado a valer minha orquestra de beijos
usado mais vezes sem pudores o banheiro feminino
ter ficado mais tempo em silêncio abraçado
com a garota que foi minha e eu fui dela
e ter cantado para ela orações apenas com os olhos
e ter pensado o impensável
e dito mais palavras amenas simples diretas
sobre meus sentimentos – especialmente aos meus pais
e lido O homem que calculava
e aprendido a ganhar dinheiro
e ter visto Kazuo Ohno ao vivo
cruzado a cidade mais vezes à pé nas madrugadas de primavera
e largado tudo para trabalhar como cuidador de cavalos
numa fazenda texana
ou então, ao menos uma vez, experimentado o diabo no sangue
seguido de exorcismo seguido de entidades
ponteando violões que curam nossa existencia
e ter casado aos 17
com minha namorada cinco anos mais velha, sacerdotisa do fogo
ou estar partindo agora para uma aventura
para dentro de um livro em branco

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Sexta-Feira que vem (05 de novembro) essa banda boa pra caralho do Rio de Janeiro tocará no Wonka. E eu vou abrir pra eles a noite com minhas canções mais berradas e foda-se. Quem quiser conferir um pouco o trampo deles vai aqui: http://www.myspace.com/osoutros. Ou aqui: http://www.youtube.com/watch?v=9Pewg8cYmcI.
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

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arte de Enéas Lour
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(nunca consigo postar com um tamanho maior)

domingo, 24 de outubro de 2010

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LF Leprevost e Thiago Chavez no Wonka Bar, em 20/10/2010
por Olívia D´Agnoluzzo
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Matéria que saiu nesse domingo, 24 de outubro, no caderno Almanaque, do impresso O Estado do Paraná e também online. Agradeço a jornalista Paula Melech, sempre atenta e carinhosa com os artistas da cidade.
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Ao som da música curitibana
por Paula Melech
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Luiz Felipe Leprevost e Thiago Chaves gostam de encontros. Se for naquele esquema de festa cheia de amigos, melhor ainda. Essa característica comum foi o que levou o primeiro, poeta, músico e dramaturgo a topar com o segundo, músico e compositor. No momento em que os interesses se encontravam, apareciam os primeiros sinais do que se tornaria uma parceria.
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Thiago relembra o momento: “Ele me passou uma letra pra musicar e percebemos que a harmonia acontecia”. A canção, Sonâmbulo, conta a história de um cara que está enfrentando mal a relação com o universo underground. A “letra triste”, conta Leprevost, é consequência do modo como o clima do inverno reverberava dentro deles. A temperatura refletiu, pontualmente, nas composições produzidas a quatro mãos e que, agora estão prontas para serem ouvidas.
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Este é um momento que aflige a maioria dos músicos que desenvolvem trabalhos autorais em Curitiba: afinal, onde tocar? O Wonka Bar, na Rua Trajano Reis, é um desses lugares onde o foco está na qualidade musical, privilegiando artistas da cidade. Há cinco anos, o endereço, no bairro São Francisco, reúne músicos, escritores poetas, atores e público em torno de uma mesma vontade.
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Interessada no potencial dos artistas da cidade, a proprietária Ieda Godoy abriu as portas do Wonka com a disposição de tornar o endereço um reduto de produção cultural de qualidade. “Desde que abri o bar [em 2005], penso nessa característica, muitas pessoas começaram apresentando seus trabalhos lá”. Ela cita como exemplos o grupo Molungo, Troy Rossilho, Alexandre França, Leo Fressato e o próprio Leprevost. Copacabana Club e Bonde do Rolê são outras bandas que sempre aparecem.
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Apostar na produção cultural de Curitiba não é uma novidade, mas a apuração de um universo já conhecido por Ieda - dona do antigo Bar Dromedário (fechado em 2002). “O curitibano sempre teve essa coisa de não se valorizar, mas agora está se olhando com mais carinho para o trabalho das pessoas. Isso é lindo. É muito emocionante ver esse respeito pelo artista, essa comunhão com o público”.
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O sucesso das noites é efeito do criterioso processo de curadoria a que a proprietária se dedica. “Sempre que tem algum trabalho próprio eu me interesso em conhecer. Tenho alguns critérios para selecionar e fico felicíssima quando vejo as coisas acontecerem”. Ela cita como exemplos o Copacabana Club e o Bonde do Rolê, bandas que se criaram dentro do Wonka e hoje ganharam o País.
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No palco
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O show iria começar às 23 horas, mas às 19 horas Leprevost e Thiago já ensaiavam o trabalho que foi apresentado na última noite de quarta-feira no projeto Homens de ferro. Um intervalo foi o tempo necessário para o papo se dirigir aos espaços que tornam possível esse trabalho.
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Thiago ressalta que em lugares assim a música é expressão artística e não somente entretenimento. “Queremos mostrar o movimento. Os compositores necessitam desses espaços, onde não precisam de editais para tocar a sua música”. Leprevost completa: “Tem uma grande rede de pessoas conectadas na produção artística. A demanda existe. Queremos dialogar com a platéia com o interesse mútuo de expansão dos sentidos por meio da arte”.
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Essa rede que interliga os artistas da cidade certamente contribui com a disseminação da música partindo do desejo de expressão autêntica. Em sintonia de pensamento e vontades, os parceiros Uyara Torrente (A Banda Mais Bonita da Cidade) e Raphael Moraes (Nuvens) foram convidados a incrementar o show no porão do Wonka.
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O repertório, inspirado pelo inverno, desenhou um clima favorável às letras mais melancólicas, incluindo as três inéditas Pó pó pó; Mimimi e Assobiando apelo. A primeira, com letra e música de Leprevost, é um pequeno poema declamado com o violão no colo. Mimimi, uma parceria com Rodrigo Lemos e Ligia Oliveira, emergiu em um desses encontros, sublinha Leprevost, onde em “90% dos casos surgem canções”. Já Assobiando apelo é uma letra escrita há tempos que ganhou agora o acompanhamento da guitarra de Thiago. “É a história de um cara que está triste e as pessoas passam a não notá-lo mais. Ele foi se apagando e assobia essa melodia”, explica o autor.

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O estilo cru tem muitas variações 4
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Sempre precisei passar longos tempos sozinho, protegendo-me um pouco do mundo. A biblioteca da escola era um ótimo lugar para isso. Hoje, porém, gosto de presenciar a balburdia da cidade. A urbe é fundamental para composição e a voz interna de meus textos. Cafés, bares, ruas, lugares são salas de estudo. Gosto de escrever a mão, então não tenho problema em trabalhar fora de casa. Procuro me manter num estado de latência criativa. E é claro que em algum momento preciso me trancar para burilar as anotações, alçá-las a um nível mais complexo da experiência artística. As ruas podem fazer com que você perca o foco, a concentração. O desequilíbrio, as oscilações de humor, os acontecimentos inesperados só serão produtivos se você tiver um cantinho calmo e silencioso para retornar quando se vir farto, esgotado.
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Os cafés são bons lugares para escritores. Às vezes roubo frases da mesa ao lado. Trabalho valorizando uma dor de cabeça cujo motivo não sei qual é e que me ajuda a pensar de um modo torto. Idéias pululam de vez em quando, noutras ocasiões elas somem por longos períodos. Mas sou apegado mesmo à ação. Sento e escrevo, pratico. Assim desenvolvo as idéias. Agir me faz pensar.
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Duvido de quem diz “não escrevo porque não tenho o que dizer, quando tiver, escreverei”. Acontece que se você não escreve, não vai ficar sabendo se tem mesmo algo a dizer ou não. Permanecer no universo da idealização é estar pré-morto. É preciso enfrentar-se. Responder ao medo, com ênfase, como ensina Carlos Drummond ao dizer, se bem me recordo, que tristes são as coisas feitas sem ênfase.
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Daí vai que o corpo é o começo do meu texto. Meu trabalho é absolutamente artesanal. Os livros só chegam bem depois. Não escolho o livro antes de iniciar anotações num caderninho Tilibra. Nunca sei o que será. Não posso dizer que não planejo, pois apesar de tudo, a literatura é uma atividade intelectual. Então há esse diálogo entre o instinto e racionalidade. Há muita racionalidade, é inegável, porque a própria capacidade técnica de se escrever vem de uma espécie de adestramento (a palavra não é exata), tem entre seus fundamentos a alfabetização. Tal instrução liberta, é altamente desejável. As técnicas devem ser dominadas para que as esqueçamos depois, permitindo que o inconsciente aflore. Viver nesse lugar de tensão entre esses dois pólos (instinto e técnica) possibilita que o desconhecido que habita em nós venha ser parte do produzimos.
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Há vezes em que traço objetivamente a composição de uma série de textos. Definido o que desejo como eu fosse um projetista. Mas logo que inicio o trabalho, imediatamente me cobro a liberdade. Então endereço os textos, faço isso, crio para alguém, para o mundo, por amor, por vingança, por política, por ternura, por revolta, por desespero, por orgulho, não importa. Vale que assim eu me implico. Não tenho medo de me machucar quando estou criando.
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Depois desse ímpeto inicial, sou capaz de trabalhar o mesmo parágrafo durante a semana inteira. Promovendo inúmeras variações de sua estrutura, invertendo o sentido, retirando de uma frase todas as palavras que a natureza não exige, como li recentemente num belo livro de Gonçalo M. Tavares. Tudo isso me esgota. Porem me importa ter forças para podar arestas – a poda fortalece os galhos. Para mim é muitíssimo trabalhoso deixar de ser prolixo.
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É importante salientar que tudo isso está num plano ideal que vivo perseguindo. Mas o escritor é tão falível quanto qualquer outro ser humano. E é nesse ponto que quanto mais me enfrento, mais a criação se impõe – eu me nego, me inverto, minto. Só assim posso ser tão sincero quanto preciso. Só assim quem ler o que escrevi com tal verdade poderá duvidar de que aquilo não é ficção. Eu desejo que os leitores esqueçam que estão lendo algo ficcional. O que lêem é a vida mesma. É assim que sinto quando me deparo com a obra de um grande autor. Não estou querendo me comparar, mas acredito que os artistas não podem querer pouco. Não querer pouco é muito o nosso ofício. É por causa dessa tensão entre a verdade do escritor e sua criação formal que a literatura se dá em estado de revelação. A epifania agora é do leitor. É ele quem, em última instância, possibilita a existência das personagens, seus deslocamentos, as trajetórias da linguagem.

