sexta-feira, 31 de julho de 2009

o pão brutal de ontem

O pão brutal de ontem
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Uma tarde rachada. Quase a parte escura da cor fantasma, quase o lago fundo das paisagens do vermelho. Brumas afogam o apartamento. Aconteceu assim: Alguém o assassinou. Mas antes o fígado de Ramos filtra os labirintos da asfixia, antes mesmo que alcance as águas de fora do colchão. Ele está nu agora, como ontem igualmente esteve. Um travesseiro debaixo do quadril mantém empinada sua bunda. Os punhos amarrados na cabeceira da cama. E os tornozelos também amarrados. Um paladar outonal, não na língua, em sua pele. Espasmos, ele teve espasmos contínuos, prolongados. Agora o falecimento já não castiga Ramos, apenas o humilha sem que ele se dê conta, curra sem vaselina os olhos de quem o assiste na imobilidade. Formicida e cianureto no corpo, dentro e fora, foi assim que conduziram Ramos até esse estado. No sórdido motel, cacos de água caem do teto. Algumas horas atrás acontecia isso: A flanela aguda da sirene atravessando o blindex coagulado da surdez total de Ramos. E o IML estacionando em seu odor ainda quente unicamente porque o dia está insuportavelmente ensolarado e é verão. A camareira do motel assiste a tudo segurando o pavor entre dentes. Foi ela quem o encontrou aqui nessa situação terrível. Assim: Entrou no trabalho assobiando, bateu o ponto, arrumou a cozinha, a sala de estar, o escritório do chefe, tudo, quando foi trocar os lençóis do quarto 76, era isso. E agora mais isso e aquilo: Dois homens carregando uma bandeja na qual os mortos devem ser servidos, embrulhados por um saco plástico sem música e expressões, tudo tão diferente e disparatado do que foi a vida glamorosa do dono da rede de salões de beleza J. Ramos, que começou do nada e agora era alguém. No lugar das rodas da bandeja-maca há dois olhos pedregosos (serão os seus, leitor diário de páginas necrológicas?). Mas antes da maca, logo na sequência que se iniciou com a camareira em desespero correndo pelo motel em busca de ajuda, assim que descobriu Ramos morto, veio a ajuda dos vizinhos do motel, que atendiam aos gritos de socorro, meu deus do céu. Foi só depois que a Polaroid de um dos antiquados investigadores registrou tudo: o pão brutal de ontem, neblina, punhal nas costas. E outro agente, ainda gostando de comentar: Essas bichas velhas continuam nos dando trabalho.

viva o pequeno mestre vitor paiva

Vitor, fotografado por Julia Penna
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Já não acreditava mais naquele deus de antes era só um rapaz, você não sabe, meu corpo está falando comigo de dentro de mim a vista é bonita.
A raiva então se derreteu em meu suco gástrico e eu sabia que ela tinha razão não existe saída quando amar é só um artifício desse canhão chamado felicidade sempre obriga alguém a ter que levar a ferida dessa flecha que vara minha cabeça de sensações e meu corpo de pensamentos são o pior inimigo do amor, agora, nesse tiroteio, a ferida é minha.
Vitor Paiva
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Esse é um fragmento de Pensamento de boca aberta, que acabo de reler. Novela de amor das mais interessantes, pela inventividade de sua linguagem e pela delicadeza dos assuntos abordados. O texto compõe o livro Boca Aberta (Confraria do Vento, 2007, RJ), do meu maninho Vitor Paiva. O piá também toca, ao lado do Botika, na banda Os outros. Vá lá no http://www.myspace.com/osoutros e atente para as pérolas que são as canções Nunca, Balada e A melhor coisa do mundo.
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Tem noites que eu daria tudo para estar no Baixo Leblon bebendo um chope seguido do outro, aprendendo com o Vitor e o Botika (que estão entre os artistas que mais admiro) o que no mundo pede sensibilidade aguçada, rara, compartilhando seus olhares poéticos tão singulares e transformadores. Tudo de bom para os dois. Saudade do calor.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

