quarta-feira, 5 de agosto de 2009

NA VERDADE NÃO ERA estréia hoje, quarta-feira, às 20 horas, no teatro josé maria santos


O que eu diria para qualquer atriz, assim de última hora
em poucas e sôfregas palavras, caso eu fosse Nelson Rodrigues


Você é uma coisa indescritível. Poucas vezes vi algo igual. Preciso mais e mais dos teus olhos, eles mudam de cor conforme você diz o texto. Quero ver o que está por trás da lâmpada das pupilas. Deixe a platéia conhecer teu estômago por meio do olhar, o fígado, os fantasmas desse mundo cruel e subjetivo que vivemos a esconder. Lembre-se, o cérebro das pessoas faz parte de suas entranhas, e você é o Charles Darwin de si mesma. Agora é o momento de agir feito um ser jamais antes conhecido, alguém que a cada ação estréia um universo inédito, superlativo, indispensável, embora isso já tenha acontecido antes tantas e tantas vezes ao longo dos anos. Porém a tua é uma interioridade cavada, nem uma máquina de ressonância saberia revelar o que você está desnudando como raspasse camada por camada essa edificação que, quando você construiu, o fez como se enfiasse um espinho enorme na própria carne. E então está aí outra vez o osso de tuas ideias, que são o eterno retorno de quando a humanidade foi rara, e de teus desejos, que nos guiaram desde os primórdios. Você é responsável pela maravilha que nasce conforme a peça avança, doe as mãos dos olhos para a platéia, presenteie essas pessoas com os abraços da tua voz. Exponha cada detalhe de todo o processo, desde que tudo começou, entregue-se, dadivosamente, a cada vez que teu diafragma, teus alvéolos respirarem. Respire com os poros, um a um, são eles que dão vazão ao que há debaixo dos teus pés, os anjos do teatro que ficam por lá batendo asas para que o palco não seja um precipício. É na sola dos pés que começa a purificação, ao passar por esse filtro que é teu corpo, a corrente sanguínea, tudo que era inferno será reconhecido na beleza, na delícia da existência, no gozo. Repara, minha nutricionista é muitíssimo sábia, uma poeta, sempre que chego lá ela me olha no olho e diz “você se alimentou muito bem essa semana.” Pois é. Quer saber? Não tenha dó de nada, nem de si mesma, nem de quem estará protegido pela escuridão em sua poltrona marcada. Mastigue a platéia até sentir que seus ossos não passam de uma papinha de neném. Mergulhe sem escafandro ou bóia salva-vidas nas cataratas do sangue de cada expectador. Faça com que cada um sinta que é tua mãe nesse momento, eles se perceberão responsáveis, implicados, suas memórias serão distintas e, mesmo assim, acumularão nossos antepassados comuns, porque há um pacto irretocável, indestrutível, absurdo e plausível, são os “chamados da floresta”. E agora a peça depende mais deles que de você, desses espíritos que habitam o espaço entre atores e platéia, Artaud, Grotowski, Bergman, Tchékhov, esses Exus certamente estão por ali. O teatro inteiro está flutuando de tanto que a terra se abriu como fosse tua própria epiderme elástica se rasgando e cicatrizando simultaneamente. Anjos copulam, se proliferam. Você é esse ser que traz nas costas uma monumental estatura épica, um Édipo absolutamente amoroso é teu filho mais uma vez. Ateie fogo na buceta, a História começa assim, com fêmeas sentindo a dor alegre de reinaugurar o mundo, seu caos, seus calos, suas falas.

6 comentários:

  1. ou então: "merda"!

    beijo e boa estréia!

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  2. Pela hora deste comentário, já foi. Tomara que ela tente te ouvido com os poros. Todos eles!

    Honestamente? queria ter ouvido isso.

    (Mais honestamente ainda? Tenho uma vontade absurda de te escrever cartas. :D)

    Beijo!

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  3. valeu linhares. perdi onde dodoi, né. dificuldades do lado de cá. dizem que essas coisas a gente não agradece, mas obrigado pela tua amizade. beijão aí.

    carol, bacana demais... foi uma ótima estréia. e você, de algum modo, "ouviu". computador não é o melhor amigo dos poros, mas... olha, as cartas podem ser uma boa... será que eu consigo? existe correio ainda? haha. que tal começar com um e-mail? manda pra mim o teu no felipeleprevost@terra.com.br. beijobeijo aí.

    lepre.

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  4. Lindo senhor detetive.
    eu devia ler isso tds os dias antes de subir naquela bicleta.

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  5. pois é, senhorita u. obrigado. bj. lelê.

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