sábado, 23 de outubro de 2010

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O estilo cru tem muitas variaçãoes 3
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A literatura, embora não tenha me trazido dinheiro ao bolso, deu-me algo que posso chamar de angustiada felicidade, e calos na mão. Na angustia só há perguntas sem respostas. Na felicidade, por estarmos plenos, perguntas não há. Quando um sofrimento de difícil explicação surge e com ele perturbações sem limites, posso optar em escrever ou não, mas sei que escrever é o principal modo de se especular a existência humana. Ou posso esperar apenas. Pacientemente esperar. A espera, a reflexão, o estado ponderado produz sabedoria. No entanto, se só espera e não põe mãos à obra, o sábio não escreve nada. Assim, o que adianta ser sábio? Fique claro que estou me referindo à literatura, já que é possível haver sábios por aí que, inclusive, pode que sejam analfabetos. Agora, escrever, que é uma das mais íntimas pesquisas humanas... Escrever, que é como entrar num laboratório afetivo e recombinar uma série de poções explosivas... Bem, escrever nada responde, e assim pode ou não produzir sábios. Muita vez produz apenas escritores, e quem sabe isso baste. E nisso vai o paradoxo. Será possível um escritor sem sabedoria? O que posso afirmar? Comigo funciona assim, por mais que escave, vasculhe o que não compreendo, ao escrever machuco bem mais o punho.
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Se em meus textos abro algo da minha intimidade é porque (é óbvio assim) não estou salvo. Então faço uma pausa ao escrever isto e coloco as mãos no rosto. Lambo a pele grossa da palma com a língua e (de certo modo) é uma ferida o que lambo. Imolo a pele que descreve aquilo que já não sou mais. Escrevo porque embora estejamos acostumados a chorar pelos olhos, as mãos também choram.
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Estou sentado aqui por horas a fio. Continuo escrevendo já que o fogo não acabou de comer minhas mãos. Sim, escrevo à mão... com as duas. E mais com as mãos do que com o coração. E mais com ele do que com o cérebro. O fogo é assim, não escolhe, come o máximo que consegue, mesmo o que não necessita. O fogo não distingue se isso ou aquilo vale ou não ser comido. Nada pesa em seu estômago azul. A escuridão mastigada é sua melhor amiga, é ela quem o ajuda a modelar as chamas nervosas. A uma película que escureceu dizemos se tratar de um filme queimado. Películas que enquanto registram imagens as vão devorando, eis o que estou produzindo aqui.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

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O estilo cru tem muitas variações 2
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Não decidi. Quando vi era isto, alguém debruçado sobre um punhado de papéis. Neguei por algum tempo. A escrita não é um mar de rosas. A exigência me machuca muito. Mas é um regozijo ver um conto, um poema prontos.
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Sempre achei clichê dizer que se escreve por que não se tem opção. Acho que poderia ser qualquer coisa, mas seria um completo incompetente. Na literatura não me considero incompetente, então talvez esteja no lugar certo. A arte não é um lugar seguro, é verdade, certezas não cabem nela. No mais, você se sente o pior do mundo com frequência, mas pelo menos desconfia que esteja fazendo exatamente aquilo que veio fazer na vida. Mesmo se eu não acreditasse no que escrevo, teria que continuar escrevendo. Então eu sigo, sem perguntar demais.
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Sabe, teve o dia em que compus uma redação que contava minha estória de amor com uma pequena do colégio. Resultou no primeiro 10 que tirei na vida (e foram poucos). Assim, tanto a redação quanto o amor me pareceram algo que continham algum valor. Passei a escrever poemas. Entendi que o invisível que está entre as pessoas, pode que falam mais sobre elas do que as impressões e julgamentos que fazemos. O impossível, o imponderável é que são matéria da literatura, por isso ela não se esgota. É como diz Henry Miller (cito de cabeça): é preciso injetar sangue nos fantasmas.
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Veja, a literatura cobra de você uma coisa que pode ser assustadora: a solidão. Sem solidão não há produção literária. Ninguém se transforma num García Márquez da noite para o dia. Parece-me que a maior dificuldade que um escritor pode enfrentar é a de dar consequência, continuidade à obra.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