o pão brutal de ontem

A anônima
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O panfleto dizia: Massagens – venha relaxar com belas garotas, 3222-3416, apartamento central, discreto e aquecido, venha sem compromisso, belas ninfetas. E, mais abaixo, em letras pequenas: Atendemos homens e mulheres. A anônima pensou: Por que não? Daria qualquer coisa por uma namorada de 16 aninhos molhando-se toda de urina em seus dedos tentaculares. No braço trazia a bolsa e três sacolinhas das Casas China (a classe média alta também frequenta as Casas China). Dentro de duas horas teria que buscar os filhos na escola de inglês. Mesmo assim segurou o celular e discou o número do panfleto sentindo-se uma kamikaze sem capacete. A anônima adorava meninas com timbre vocal que lembrassem cantoras de jazz. Adorava ruivas com batom de uva nos lábios. Adorava a postura de alguém sobre um salto agulha. Nada a satisfazia mais do que uma princesinha com cara de frequentadora do Shopping Crystal, meninas indefesas do Batel, as inocentes do Batel. O sol entrava por uma fresta do vidro fumê de seu Audi, aberto dois dedos. A anônima meteu a mão no porta-luvas e de lá tirou um estojo de maquiagem. Podia sentir o seu próprio cheiro, sabonete de frutas cítricas e entranhas a subir-lhe às narinas. Precisou se controlar para não cometer uma siririca ali mesmo no estacionamento, fechada agora com alarmes em seu quatro portas já alguns anos desatualizado. Pensava agora que sempre quisera ter um piercing no umbigo e outro no mamilo, talvez mais um no meio da língua, porém se censurava, sabia que Lúcio não aprovaria. Enfim, ela disca o número, e, ao fim do quinto toque, uma voz sexy atende o telefone. A anônima desliga imediatamente como que lutando uma espécie de jiu-jitsu com as próprias entranhas. Pergunta-se por que jamais havia revelado a Lúcio que não passa, ela, anônima, de uma ninfomaníaca descerebrada? Como era possível que enganasse o marido por tanto tempo? Sim, estava ciente de se transformar rapidamente em uma balzaquiana entristecida, fedendo a arame farpado nas coxas, com os cremes da expectativa. E por que, merda, tinha ela que fumar tanto? Esperava com sofreguidão que algum maloqueiro, algum vândalo a abordasse na esquina de casa e a violentasse. Quietinha, vagabunda, eu sei que você está louca por isso. Tudo o que a anônima queria era gozar, não importava se fosse na rua, em seu quarto debaixo de acolchoados, ou se em um banheirinho de azulejos sebosos e azuis-claros rejuntados, com cortinas de plástico mofadas. A anônima era uma coruja. Sentia-se horripilante, proibindo-se de frequentar a sauna do Clube com medo que alguma das habitués desconfiasse de suas preferências. Sim, ela era uma coruja e ninguém jamais conheceu uma coruja sentimental. Sem volta, ela preferia morrer de uma overdose de acetona e esmalte a ter que prosseguir casada com Lúcio. Iria ligar para o 3222-3416 e marcaria uma hora. A anônima estava destroçada e, por esse motivo, desejava destroçar. Sabia que morar entre lágrimas é um frio louco. Sabia que tinha se transformado em uma infeliz televangélica, mesmo, caralho, sem ser evangélica. E que, graças a Lúcio, havia enriquecido. Mas esse não era seu mundo. O Deus de Lúcio não era o seu, um Deus sem pau era-lhe inconcebível. Mas um Deus-mulher lhe caía bem. Estava decidida, mataria a mulherzinha que havia tomado conta de seu verdadeiro ser. Lembrou de tempos idos, de que quando criança desejara ser magra, chamar-se Marta Rocha, fumar maconha e vestir biquínis fosforescentes. Adolescente, quisera ser peituda, passar na rua e fechar o comércio debaixo de uma saraivada de galanteios. Adoraria ter desenvolvido o beijo de língua como fosse uma arte sinestésica. No entanto, ao fim daquele túnel sem esperanças, o que lhe aguardava? Era chegado o momento. Exporia as vísceras, era o tempo do surto, a gota d’água, a vez da crise. Provaria que é capaz de atravessar a si mesma da bunda ao cerebelo. Dane-se que seus filhos ficariam sem os casaquinhos de lã. Dane-se que o mingau noturno gelaria sem o beijo de boa-noite da mamãe dedicada. Explodissem as lâmpadas dos abajures e adeus. Mesmo assim a anônima titubeou por milésimos de segundos, fagulhas de culpa em sua mente. Pensou que só as mães têm a capacidade de se movimentar silenciosamente feito não respirassem. Só as mães entendem ser possível observar os filhos a determinada distância ao ponto de que eles se sintam completamente protegidos. Só mesmo os filhos são real ameaça para elas. E sob tal conclusão afrouxou suas convicções um tanto. Mas então acendeu outro cigarro, olhou-se no espelho retrovisor, disse para si: Você consegue. Assim, vestiu a japona, enrolou o cachecol, e foi. Lúcio que se danasse e fosse buscar os filhotes no inglês quando a secretaria da escola ligasse informando que a mãe não aparecera. Saiu do carro e lhe correu um frio. Dentro de suas veias o sangue trincara. Para se certificar de que ainda estava viva, enfiou uma unhada no próprio pescoço. Andou apressada. Parou encostando-se contra a parede de reboco de um edifício em reforma na Praça Zacarias. Aproximou-se da fonte e lançou nela o celular. Já havia anoitecido e a balbúrdia sonora do trânsito soterrava as lágrimas que percorriam seu rosto. Finalmente a anônima se fundia à cidade, tão solitária quanto uma barata. Mães seguram a mão dos filhos antes de atravessar as ruas. A anônima segurava a respiração. E suas pernas pareciam andar mais rápido que elas (as pernas) próprias. Caminhava agora sabendo que para aqueles passos não haveria a alternativa do regresso. Espíritos que se escondem nas garagens subterrâneas dos prédios gemeram baixo. A anônima soube que eles vivem sofrendo com o movimento insano da urbe. Quando os faróis dos carros, as buzinas e os semáforos estão a toda é quando o demônio vem dar uma espiada por aqui. Que venha então, pensou, e abra uma enorme cicatriz no meio da minha testa. Então um vento correu ferindo suas orelhas. Ela trincou as mandíbulas e feito tartaruga recolheu o quanto pôde o pescoço. Chegou a um vão entre um arranha-céu e mais outro edifício. Escuridão. E mesmo a cidade parecia ter perdido o fôlego. Para qualquer direção em que olhava, sombras tomavam formas indefinidas. A vertigem se instalava. Ela escutou um chamado se esfarelando: Amor, amor, gritos desesperados de Lúcio. Volta, querida, mas não havia voltas, apenas corvos e sirenes, rugido de prédios desabando, e o coração entalado na garganta. Mãe, cadê você, mãezinha?, seus filhos sacudindo junto. Então mais um grito e, súbito, silêncio gelado, a anônima mordeu as costas da mão com tanta força que sangue e ganido se impediram um ao outro a pronúncia. Ela dizia para si mesma: Vamos lá, dondoquinha, não ache que existe sabão em pó, nem mesmo creolina, capaz de lavar essa merda toda. Foi quando ela entrou no apartamento discreto e aquecido. Do lado de fora, a chuva. Dentro da anônima algo se despregava. E ela se percebeu cada vez mais sozinha. Pelo menos agora estava realmente sozinha.

