quarta-feira, 2 de setembro de 2009

o pão brutal de ontem

Onde nasci passará o metrô

Um exame que custa 2.500? Assim as seguradoras de saúde vão falir. Onde nasci passará o metrô e o sereno das manhãs esconde as armaduras e escudos que carrega o povo. Cada porta de edifício, um não-lugar, que desemboca ali no shopping. Construí sobrados populares nos “bairrão” por aí — ótimo negócio, ganhei muito dinheiro naquela época. Minha esposa morreu em uma viagem à Foz do Iguaçu, um ônibus lotado de inocentes, que a televisão chamou de muambeiros, esse ônibus... ela vinha dirigindo uma Mercedes e simplesmente deu de frente com esse ônibus. Hoje ela está engavetada em um cemitério vertical, foi cremada. Pena ela não ter estado aqui para assistir minha ascensão. Na Colônia onde nasci também ganhei muito dinheiro construindo condomínios de luxo com grandes campos de golfe. Jovens publicitários se divertem ora jogando, ora armando tenda de mil metros quadrados para celebrar com festas rave. Antes os hippies acampavam nesses terrenos com seus baseados e barracas, com seus violões. E antes disso, eram terras sagradas, dos índios, conta a lenda. Esse broxe aqui ganhei de uma avó de pernas roxas e inchadas, da Colônia que transformei em condomínios de luxo. O broche era para me dar sorte, ela disse. Não sei onde ela mora agora. Talvez não tenha tido a mesma sorte que eu. Bem, virei hiper-tenso, dono nem sei de quantas empresas — muita cagada por lá. Adoro ar-condicionado. Como os arrombamentos cresceram 92% na cidade, as janelas do escritório e da minha casa são incrementadas com pantográficas. Como os turistas que nos visitam vêm à negócios, pelo potencial de consumo, acabei entrando no mercado do turismo — construí três flats, mas meus sócios eram todos uns filhos da puta, então acabei tendo que vender a minha parte antes que a coisa resultasse em morte. Durante o café da manhã, pela TV, numa dessas matérias sobre reciclagem de lixo, vejo que o Gari Sorriso pode sorrir mais do que eu. Isso me desconcerta, então mudo de canal. Depois desligo a televisão. Leio o jornal. A última notícia na qual me detive, dizia que empresário de sucesso, pai de família, viu sua filha de cinco anos ser atropelada na saída da escola, na tarde de ontem. Não era a minha filha, mas poderia. No entanto, essa não foi a matéria mais importante do dia. A mais importante dizia: Novo reajuste dos preços do combustível. Apesar de que na faculdade a gente aprende que quando alguém morre assim na rua a micro-economia informal de uma parte da cidade sofre as conseqüências. Por exemplo, o guardador de carros, por causa do alvoroço que os guardas de trânsito fizeram, graças ao atropelamento da menina, acabou que perdeu nessa trinta reais, em menos de duas horas. No meu trabalho, não posso me dar ao luxo de deixar de ganhar trinta reais por hora. Dinheiro tem que entrar que nem água vindo da torneira. Nunca entendi porque as pessoas param para ver gente morta no meio da rua. Acho que a curiosidade sempre é maior e mais urgente que qualquer outro compromisso. A pose enigmática da morte, não é mesmo? Escutei uma velha dizer que, de fato, morrer na hora do rush é uma merda. E depois a velha da janela do ônibus mandou um policial de trânsito tomar no cu, no cu, no cu. De minha parte, não posso parar, sinto muito, morreu, morreu, tchau, adeus, eu preciso correr, senão o baralho voa. Meio dólar comprava o lugar onde nasci. E eu comprei. Comprei porque qualquer auditor fiscal sabe que mesmo nós, aventureiros, por mais que estejamos ricos, somos inseguros entre juras, juros e negociatas. Filosofia é viver entre bula de remédio genérico para pressão, CPI, FMI e o escambau. É ter estado dentro de vulcões financeiros mais violentos que o de Krakatoa, é ter surfado em dólar como ele fosse ondas Tsunamis. É ter que se confrontar com ativistas, seja lá do que for, essas pragas, ervas daninhas do diabo, vivem exclusivamente para atrapalhar meus esquemas. Comigo não tem lenga-lenga, servi o exército na minha época, era o melhor pára-quedista. Vivo metido em política, senão você não consegue nenhuma brecha. Tenho conhecimento, só por isso invisto em tecnologia bélica. A cena mais feia que vi? Um bebê raquítico respirando com dificuldade em uma estufa da maternidade. Era meu filho, e morreu. Primeiro o filho, depois minha esposa. E agora eu aqui, na máquina de ressonância, lembrando disso tudo e do dia em que eu próprio devo ter nascido. E também recordando das tetas daquela avó lá da Colônia, das suas pernas roxas, inchadas feito uma geografia de campo de batalha. A máquina de ressonância parece um tubo de pasta de dente. Ou, um caixão tecnológico cheio de luzes. Penso nos labirintos das estradas que o Governo está asfaltando no Paraná todo, alguma grana dali bem que podia ser depositada em alguma das minhas contas. Fico estático dentro da máquina, preocupado com a economia do país e da minha cidade, preocupado em como vou fazer para elaborar a próxima sonegação, o caixa dois/três/quatro. Todas iguais: as veias daquela avó e as veias que irrigam meu cérebro, onde eu posso ter algum problema, um câncer... Deus (ele já me ajudou tanto nessa vida) acuda que não, que não seja nada, só uma suspeita. Penso em tudo isso. Pensar demais pode estragar a sanidade de qualquer um. Só não quero jamais fazer parte de um grupo de presidiários que tem de cavar túneis para fugir e é esmagado por desabamento de terra, ou triturado por saraivada de metralhadora antes de chegar ao esgoto da liberdade.

3 comentários:

  1. Le...queria dizer que é difícil acompanhar seu blog...é um texto atrás do outro...se eu fico um dia sem entrar eu já fico perdida rsrsrsrsrs. Muitas coisas boas para Ler. Ah!!!! mas isso é muito bom.

    Obrigada por fazer esse blog pra gente..hehe.

    Bjus Det.

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  2. iza, eu tinha entendido a teu comentário. por que removeu, bobinha?
    eu ando meio produtivo demais, né, jaque. continue vindo aqui, mesmo que tenha perdido alguns capítulos. obrigado você, querida minha.
    bjs. dete.

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