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O estilo cru tem muitas variações 1
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A primeira imagem relacionada a literatura de que me recordo, e com ela como que tive um alumbramento, foi quando devia ter cinco, seis anos de idade. Meu pai pagava a conta dos doces que comemos na Confeitaria das Famílias. Enquanto esperava, sem pestanejar eu olhava para um homem gordo que na mesa em frente olhava, do mesmo modo que eu, para um objeto de papel. Era um livro. O homem gordo, um leitor, explicou-me meu pai quando saímos da Confeitaria.
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Veio a descoberta da biblioteca herdada de meu avô, repleta de clássicos como, por exemplo, Os Miseráveis, de Victor Hugo; Sermões, de Padre Antonio Vieira; Os lusíadas, de Camões; O Paraíso Perdido, de Milton; Fábulas, de La Fontaine; obras que ainda hoje, respeitada a idade certa para cada aventura, aos poucos e sem pressa vou lendo.
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Lembro de esperar ansiosamente a chegada das Feiras do livro, na escola. Eventos que à época, por intuição, de algum modo me diziam respeito.
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Nunca fui bom no colégio. Minhas notas eram péssimas. Reprovei duas vezes de ano. Era um rebelde. No recreio brigava até sangrar com colegas. Brigava na rua. Esforcei-me nos esportes. Em alguns até conquistei destaque. Mas teve esse dia em que escrevi uma redação que contava minha estória de amor com a menina mais bonita da minha série. Daí em diante só ficou mais difícil.
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Lembro ainda de um professor da oitava série que me marcou. Chamava-se Sérgio Vicentin, professor de história e geografia. Ele costumava repetir para nós a frase de um poeta, segundo entendi na época. A frase era assim (cito de cabeça): Não concordo com nada do que você diz, mas defendo seu direito de dizer. Era de um homem chamado Karl Marx. Teve uma vez que esse professor me deu uma lição sobre justiça que não esquecerei. Tinha me dado uma nota baixa. Comparei minha prova com a de uma colega, a resposta dela era idêntica a minha, mas eu tinha tirado zero na questão. Pois bem, fui reclamar a nota, clamei por justiça, ele disse “você quer justiça?, certo”, pegou a prova da menina e deu zero para ela na questão. Poxa vida, eu não sabia onde me enfiar, acabava de prejudicar alguém que tinha me ajudado. Acontece que a ajuda que pedi a ela havia sido um tanto ilícita. Vicentin sabia que eu tinha colado a questão dela no dia da prova, por isso me dera o agudo zero.
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Também no colégio. O primeiro livro de poemas que tomei contato foi uma antologia de poesia portuguesa chamada de Camões à Pessoa. A gente era obrigado a ler o livro na sétima série. Meus amigos achavam muito chato. Eu gostava, mas mentia que não. É que você fica com fama de nerds se na sétima série contar que gosta de Almeida Garret. E nerds é uma coisa que nunca fui. Eu tenho um primo que foi nerd. Sempre que estudava história, geografia ou matemática com ele, eu ia bem nas provas. Eu gotava dos nerds, queria ser como eles. Eu gostava muito de ir bem nas provas, mas vivia com a corda no pescoço.
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Meu começo na literatura foi diferente do de boa parte dos escritores brasileiros. Não comecei lendo Monteiro Lobato. Tampouco iniciei com o consumo frenético de gibis. Não lembro bem quais foram as primeiras leituras. Tenho um ou dois enredos da época na cabeça. Uma estória que se passava no interior, o menino pobre, meio feio e sentimental. Ele queria ser cantor, acho que tocava violão. E gostava de uma garota que não dava a mínima para ele. Não lembro do final. Tem outro ainda que me ocorre agora: Uma família classe média. O filho é brilhante na escola. Aos poucos se envolve com drogas e destrói sua vida. Não sei bem o que acontece, se ele se recupera ou não. Esses eram livros que a gente tinha que ler na escola. Acho que traziam mensagens, eram um tanto didáticos. Nessa época, resolvi experimentar benzina. Toda nossa turminha tinha começado a fumar cigarro de cravo, cheirar benzina e se agarrar para além de beijos.
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Já no segundo grau, aí sim, li Dom Casmurro, do Machado. E Memórias do Subsolo, do Dostoievski. Uma primeira consciência a respeito do ofício de escritor se deu. Mais ou menos nesse período comecei a ler o Vinicius de Moraes. E eu queria ser o Vinicius. E ele foi deveras generoso comigo, apresentando-me sua numerosa turma, entre os quais: João Cabral, Murilo Mendes, Drumonnd. Caí pesado na geração de 45, só então retornei na direção dos modernistas.
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Há ainda o Hamlet, de Shakespeare, que é minha fonte inesgotável. Samuel Beckett, mestre a narrar o esfacelamento da civilização do ponto de vista do indivíduo deformado física e moralmente. Julio Cortazar, cuja obra me sopra a todo momento “ser livre é isso, amiguinho, ser livre é urgente.” Há tantos autores que mudaram minha vida, minha visão de mundo e os rumos da literatura em mim. Entre eles: José Agripinno, com Panamérica; Raduan Nassar, com Lavoura Arcaica; João Gilberto Noll, com a Fúria do Corpo; Hilda Hilst, Clarice Lispector. Anton Tchecov e Nelson Rodrigues com seus teatros. Isso não tem fim. Ficaria citando a noite toda, mas é bobagem listar nomes. Se o faço é pela natureza deste texto, que pretende ser um pequeno (sabendo-se incompleto) depoimento. Alguns nomes mais urgentemente estão me ocorrendo. Claro, aqui pertinho de casa, jamais poderei esquecer o Manoel Carlos Karam. Antes de tomar conhecimento de seu trabalho, jamais havia admitido o funcionamento do humor na literatura, eu não sabia o que era isso. O Karam é o responsável por eu ter descortinado também essa faceta da arte, a alegria, a ironia, que considero uma forma de inteligência superior. Quando consigo escrever com alguma astúcia, devo ao fato de ter lido todos os livros do Manoel Carlos Karam, um a um, sem jamais perder o espanto. Foi um gênio, e ao nosso alcance.
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Daí segui me metendo com o Salinger e o Jhon Fante. Desses eu li a obra toda, até hoje releio. Então Jack London, Ernest Hemingway, William Faulkner. O lado sujo: Charles Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan. São caras cujas obras me provocam e alimentam bastante, cada um a sua maneira. O estilo cru tem muitas variações. E é claro que há muitos outros escritores a quem devo a vida.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

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Vozes do remédio
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flagro-te bruto tosco
digo, chulo, baixo feito um
diabo se afogando em latrina
de banheiro público
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pode que te ofenda
percebendo-me o açougueiro
(a medicina segue medieval
em alguns procedimentos)
de tua carne sem selo de garantia
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devo agir rápido
um, dois talhos e vejo
o que tens, chechelento
desengana-te como ácida escória
a doença que entranhas-te
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mas te acalma, esta poesia
que agora escutas com os olhos
são as vozes do remédio
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“Eu faço versos como quem chora”
Manuel Bandeira
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“eu faço versos como quem talha.”
Waly Salomão

hoje
eu faço versos como quem coloca
meias de lã nos pés do inverno
eu faço versos como quem inflama líquidos
dentro da mulher amada
eu faço versos como quem dá uma chupada na
ferida do limão
eu faço versos como quem sopra a
brasa sobre a qual pisar
eu faço versos como quem cala numa
página desprezada por pássaros
eu faço versos como quem descansa a
língua da maledicência
eu faço versos como quem tem olhos
acuados de contemplação
eu faço versos como quem entoa cantigas de
ninar bois na execução
eu faço versos como quem se lança às piranhas
eu faço versos como quem engole a própria mão
e quer mais

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

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trata-se da plena luz
do meio-dia
que teus passos ilumina
e cega
ferindo os olhos como fosse
o shampoo que Deus derrama
sobre a Terra
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assim segues
pelo caminho, cascos de cavalo
a pisar o piano das
pedras escorregadias

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

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Para Tavinho Paes
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caso me indagassem
com o intuito de saber
o que mais quero agora
(que já estou fatigado
e trêmulo
que nada além de vultos
enxergo – fantasmas?
de quem? de que épocas
humanas? – que nada
lembro e sou
sozinho quanto
um morto que, por insistir na
vida, esqueceu-se
de ir esperar o próprio
velório na capela)
reponderia: a visão diáfana
de um único poema
nem que fosse meu
último poema, vermes
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Ode à terra
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Eu não canto a terra
pródiga,
a pletórica
mãe das raízes,
a esbanjadora,
compacta de frutos e de pássaros,
lodos e nascentes,
pátria dos caimões,
sultana de grandes seios
e eriçado diadema,
nem a origem
do tigre na folhagem
nem a grávida terra de lavoura.
Com a sua semente como
um minúsculo ninho
que amanhã cantará,
não, eu louvo
a terra mineral, a pedra andina,
a severa cicatriz
do deserto lunar, as vastas
areias de salitre,
eu canto
o ferro,
a eriçada cabeça
do cobre e os seus frutos
quando emerge
envolto em poeira e pólvora
recém-desenterrado
da geografia.
Ó terra, mãe cruel,
ali escondeste
os metais nas profundidades,
de lá os retiramos
e com fogo
o homem,
Pedro,
Rodriguez ou Ramirez
os converteu novamente
em luz original, em lava líquida,
e então
implacável contigo, terra,
colérico metal,
saíste das pequenas mãos de meu tio,
arame ou ferradura,
navio ou locomotiva,
esqueleto de estudo,
velocidade de bala.
Árida terra, mão
sem linhas na palma,
é para ti que eu canto,
aqui não gorjeaste
nem te alimentou a rosa
da corrente que canta
seca, dura e cerrada,
punho inimigo, estrela
negra,
eu te canto
porque o homem
far-te-á parir, encher-te-á de frutos,
procurará os teus ovários,
na tua secreta taça
os especiosos raios derramei,
terra dos desertos,
puro horizonte,
porque pareces morta
e te acorda
o estrondo da dinamite,
e uma coluna de sangrento fumo
anuncia o parto
e saltam para o céu os estilhaços,
eis para ti as escrituras do meu canto.
Terra, gosto de ti
na argila e na areia,
ergo-te e moldo-te,
como tu me moldas-te,
e deslizas dos meus dedos
como eu desatado
volto para a tua ampla matriz.
Subitamente, terra,
parece-me aflorar
todos os teus contornos
de porosa medalha,
de jarra diminuta,
e em tua forma passeio
as minhas mãos
achando as ancas daquela que amo,
os pequeninos seios,
o vento como um grão
de suave e morna aveia
e a ti me abraço, terra,
durmo junto a ti,
na tua cintura prendem-se-me os braços e os lábios
durmo contigo e semeio os meus mais profundos beijos.
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Pablo Neruda
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*Estou muitíssimo comovido com
o resgate dos mineiros chilenos após 69 dias
presos nas profundezas da terra,
no deserto do Atacama.
A cápsula Fênix,
com apenas 54 cm de diâmetro,
está sendo a responsável pela coragem e
heroísmo do Chile.
E pela esperança da humanidade.
Creio esta ode de Neruda
(um guerreiro sem pausa) ser oportuna.

