quinta-feira, 1 de abril de 2010

notas para um livro bonito

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.....O que em mim é raro atua com as mãos. Incrivelmente, sinto que só não é ilusão a página trágica na qual me rabisco. Raspo do papel a neblina e traço rotas. Desenho feito as aranhas que infestam de teias os porões que inventamos chamar de “o tempo”. O tempo, sua ferocidade vem à jato. Inspiro fundo antes que me faltem escolhas. Posso até ter pressa, mas sei que não me ultrapassarei. Em certa altura a vida congestiona feito um nariz constipado, isso é que é. Já devem ter dito de mim: Aí está o que atravanca. Bem, cada um de nós com sua fama. Devo ser o quê? Um colecionador de fragilidades naufragadas. Com sapatos herdados, todavia, caminho ainda copiando o sabor da terra. Aqui estão as tias, a avó na horta. Meus primos e irmãos em meus olhos impregnados desse lugar radiante. Pisco, esfrego o rosto como quando se acorda e o olho arde. Nos salões da cabeça meu mundo particular pesa. Preciso espremê-lo como a uma esponja com água retida. O coração, um vaso rústico sem planta dentro. Isso, me abarroto com metáforas. A metáfora é um método que ajuda a não esquecer. Apesar de eu ser incapaz de confiscar lembranças. Elas chegam, vou pegá-las com as mãos, fogem.

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