quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

rugas despudoradas

entrei no armazém amarelo, modorrento. bruxuleante luz no teto. quase nada de produtos a venda. uma senhora. as rugas mastigavam, despudoradas, o seu rosto: protocolo carimbado pelo tempo.
cerveja preta, pedi.
foi buscar. nunca mais voltava. despejou o líquido em meu copo. pensei reconhecê-la. teimavam seus disfarces. foi atender as moscas, únicas clientes. o espelho da parede oposta ao balcão onde estava me eram úteis. expunham ainda mais a precariedade daquela presença: caroço humano.
lembra-se de mim?, pensei.
chamei-a. virou-se, quase não dobrável.
ela sabe que sou eu?, pensei.
anos atrás eu conheci uma menina, 14 anos.
ainda bebê, deu-me de presente.
não me reconhece?, perguntei.
fez uma expressão de dúvida fitando a rua como se de lá a resposta. passou as mãos sobre a toalha de plástico com flores apagadas limpando farelos de comida sobre a mesa.
nunca mais, filho, ninguém soube de mim, ela disse.


seus órgãos

a doença são seus órgãos
quando chegar o momento quero estar longe dessa corja, cospe
militante político outrora
antes morresse numa biblioteca, diz, não é lugar de
vai-vem, mas de permanência
ou nalgum canto onde vaidades houvessem findado
se não em paz, ao menos pra lá dos predadores
mesmo o banal exige rito
despede-se
não antes de experimentar uma última vez o sabor
censurado pelos filhos, do alto de sua sabedoria, nada reclama
noutro dia pensa vapor é o que serei
aquém da infância a eternidade já faleceu
nós velhos devemos temer os mortos, estes terão
que se mudar para outro lugar quando chegarmos lá
morremos e somos os bebês do falecimento, diz
ai o pai já à beira dos delírios
chamam uma mulher, último pedido
o senhor está muito doente?
ele afaga seu braço você, doce, é meu médico, sorri e
tosse os ossos
o senhor é gentil, não queria que
meu bem, todo cardápio obriga a fome, diz o velho
cofia a barba e tomba
os filhos, cinco diante do leito
coitado, ter entrado os dois pés na loucura antes de
cemitério
é jogado para as marés dentadas da terra
a vida de um homem, mergulhar na respiração dos afogados

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

habitantes
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exumações ordenadas pelo governo. a lembrança é espessa mancha derramada, não na escuridão, nos buracos do esquecimento. o que encontrei depois que me perdi. frioerenta, ela era. como apagar a paisagem? quando a vislumbramos, o branco, como se uma borracha houvesse sido ali. branca, a geada. branco o sol que derrete a geada. brancos os luares, nossas noites. não sei se todas as luzes ou se nenhuma delas. um lugar cheio de garras e dentes: os que por anos estiveram sob os cuidados do sanatório e hoje cavam iglus nos barrancos de terra, servem-lhes de habitação. brancas suas peles, excluindo as cinzas anciãs. dos que se foram, a transparência dos ossos. o céu expunha-se ardido em contraste com o frio de lâminas. a manhã quanto a noite se igualavam em tons marfim diante de estáticas escuras janelas, duas, no máximo, em cada casebre. ruelas de chão batido. chuva, barro que ao secar é mais sangue coagulado. tudo ao fim se alargando para além de um amplo deserto também níveo. de brancos grãos a totalidade dos desertos se compõe. os vivos e os outros, num mesmo.

domingo, 4 de dezembro de 2011

vá de retro!

vá de retro!
o que se ouvia quando pus pés e sentidos nas dependências do prédio fundo: navio soterrado, longo túnel, entrada sem saída, escura garganta de fera sacrificada, geladeira de amaldiçoados. haver uma paciente que mais que linda fosse eterna. não podia, trancaram-na. um outro que estimava-se a si tanto que
vaderetro!
igualmente o que era todo gengivas. um rosto-sangue e
vá de!
meia dúzia de meninas peraltas, buliçosas, pérfidas até que
aaaaaahhhhh!
e os bocós de mola. paladares oblíquos. sopitosa audição. e os que grunhiam. rútilos olhinhozinhos. mandíbulas marrons
vá de!
desígnios da quimicamente remediada solidão. pântano de antiséptico concreto. excrescências triplicavam odores. memória de espectros e seus estertores. lutuosa edificação por onde esquisitos homens, atônitas fêmeas, andrajos seres, agora eu, branco bratáquio visitante. apertava-me de frio e curiosa náusea. meus ímpetos, espantado pesquisador, nas paredes dos quartos, lia-se
aqui o pomar das dores, tubarões e morcegos perfuram tímpanos, os joelhos são retorcidos.
era interpelado pela cruenta galeria e sua memória que incendiavam em minha direção, descortinados. há muito todos os habitantes sem a medicação
vaderetro!
ali estava eu, sem autorização de ofício, sem acompanhamento de enfermeiros ou guardas. no monumental sanatório, todos nós, os insensatos.

domingo, 30 de outubro de 2011

Ivan Justen Santana

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Procura-se desesperadamente:

Pessoas boas que consigam festejar.
Que falem o que sentem bem como o que querem.
Que saibam ser gentis. Respeitem lar e bar.
Mantenham bom humor. E as que vierem e derem.
Que venham sim. Sutis. E demonstrem prazer.
Tanto em cumprimentar quanto em reconhecer.

Gente que leia mais. Frequente lançamentos
No veneno de ler. De avaliar as artes.
De verdadeiramente ampliar conhecimentos
E divulgar o que acha bom por quaisquer partes.
Um público que veja os genuínos artistas.
Que aplauda sem ligar se assim vai dar nas vistas.

Alguém que não precise do choque de agora.
Que leia isso e tolere este tapa na cara.
Que entenda o que é linguagem. Som. Tom. Dor. Cor. Fora
Tudo isso que não cabe em rima pobre ou rara.
Quem ofereça a face. A fuça. A carapuça.
Fure-se a carapaça. Engula. Cuspa. Tussa.

Ivan Justen Santana
(27-10-2011)
http://ossurtado.blogspot.com/

terça-feira, 16 de agosto de 2011


a mão selvagem pássaro-livro da febre
a mão selvagem chão de águas tormentosas
a mão selvagem montanhas crescendo dos dedos
a mão selvagem abismos do arrancar das peles
a mão selvagem faca que estapeiafaga dentro do sangue
a mão selvagem desvairado polvo gozando tintas
a mão selvagem mais a argila que deus a mãe do mundo

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

não há luas quando olho pela janela da casa. nem amor demais nessa cidade. se você está aqui, com teu inferno pessoal penetra a terra, mas dentro há menos paz do que se pensa.

transatlânticos fervem sem oceano. grotescos esqueletos de arranha-céus não terminados rangem. a cauda do dirigível faz sombra sobre a Lagoa Seca. não há amor demais nessa cidade.

chove nas folhas das árvores amarelas. chuva de fragilidades. um dia te dedilhei com o olfato feito tocasse piano. tudo alaga. o rio, a praça, a cama.

a liberdade é um jogo de xadrez no qual habita um cara obcecado por uma garota que o despreza admirando e só se entrega de olhos bem abertos. ela deu o bote. agora preciso de um tipo de ódio que venha engarrafado, antídoto tomado em doses homeopáticas.

sabe, vez ou outra há amor, mas aí a tua passividade me embrutece. estou tão fraco. se ao menos isso eu conseguisse, perguntaria: estamos participando de um banquete para urubus?