domingo, 10 de outubro de 2010

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Lenço branco no alto do navio
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a mão serve
para se ler
na palma
o curso de águas
que levam longe
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a mão é
o melhor ouvido
para se escutar
declarações
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a mão que segura
outra, dois pássaros
com raízes
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você precisou
colocar ataduras
(lenço branco
no alto do navio)
para suportar
a queimadura
do aceno
de adeus

sábado, 9 de outubro de 2010

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Cláudio Bettega
12/06/1971 - 06/09/2010
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Só fiquei sabendo agora que meu amigo, o poeta e ator Cláudio Bettega, faleceu no último dia 06 de um ataque do coração. Ataque do próprio coração, o corpo não poderia ser mais traiçoeiro. Nos últimos tempos eu via pouco o Claudião. Mas acompanhei de perto tanto seu começo no teatro quanto na poesia. Ao longo dos anos bebemos algumas cervejas juntos, demos risadas. Trocamos figurinhas. O Bettega era um cara grande e eu me identificava com ele. A gente conversava abertamente sobre assuntos bastante incômodos pra nós. Por isso eu me achava capaz de dividir seu sofrimento quando estávamos juntos. Agora noto o quanto eu era ingênuo. A pior dor do mundo é a de quem a sofre, porque é só essa a que somos realmente capazes de sentir. Mas, apesar de tudo, Cláudio era um doce de pessoa, um anjo leve. Nunca vi um ato seu deselegante, amargo ou maldoso. Tínhamos o desejo mútuo de levar à cena o meu monólogo Pífio, com interpretação dele e minha direção. Jamais imaginei que não haveria tempo, por mais que ele tenha me cobrado ao menos nas duas últimas vezes em que nos encontramos. Não sabíamos, mas nos despedimos na festa de lançamento do selo 1801, do Francinha, no Wonka, dia 19/09. No começo da noite a gente conversou um pouco, eu li pra ele uns dois poemas do livro do Edson Falcão que estavam no repertório do recital. Ele, como sempre, com o apaixonado interesse pela obra dos poetas daqui. Sabe, Claudião, jamais vou esquecer de você caído bêbado, esticado na caçamba da minha caminhonete naquela já longínqua madrugada de julho em que te dei carona pra casa. Fica em paz, amigo. A carona que pegou agora vai te levar pra um lugar onde você poderá, como diz um dos teus versos, amar e sentir o vento ainda melhor.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

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Criança na janela do avião
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ó mãe dá pra ver o mundo
é aqui que o Papai do Céu fica?
a gente vai descer pelo escorregador?
mas se cair na nuvem solta raio na gente?
no céu não tem contramão?
é aqui onde o Lucas está?
quero dar um abraço bem apertado nele
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pela manhã do chão recolhia
apodrecidas mimosas
como fossem fígado estômago
coração vísceras
de um corpo desprezado
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durante a noite
em casa cortinas cerradas
livrava-se do figurino de cidadão
nó de vômito na garganta
despia-se da carne
devolvia o esqueleto sequestrado

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

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“...me falta a simplicidade divina
De ser todo só meu exterior
Alberto Caeiro
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o metabolismo tem
muitos outros nomes
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espírito é só um deles
e pode que caiba em fórmulas (?)
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o corpo humano o chamamos
de diversos eus
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pedregulho, por exemplo
se o lançamos contra uma vidraça
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anatomia se o emprestamos
à lâmina, e por aí afora
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no mais, o subconsciente
também tem dentes

terça-feira, 5 de outubro de 2010

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Negativo de uma fotografia
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tenho nas mãos
não alguém sorrindo
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nítidos músculos
um rosto e o resto
dissecados
qual aparecem ilustrados
em apostilas
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lúbrica abstração
de fera colérica
pelos arrepiados
profusão de presas
garras fome
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e é só alguém
sorrindo
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toda presa garra
fome busca carne
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tenho nas mãos
o negativo
de uma fotografia
o organismo
de um ausente

sábado, 2 de outubro de 2010

lobotomia

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A Banda Mais Bonita da Cidade cantando Lobomia, canção que fiz há anos em parceria com Troy Rossilho. Gosto muito dos arranjos e da emoção que eles colocam nas várias músicas de minha lavra que estão em seu repertório. tROY rOSSILHO E lUIZ fELIPE le
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Lobotomia
(Troy Rossilho e LF Leprevost)
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quando eu jacu você erudição
você pé no chão eu aerovia
quando eu minoria você população
quando você hindu eu vacaria
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quando eu caligrafia você computação
e se você amputação quem me abraçaria?
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quando o meu tum-tum baticum o teu atrofia
e se o teu taquicardia ai do meu coração

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quando eu presídio do ahú você alforria
quando você séria serei piração
quando eu contusão você anestesia
você Capitu e eu maridão
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quando eu dragão você antipaleontologia
e se não contraria quem então senão
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quando o meu tum-tum baticum o teu atrofia
e se o teu taquicardia ai do meu coração
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quando você no iglu eu insolação
quando eu maresia você jamais fumaria
quando você ave maria eu danação
quando eu vodu você na sacristia
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você renascia e eu abstração
e se eu lobão você me lobotomia me lobotomia me lobotomia

terça-feira, 28 de setembro de 2010

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Neve de 75

tantos anos já
a Neve de 75
em Curitiba caiu

após essa
nunca mais

e se vive à espera
de renovado
branco gélido
despencar dos céus

e a Neve de 75
é só o que se tem

mas os demais dias
que seguiram
desse, digamos
alpino (ou norte-americano
natalino, ou de inverno londrino)?

por que não foram
consideradas
as noites outonais
as chuvas de verão
por exemplo, a brisa
balançando
o amarelo dos ipês?

(não houve
o que na História
já não há)

serão causas
a vocação
para melancolia, sim
o gosto pelo
masoquismo do
recolhimento?

ah a Neve de 75

entretanto, que bela
manhã de primavera
hoje
está fazendo

terça-feira, 14 de setembro de 2010

cartas aos amigos

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.....Ei, Sarah Kane, sei que tua relação com o mundo não é leve, nem doce. Pelo contrário, tuas peças são alguns dos buracos mais amargos onde já me meti. Eu sei, ninguém precisa entrar lá se não quiser. Você jamais obrigaria que o fizessem. Mas comigo é diferente, eu preciso. E suspeito que isso não vai ter fim. Claro que todo mundo sofre um pouco (ou muito). Vem da doença de ser humano. Ou da maravilha (vai saber). Estou aqui escrevendo e hoje minha mão não dói tanto, acho que porque está um pouco mais calor. Mesmo assim ainda continuo intoxicado de frio, pensando a cada frase que escrever é um modo de não se saber absolutamente nada sobre a existência humana. Viver estupidamente, escrever bestialmente, deixar-se amaldiçoar, depois virar matéria de análise? Não pode ser tão simples. O que me diz? Ah, esquece. Eu não queria ser esse cara que resmunga e só depois morde. Enquanto tenho caninos devia arrancar pedaços logo de cara, você não acha? Lembra aquela noite em Londres, a gente saindo de uma peça pessimista pra caralho do Bernard Shaw? Eu exultava com a tese desenvolvida por ele, até que você disse: A gente pode achar que o mundo é mal, mas pense nas pessoas que você conhece, a maioria delas são pessoas más, ou boas? E essa tua frase me aniquilou de bondade. E foi bem esquisito ter ouvido algo tão meigo vindo da autora de Blasted, entende? E nem acho que isso tenha sido um conselho, pois logo a madrugada começou a soprar Desolation Row na copa das árvores afugentando morcegos. Então fico aqui me convencendo que foi só uma observação casual de uma menina muito esperta. E isso deveria bastar, mas o problema é que algo está sempre se desfazendo, evaporando. Então a gente entrou naquele pub e você ficou ensimesmada, tendo sei lá que iluminações enquanto dava bicadinhas na cerveja. Você tinha voltado pra esse lugar só teu, impenetrável, que meninas apenas espertas jamais suportariam. E você devia gostar, claro, de algum modo você gostava, porque vivia lá dentro aguentando mais do que qualquer pessoa (a menos que eu pensasse em Artaud, Van Gogh, Nijinsky, Lautréamont, et caterva), indo sempre até o osso do delírio, da abstração, ao ponto de vê-la se transmutar, voltando a ser palpável, mas de uma carne que é labareda.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

uma epígrafe

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"o que interessa, na vida e na literatura, é o coração deflorado do homem." Dalton Trevisan - Desgracida

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

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.....Platina
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.....
- Por que Platina?
.....- Por que Platina o quê?
.....- Teu nome.
.....- Não é meu nome. É meu apelido.
.....- Por que esse apelido?
.....- Faz tempo, cê não vai querer saber.
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.....
Silêncio.
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.....- Sabe esses trogloditas que durante o dia são engenheiros civis, juízes, diretores de empresa e de noite se transformam com suas Harleys?
.....- Tô ligado.
.....- Uma vez, uma guria...
.....- Sei.
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.....
Silêncio.
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.....
- Eu tava mijando. Ela veio atrás de mim. Disse que tinha me manjado. Eu só falei “bacana.” Achei que ela só queria dar uns tecos ali no banheiro masculino.
.....- ...
.....- Quando acabei ela pegou no meu pau. Molhou a mão com algumas gotas. Daí foi fazendo o serviço. Não pude me desvencilhar. Cê sabe como são essas coisas.
.....- Porra se sei.
.....- Um sujeito entrou no banheiro. Chamou ela por um nome esquisito. Eu disse “acho que o cara tá te chamando.” Mas ela continuou chupando. O cara veio até o urinol do lado, abriu a braguilha e mijou sossegado olhando pra nós. Aí lavou as mãos, enxugou. Eu acabei broxando. Ela parou de chupar e saiu também, sem dizer nada.
.....- Sem lavar a boca?
.....- Eu lavei o rosto. Ajeitei a gola da jaqueta. Voltei pro balcão. Olhei todos os cantos do Dentadas e nada da garota. Fiquei ali bebendo. Fui embora umas duas horas depois.
.....- ...
.....- Tava indo a pé pra casa. Quando dobrei a esquina, três brutamontes e a guria montados nos diabos de duas rodas. Vieram pra cima com correntes, taco de beisebol e o caralho. Tentaram me atropelar. Cheguei a derrubar um deles da mato. Quando acordei tava no hospital, a cara toda embrulhada igual múmia, cotovelos, joelhos, as costas entortada que nem um pedaço de ferro. Os médicos tiveram que substituir os ossos triturados. Não tenho osso na cara, só platina.
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.....Marginalzinha
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Vilma cochicha no meu ouvido: Aquela ali é a Marginalzinha.
.....Sei.
.....Ela já foi gostosíssima, agora é essa caveira.
.....Isso tá me cheirando a inveja, Vilma.
.....Imagina, inveja... ontem mesmo encontrei com ela aqui no Dentadas, umbiguinho amostra, o piercing pedindo mordida... é uma galinha essa guria.
.....Nunca contei pra Vilma, mas foram incontáveis as vezes em que escrevi o alfabeto inteiro com a língua no corpo superlativo da Marina.
.....Zé, Vilma me chama, tá ouvindo?
.....Tô.
.....Então, ontem eu cruzei com ela...
.....Interrompo: Com ela quem?
.....Porra, Zé, com a Marginalzinha.
.....Ah, tá... e aí?
.....Aí eu disse: Olá, como vai, é um prazer revê-la. Eu fui educadíssima.
.....Vilma espera que eu me pronuncie, mas nada faço. Então ela prossegue.
.....Sabe o que a Marginalzinha fez?
.....Por que cê chama ela de Marginalzinha?
.....Ué, todo mundo chama ela assim.
.....Sério?
.....Aham.
.....O nome dela é Marina.
.....Como é que você sabe?
.....É uma longa história.
.....Você já conhecia ela?
.....Sim.
.....De onde?
.....Daqui mesmo.
.....Nunca me falou.
.....Não tive oportunidade.
.....Essa guria é uma babaca, Zé... Sabe o que ela fez ontem?
.....Fico sem escolha: O quê, Vilma?
.....Eu a cumprimentei e ela não retribuiu meu sorriso, Zé, não retribuiu.
.....E depois de falar um monte de merda, você ainda queria que ela abrisse um sorriso? Aposto que enquanto você dizia “olá como vai etc”, na verdade, o subtexto era “oi Marginalzinha, quantas vezes nessa semana você tomou um porre com os escrotos dos teus amigos do peito, cheirou teus pozinhos mágicos e vomitou no banheiro?”
.....Vilma sequer ouve minha ironia, continua obcecada: Sabia que ela tem bulimia? Pode ver, já tá até sem rosto. Duvido que seja capaz de chorar, tá seca, coitada.
.....Então fito bem a Marina no canto esquerdo do salão e sou obrigado a admitir, Vilma está certa. Marginalzinha não está somente sem rosto, já perdeu a cabeça.

notas para um livro bonito

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.....Tememos não nos acostumar com ele. Mas desde o primeiro dia sua presença iluminou a casa. Foi minha mãe, acompanhada do meu sobrinho Henrico, quem o trouxe. Disse que bateu o olho e se apaixonou. Meu outro sobrinho, Guigui, o batizou: Bidu. Não sei como pôde acontecer. Uma fatalidade inacreditável. Nosso cãozinho morreu hoje. Atropelado. Fazia apenas uma semana que estava conosco. Tinha tomado banho à tarde. Depois ficou um tempo deitado comigo no sofá. Brincamos um pouco. Ele fez coco no lugar errado. Tudo isso era um novo modo de convivência para mim, que nunca antes tive um cão. Eu podia sentir sua felicidade, por isso me sentia feliz também. Sua alminha canina vibrava com a nova vida. Tinha apenas três meses de idade. Tivemos que enrolar seu corpinho branco com um pano. E o colocar num saco plástico preto. E lavar a calçada. Fui eu quem cavou o buraco no jardim para enterrá-lo. Estamos muitíssimos tristes. Minha mãe, desolada.

sábado, 7 de agosto de 2010

hei jaques brand

Hei Jaques Brand, sexta faixa do DVD Troy ao vivo, com Troy Rossilho e banda. Letra de Alexandre França e música de Troy Rossilho. O show foi gravado no dia 20 de novembro de 2007, no teatro Guairinha, em Curitiba.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

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.....Sorvete de queijo com cobertura de goiabada
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.....Noite. É primavera no Jardim Ambiental. Movimento intenso no posto, em sua loja de conveniência. Adolescentes em frente ao Bola Rola. Do lado de dentro, todas as mesas de sinuca ocupadas. Garçons servem mesas no jardim da Cantina. Do outro lado da rua, o Banofee é uma animação só. Na pista de skat a piazada manobra, voa, cai. Meninas assistem, aplaudem.
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.....Começo da tarde do dia seguinte. O Fiat Uno passa pelo Passaúna. Chega à Colônia Rebouças. Para. Um homem, aproximadamente 33 anos, gordo, rosto liso como um bumbum de bebê, sai do carro. Entra num armazém. Uma velha italiana o atende. Ele pede uma Wimi.
.....Tô meio perdido... a senhora sabe me dizer se indo por aqui eu chego em Colina azul?
.....Só seguir reto, diz a velha... Pra ir pra lá é melhor ir pela Rodovia do Café, mas agora que o senhor já tá aqui.
.....Ele acaba de beber o refrigerante. Paga com uma nota de cinco. Recebe o troco em moedas. Guarda no bolso. Entra no Uno. Põe o cinto de segurança. Óculos escuros. O carro segue.
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.....Colina azul é um complexo de haras e chácaras de pessoas ricas. Chega à entada da propriedade. Avança pelas estradinha de paralelepípedo. Surge imponente a mansão. Estaciona. É recebido por um homem, o secretário. Entram. A sala principal é ampla. Pé direito alto. Vigas grossas. Há muitos quadros na parede. O secretário o encaminha. Sobem alguns lances de escada, andam por um corredor e chegam à biblioteca.
.....O patrão, um homem de aproximadamente 54 anos, está de costas. Olhando pela janela.
Gosta de piscina?, pergunta sem se virar para o gordo e o secretário quando esses entram na biblioteca.
.....Gosto, responde o gordo se aproximando. Ele vê lá embaixo. Uma jovem bonita toma sol. Um rapaz, de dentro da água conversa com a garota. Então sai da água e vai beija-la.
.....A nossa é uma bela piscina... são minha filha e o namorado.
.....Então eles conversam. O deputado dá instruções. O gordo as ouve. Eles apertam as as mãos. O gordo sai. Na porta da residência o secretário lhe estende uma pasta. E o encaminha para o carro. Antes de partir, o secretário pergunta se ele não vai abrir a pasta e conferir o conteúdo. O gordo abre. Examina.
.....Tá tudo certo, diz.
.....Fecha. E coloca a pasta no banco do passageiro. Entra no carro. Daí coloca a pasta no porta-luvas. Dá a partida. Coloca os óculos escuros. Avança em direção ao portão, que se abre automaticamente. Volta pela rodovia.
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.....Dia seguinte. Final de tarde. Bairro Campo Comprido. O namorado desce a rua vazia. O Fiat Uno o acompanha. O gordo pede uma informação. O rapaz dá. O Uno fica o esperando chegar em casa para seguir adiante. O rapaz fica um pouco desconfiado, mas logo se distrai e entra na casa humilde. O gordo faz a volta e vai embora.
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.....Oito da manhã. O gordo acorda sozinho num quarto de motel. Está nu. Levanta. Vai até o banheiro. Mija. Lava o rosto. Volta para o quarto. Três garrafinhas de uísque abertas e um copo sujo sobre a mesa. Ao lado a pistola com o coldre. No criado mudo, um pacotinho de camisinha aberto. E uma camisinha usada, com porra dentro e um nó na ponta. O gordo abre um barbeador descartável. Volta ao banheiro. Senta para cagar. Termina. Liga o chuveiro. Toma um banho lento. Volta para o quarto. Se veste. Sai do quarto. Caminha pelo corredor. Segurando a jaqueta na mão.
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.....Nove da manhã. Passarinhos piam. O gordo, rosto liso como o bumbum de um bebê, vestindo jeans e camisa pólo, faz o desjejum no Banoffe. A lancheria é clean, decorada um pouco à maneira dos anos 50, em tons rosáceos. O gordo come um misto-quente. Bebe café com leite numa xícara grande. Em seguida, degusta uma taça de sorvete de queijo com goiabada.
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.....Dez e meia da manhã. O gordo estaciona o Fiat branco na garagem do Conjunto Habitacional Araucária 6, no bairro Fazendinha. Sobe as escadas até o terceiro andar. Entra num dos apartamentos. Tira a roupa. Coloca a arma no criado mudo, ao lado da cama. Escova os dentes. Fecha a cortina. Deita para dormir.
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.....Boate Liqüe, no Batel Soho, lugar fino. 2:30 da madrugada. Há uma fila enorme para entrar. Um Audi para. O manobrista abre a porta. De dentro surgem a garota, clara, linda, num micro vestido prateado, e um namorado, branco, cabelos escuros, calça jeans e camisa, sorriso amplo. O manobrista leva o Audi. Eles se encaminham para o começo da fila, pelo lado. Os seguranças abrem caminho. Eles furam a fila e entram na boate. Estão no camarote. Divertem-se. Bebem e bebem-se. O namorado passa drogas para os amigos que ali estão. Coloca um ácido na língua da garota. Depois a beija com virulência. A luz é estroboscópica. O som é auto. Eles falam muito. Ouvem-se pouco.
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.....2:35. O Uno branco entra na Cruz Machado. Passa manjando as travecas e as putas nas calçadas. Passa pela frente do Gato Preto. Desce a Saldanha Marinho, ali está o Dentadas Pub, às moscas. Segue. Entra na Comendador Araujo. Estaciona em frente à Night Estories. Acena para Gardenal, o leão de chácara. Entra. Do balcão, assiste o strip. Bebe uísque. Gardenal vem até sua mesa. Passa uma buchinha. O gordo lhe paga. A transação é sutil, veloz. O gordo vai até o banheiro. Desenrola o saquinho. Cheira o pozinho mágico. Volta. Uma garota está se desvencilhando de um sujeito grande, de bigode e cabelo um pouco comprido penteado para trás. Ela vem conversar com o gordo.
.....Pode me chamar de Mamá, diz ela.
.....Eles saem juntos da boate. Ele abre a porta do Uno para ela.
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.....O sujeito de bigode que falava com Mamá, agora conversa com Gardenal, que pede para que ele se acalme.
.....Quem é esse gordo?, quer saber o grandão.
.....Ele preciona Gardenal até arrancar a informação que precisa.
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.....Motel do Largo. 3:47 da madrugada. Ele pega a chave do quarto, que fica no fim do corredor. Entram. Ligam o interruptor, a luz treme no teto. Há espelhos por tudo. Ela abre a geladeira e pega um chocolate. Depois diz que vai tomar um banho. Ele senta na cama e espera. Cheira a cocaína. Ela volta. Só agora o gordo começa a tirar a jaqueta. Ela vê a arma. Se assusta. Ele diz que não se preocupe. É policial, mas não está ali a trabalho. Ela abre uma garrafinha de uísque.
.....Desse jeito você vai me levar à falência, ele diz sorrindo.
.....Ela oferece o uísque a ele, que bebe num gole só. Daí ele abre outra garrafinha. E deita na cama. Ela se ajoelha por cima e começa a abrir a calça dele.
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.....5:30 da manhã. O gordo acorda no Motel. Mamá não está mais ali. Ele levanta.
.....Tudo outra vez, pensa.
.....Vai até o banheiro. Mija. Lava o rosto. Volta para o quarto. Garrafinhas de uísque. Pistola. Camisinha. Barbeador descartável. Banho. Volta para o quarto. Se veste. Dá uma fungada. Sai. Caminha pelo corredor. A jaqueta na mão. Vai até a recepção. Paga.
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.....6:15 da manhã. Chove. O Uno vai até a casa do namorado. Para. O gordo cheira um pouco de pó. A uns 60 metros, o Audi para em frente a casa simples, no bairro Campo Comprido. O namorado e a garota fodem dentro do Audi. Depois que acabam, despedem-se. O namorado sai do carro com a mesma roupa de quando entrara na boate. Ele acena para sua pequena no Audi. Daí entra na casa. O Audi parte. O Uno fica ali mais um tempo, observando a casa.
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.....6:43, manhã. A bonitas mansão no Colina Azul, ao longe. O Audi avança em direção à mansão. O carro estaciona no pátio. A garota sai. Entra na casa. 7:08. O deputado, vestindo terno, e sua senhora, elegante mesmo estando ainda de roupão, tomam o café da manhã.
.....Bom dia, família, diz a garota.
.....Isso são horas?
.....Hoje é sábado, pai.
.....A garota está um tanto chapada, mas tem algum controle de seu estado, não dá muita bandeira. Ela dá um beijo na bochecha do pai, depois na da mãe. Senta. Prepara um sanduíche com pão integral, queijo branco e peito de peru. Toma um copo de suco. Daí sobe as escadas na direção de seu quarto, levando na mão o que resta do sanduíche.
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.....9:00 da mesma manhã. O gordo dirige ao Banofee. Mais uma vez misto-quente. Café com leite. Sorvete de queijo com gaibada.
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.....Salto de tempo. Madrugada. Hora indeterminada. Lugar indeterminado. Um descampado. Os fárois do Uno ligados, a luz alta, apontando para o descampado. O namorado, apenas de cueca. Espancado. O gordo tira uma garrafinha de uísque do bolso. Bebe calmamente. Guarda. Abre o porta-malas do carro. Tira um galão. Traz e começa a encharcar o rapaz com o líquido. Daí joga o galão de lado. Acende um cigarro. Fuma calmamente. Lança o cigarro no chão ao lado do rapaz. A chama cresce.
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.....A mesma madrugada. Está na estrada voltando para o centro. Do celular, liga para o secretário do deputado.
.....Está feito.
.....Depois, liga para Mamá.
.....Quero me encontrar com você.
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.....9 da manhã. O Uno estaciona no Ambiental. A pasta está no porta-luva. Corpulento, ele senta na varanda, de um jeito que possa olhar o carro. Faz o pedido de sempre. Já está tomando o sorvete de queijo com cobertura de goiabada quando o sol fere seus olhos. Ele vira um pouco a cadeira, ficando levemente de costas para a calçada. Sorve o resto do sorvete no fundo da taça quando sente uma fisgada nas costas. Depois, mais dois tiros seguidos. O gordo cai. As garçonetes se desesperam. As pessoas que estão passando pela rua não entendem direito o que está acontecendo. Lufus, o sujeito grande, de bigode e cabelo um pouco comprido penteado para trás, vem até ele e faz questão de olhar em seus olhas, a vida se esvaindo.
.....Deviam ter te avisado que era arriscado sair com a Marcela, diz Lufus.
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.....O Uno fica estacionado ali durante três dias inteiros no Ambiental. 4:26 da madrugada. Um grupinho de skatistas arromba o carro. Vasculham. Encontram a pasta. Abrem. Tem muito dinheiro ali dentro. Eles pegam a pasta e vão para o final da rua do Ambiental, que é sem saída. Dividem o dinheiro. Nos dias seguintes fazem a festa. Compram roupas, tênis, skates, maconha. Semanas se passam. Um certo dia, um dos garotos não aparece na pista. Preocupação geral. Dali três dias, outro some. E então o terceiro. E o quarto.

domingo, 1 de agosto de 2010

manual de putz e pesares

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.....Sem som, sem anestesia
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Cinco graus. Saio correndo (tendo os músculos fracos) como posso pelas ruas. Não há viva alma na cidade. Os postes de luz tremeluzindo. É escura a neblina. E fede. Chego numa praça. Três da madrugada. E o meu desassossego é uma menina com um vestido de lantejoulas prateadas, com nada por baixo, nem casaco que lhe proteja. Seus olhos estão borrados. Ela acabou de sair do Dentadas Pub. Ela se vira na minha direção e diz: Eu tenho uma boca dentro de mim. Tenho uma dor lancinante no estômago. Me aproximo. Tomo um susto: Meu Deus, conheço essa menina. Chamo seu nome. Falo: Eu sou teu pai. Ela não me reconhece. Continua dizendo: Eu tenho uma boca dentro de mim. A menina sangra. Onde estão os bombeiros? As árvores da praça estão com as copas ardendo, vermelhamareladas. O dia começa a raiar. Não há transeuntes. Não há automóveis. Eu sou teu pai, grito. Como que saída de um transe, a menina se apazigua. Entristecida. Tiro a japona. Num movimento preciso, embrulho a menina. Ela me olha sem entender. Experimenta meu rosto com as mãos. Diz meu nome. Pergunta: É você mesmo? Sim, eu digo, sou eu. Ela fala, docemente: Você não é meu pai, não é minha mãe, não é nada meu e está aqui... você é meu outro coração, sem som, sem anestesia.
.....Acordo. Ouço barulhos. É dona Leleca. Ela está lavando a cozinha com produtos de limpeza. Eu odeio os produtos. O cheiro me deixa tonto. Me intoxica. Tenho alergia. Abro os olhos. O resto do corpo não quer responder. Depois de 40 minutos me viro para esquerda. Fico de bruços. Ok, agora eu quero que você se levante. Levanto. Calço os chinelos acolchoados. Vou para o banheiro coçando os olhos com remelas endurecidas. Não acende a luz do banheiro. Abro a torneira. Bebo água, com as mãos em concha. Lavo o rosto jogando duas ou três vezes água na cara. Acendo a luz do banheiro. Um fedor. Talvez eu já o tivesse sentido um tempinho atrás, mas não tinha me dado conta. Me deparo com o vômito no chão, ao lado da privada. Só pode ser meu.
.....Petit comité em cobertura da Rua Coronel Dulcídio com os jazzistas Endrigo e Glauco ganhando o melhor cachê da cidade. Eis minha noite de ontem. Acordo arrependido de ter bebido aos borbotões o vinho rosé seco comprado na Colônia Rebouças só para fazer um mimo rústico e charmoso a Lari, minha ex-aluna, que havia me convidado com “faço questão da sua presença”. Esse vinho miserável que ninguém além da minha ingênua pessoa bebeu foi o responsável por me fazer entrar num táxi, desembarcar e escorrer pelas sarjetas do centro por volta das quatro da madrugada atrás de álcool. Num esforço desgraçado voltei para casa dormir. Para hoje o doutor me pediu um hemograma e um exame de fezes parasitológico. Meu roteiro lírico e sentimental. Devo ter dormido duas horas, no máximo. Como ficará o velho irresponsável diante do sorriso das atendentes do Frischmann Aisengart, numa manhã que fede a ressaca?
.....Meus pés nus. O chão frio de lajotas. O tapete também está vomitado. Que chatice vai ser para dona Leleca lavar esse tapete. O cheiro me deixa nauseado. Aguente firme, não deixe que as golfadas venham. Estou sem fome, mas preciso comer. Faço um bochecho com água e cuspo em seguida. Respiro fundo. Olho minha cara no espelho. Olhos vermelhos, olheiras, rosto pálido. É isso. Ser um velho sozinho. São 9 da manhã. Dona Leleca, chamo. Nada. Dona Leleca. Vou até a cozinha. Leleca está no chão estrebuchando. De novo não, merda. O pescoço inchado. Ela espuma pela boca. Ela se debate. Seguro sua cabeça. Tenho nojo, mas enfio os dedos na boca dela. Já sei como lidar com epilepsia de doa Leleca. Ela vive esquecendo de tomar o remédio. Seguro a língua. Ela para de estrebuchar. Está desmaiada. Dou uns tapinhas em seu rosto. Leleca. Tapinhas. Leleca, acorda. Tapinhas. Depois de uns sete minutos inconsciente ela volta a si. Mas ainda não fala coisa com coisa.
.....Dona Leleca já limpou o banheiro. Já arrumou minha cama. Abriu as cortinas do quarto. Levou a roupa suja e o tapetinho vomitado para lavanderia. Preparou meu café. O que seria da vida sem ela? Mas Leleca também está ficando velha e cansada. Durante o café da manhã, pela TV, numa dessas matérias sobre reciclagem de lixo, vejo que o Gari Sorriso pode sorrir mais do que eu. Mudo de canal. Uma loira. Mudo. Outra loira. Desligo a televisão. Leio o jornal. Minha vista está toda atrapalhada. A notícia na qual se detém diz que empresário de sucesso, pai de família, viu sua filha de cinco anos ser atropelada na saída da escola, na tarde de ontem. Não era minha filha, mas poderia. Eu fui um bom professor, você pensa. Dei aulas para os cursos de economia e administração. O guardador de carros, por causa do alvoroço que os guardas de trânsito fizeram, graças ao atropelamento da menina, acabou que deixou de ganhar trinta reais. Que pensamento torto, digo para mim. Depois, deve fazer algum sentido. Tudo influencia a micro-economia. Bolas, que mania de querer analisar tudo pelo viés econômico. Você está defasado, Edmundo Rojas.
.....Preciso sair de casa. A prefeitura instalou umas barras, uns suportes especiais para idosos fazerem exercícios físicos. Um parquinho de diversões para velhos. Isso não me pega. A farmácia, essa sim, a verdadeira responsável por manter minha saúde. Antes de eu sair dona Leleca diz: Ponha a japona, que lá fora tá congelando cimento. Como se você ainda fosse uma criança de tenra idade. Coloco a japona, o gorro. Saio.
.....Na rua, enfio um balaço na cara do céu cuspindo para cima. Descasco um mentex e vou mastigando. Os prédios da Sete de Setembro pastilhados de porcelana, com porteiros de seus pulôveres. Empregadas voltam com o saquinho de pães e o presunto para o café da manhã. Os fios de luz pingam eletricidade no bagaço de meninas indie ou emo viradas da noite que, depois de terem sentado na privada dos banheiros mais andergraudes para cheirar e escrever hieróglifos atrás das portas, passam pela Praça Oswaldo Cruz dentro dos Expressões que se dirigem ao Água Verde e Portão. Presencio um atropelamento estridente como um solo do Steve Vai. Paralelepípedos beijam os sunglasses do ciclista num deslize do valet park de um hotel cinco estrelas. Sem contar os olhos da cara pelo seguro do Honda Civic de vidro fumê e a indignação do barrigudo que pilota uma Kombi adesivada com a estrela do PT. Sujeitos eternos, fitness & wellness, passavam por mim galopando a manhã que até o fim, sem dúvida, terá nuvens cheias feito saquinhos de moeda e depois despontará descongelando o ouro do sol, dando uma folga para a epiderme. É sempre assim no mês de agosto. Edmundo Rojas, você devia ter aceitado pelo menos uma das inúmeras vezes que te ofereceram carguinhos comissionados em alguma espelunca. Você deveia ter sido menos turrão e ajudado os que queriam legislar a favor de seus cavalos lisos e sóbrios. Talvez assim hoje você tivesse dinheiro para esse acúmulo de medicamentos a que teu corpo está te obrigando.
.....Chego no Aisengart. Os exames vão dar resultados péssimos. Não podia ter bebido ontem. O que deu em você? As atendes são simpáticas. Olhando para a mais rechonchuda, assombra-me a ideia de que os médicos descobrem tudo sobre as pessoas examinando detalhadamente seu mijo e suas fezes.
.....Terei visto um atropelamento quando voltava para casa? Nunca entendi porque as pessoas param para ver gente morta no meio da rua. Parece que a curiosidade é sempre maior, mais urgente. A pose enigmática da morte. No meio do tumulto escuto uma moça dizer que morrer na hora do rush é uma merda. E depois outra, da janela do ônibus, mandando um policial de trânsito tomar no cu. Entro na loja de conveniência de um posto, compro uma latinha.
.....Entro no prédio, a cerveja na mão. O porteiro não gosta de mim. Dou bom-dia a ele. O elevador está demorando. Entro no elevador. Detesto pegar o elevador com todas essas crianças barulhentas. Décimo quarto andar. Escondo a latinha atrás da floreira, no hall de entrada. Entro em casa. Estranho, o almoço não está cheirando. Não tem bife hoje? Tira o gorro. Tira a japona, manga direita, esquerda. Aqui dentro está quentinho. Vou tomar banho. Toalha enrolada na cintura, cheirando a sabonete, vou para o quarto. Leleca deixou a roupa, passada, sobre a cama. Meu Deus, como você é demorado para se vestir.
.....Almoço a comida e o noticiário. Novas tragédias. Sou um consumidor de tragédias. Leleca trabalha na minha casa tem mais de dez anos. Ela não permite álcool. Ela me ajudou a preparar e limpar os restos no dia seguinte de centenas de festinhas, as tertúlias do professor Rojas. Quando a idade e a saúde permitiam. Leleca me ajudou a me livrar do álcool. Minha esposa morreu numa viagem à Foz do Iguaçu. Num ônibus lotado de inocentes que a televisão chamou de muambeiros. O motorista dormiu e o ônibus deu de frente com um caminhão. Ela está engavetada em um cemitério vertical, foi cremada. Me tornei viúvo muito novo, aos 31 anos. Nunca deixei de ser um caçador.
.....Acabo de me excitar pensando em cenas de namorados que se beijam nas escadas rolantes do shopping. Estou em casa, observando a natureza pela televisão. Hoje vou ficar quietinho, me recuperando do porre de ontem. Nunca mais. Mais um dia. Mais um dia.
.....Não resisto. Saio. Cada porta de edifício é um não-lugar que desemboca logo ali no shopping. O shopping boceja e me engole como eu fosse um mosquito. Dou uma risadinha. Estou gordo. Sacudo a barriga para dar risada. O senhor não tem vergonha? De quê? De ser velho desse jeito. Mas o que posso fazer se não estou morto? Vejo a namorada no degrau de cima enlaçando o pescoço do namorado um pouco abaixo. Você deu um passo e eu já não estava à tua altura. Os músculos das minhas pernas não têm pressa. Sento no café, bem no meio da praça de alimentação. Sou conversador. Chega um moço. Olá. Boa tarde, como vai o senhor? E já estou monologando: O exame que fiz dia desses na clínica custa 3.500, assim as seguradoras de saúde vão falir, a máquina de ressonância me dá medo...
.....Falo e ao mesmo tempo lembro coisas de quando criança. Recordo das tetas das senhoras lá da Colônia em que nasci, das pernas roxas, inchadas feito uma geografia de campo de batalha. E: A máquina de ressonância parece um tubo de pasta de dente, ou um caixão tecnológico cheio de luzes...
.....Agora as moças da loja de roupas em frente vieram dar uma pausa para o café. Elas já me conhecem. Me tratam bem. Preciso manter o foco. Tente não entrar em dez assuntos ao mesmo tempo, velho Rojas. Fale da tua infância, vai fazer bem. Mas e as veias que irrigam meu cérebro, onde talvez esteja alojado um câncer? Que paranóia é essa? Os exames nem saíram ainda. Ou saíram? Já não sei dizer. Velho gagá. A menina em minha frente me lembra a Lady Gaga. A Colônia onde nasci foi tomada por esses condomínios de luxo com campos de golfe, sabe? Jovens publicitários se divertem ora jogando, ora armando tenda de mil metros quadrados para celebrar com festas. Festas rave?, pergunta a Lady Gaga recolhendo as xícaras das mesas ao lado.
.....Sorrio por dentro. Me sinto capaz ainda de mentir o suficiente para levar uma guria dessa para cama. Velho porco. Você continua sedutor, apesar de tudo. Esse broxe aqui ó ganhei de uma avó de pernas roxas e inchadas lá dá Colônia. O broche era para me dar sorte, ela disse, eu uso todo santo dia. Respiro fundo, adoro o ar-condicionado do shopping. Recuso o café que o homem engravatado me oferece. Sou hiper-tenso, tenho que me cuidar. Tenho que me cuidar. Tenho que me cuidar. Leleca deve ter deixado sopa de verduras para o jantar. Detesto sopa de verduras batida no liquidificador. Preciso beber alguma coisa. Chope? É melhor não, ontem passei mal, vomitei sangue até. Amigo, me dá mais um. Vocês vendem uísque aqui no café?
.....Dane-se a hipertensão. Agora estou como o Diabo gosta. O senhor está saidinho hoje, diz Lady Gaga. Sorrio. Ela é uma gata miau trazendo a terceira dose. As tardes são dos amantes. Digo a ela: Amo em você tudo o que dói. Ela fica envergonhada, mas sorri. Por pena? Por educação? Você é um velho que ainda vale alguma coisa? A frase não é minha. Devo tê-la vistouvido em algum filme. No passado, fui o rei das frases colhidas em filmes e livros. Os troquei pelo shopping, ele sim uma aventura de sessão da tarde. Que encrenca você causaria com o honrado Guevara. Uma vida dedicada à filosofia para chegar a isso. Hoje, para mim, filosofia é viver entre bula de remédio genérico para pressão, CPI, FMI no canal do Senado e os passeios pelo Soho Batel. Não tenho a menor saudade do tempo em que fui parte de equipes que especulavam vulcões financeiros mais violentos que o de Krakatoa. Toda essa corja tinha mania de surfar em dólar como ele fosse uma onda Tsunami.
.....Puta merda, você era tão forte. Muitos o tinham em alta conta. Para outros, não passava de uma verdadeira praga que vivia para ensinar o marxismo aos alunos. Você, o grande ateu, todos esses anos lecionando numa universidade católica. O celular. O celular está tocando. Dona Leleca. Sempre ela. Alô... alô... alô... Nada. Alô... quem fala? Edmundo Rojas, quem gostaria? Desculpe, foi engano. O engano desliga do outro lado da linha.
.....Cinco doses depois. Pago com o limite do cartão de crédito. Saio do shopping. Vou à pé até a Panter´s Hause. Peço uma dose de uísque. Bebo. É falsificado. E diluído com água. Escolho uma menina. Completo o copo com nova dose. Ela pega a toalha e a camisinha. Subimos para o quarto. Como sempre, sou carinhoso. Obrigada, ela agradece. Não tem de quê, gosto de mulheres bonitas e inteligentes. Obrigada. Não tem de quê. Obrigada. Agora chega, querida, pare de agradecer, não me agradeça mais, não quero você me agradecendo o tempo todo, chega de agradecimentos por hoje, quando eu quiser que você me agradeça eu peço. Estou com saudade de mim. Criança. Na Colônia. No interior esdrúxulo do país. O norte vermelho do estado. Ruas das quais saiam fogo por entre as rachaduras. Pago. Cartão de crédito.
.....Vou para o centro. Entro no caixa eletrônico do Itau da Boca Maldita. Saco uma boa quantia. Vou para a Saldanha. Entro num predinho. Eles me deixam cheirar rapidinho ali no mocó mesmo. Abrem essa exceção, porque sou velho. Há quanto tempo você não fazia isso?, perguntam. Uns seis anos, ou mais. Pago. Desço novamente até o calçadão da XV. Sento num banco. Olho com desprezo qualquer um que passe com cara de executivo. Eles têm a saúde do ferro, comem business e presunto no café da manhã. Não adianta ter ódio. Eles cagam para você. Eles são trabalhadores. E você? É um animal abatido. Cambada. Corram se cercar por blindex e cartões de indentificação da empresa. Vocês não me enganam, trapezistas. Garanto que trazem na pasta a recomendação expressa do Ilustríssimo Algumacoisa. Dona Leleca não pára de ligar para o celular. Na vida todos têm de encontrar a pomada certa para aliviar o rabo. Preciso arranjar uma estagiária para dona Leleca, ele já está cansada.
.....Volto para Saldanha Marinho. Entro no mocó. Gostou da farinha, vovô? Pago e saio. Entro no Dentadas Pub. No banheiro arria as calças e caga. Enquanto faço força, desembrulho o papelote. Sento a venta. A narigona nunca esteve tão ávida. Velho burro. O braço formiga. O peito arde, três, quatro pontadas insuportáveis. Abro a camisa. Massageio a gigantesca cicatriz que divide meu tórax em dois. Estou deitado na lajota mijada. A dor provoca um tipo de dança no meu corpo caído. É você mesmo? Sim, eu digo, sou eu. Ela fala, docemente: Você não é meu pai, não é minha mãe, não é nada meu e está aqui... você é meu outro coração, sem som, sem anestesia. Depois não escuto mais nada. Puxo o ar e ele não vem. Não sinto mais as pernas, as mãos. Meus olhos estão abertos, esbugalhados.