unlivro e outros seres

Gases

Os Gases são um problema para a sociedade de consumo. Os Gases adoram gordos e, contraditoriamente, vegetarianos.
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Teamo e Tardedanoite

Um Teamo chegou em casa de um Tardedanoite tarde da noite naquela fatídica noite e disse: Tardedanoite, eu te amo. No que Tardedanoite respondeu: mas eu não te amo, Teamo. E assim se deu a tragédia corrente.
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Justiça e Vingança

A diferença entre a Justiça e a Vingança é que a Justiça é cega mas vive afirmando que enxerga no escuro, já a Vingança não respeita nem cegos, nem cegos cegos, nem cegos justos, nem justos, tampouco justos justos.
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Preguiça e Eternidade

Todo mundo sabe que a Preguiça fica pendurada um tempão. Todo mundo já notou que a Preguiça não pára de sorrir mesmo que esteja de saco cheio. Também é deveras perceptível que qualquer movimento da Preguiça leva à Eternidade. E quando a Eternidade chega ao fim, a Preguiça lhe finca as unhas.

unlivro e outros seres

Boçais

Se você quer entender como são esses animaizinhos de rosto engruvinhado, basta procurar seus efeitos naqueles que receberam sua ferroada e ficaram assim: Boçais feito os seguranças de um figurão mais o figurão, Boçais feito homenzinhos fardados, Boçais feito a secretaria de um senador mais o senador, Boçais feito carros-fortes (os Boçais se proliferam em casamatas, bunkers, bancos), Boçais feito os que exigem carteirinhas mais os que dão carteiradas, Boçais feito alguém que faz chamadas, confere, fere ou indefere etc etc etc. A lista é bem maior, obviamente. E, claro, existe um montão de gentes boas e razoáveis cercadas por tais bichos horríveis. Esses Boçais a que me refeiro, em sua maioria, são pessoas sem bossa.
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Minimalismo

O Minimalismo é um inseto, não é necessário ser nenhum Darwin para se saber isso. Um Minimalismo geralmente só é bem educado quando do fato de ninguém o notar, pois não. Os Minimalismos, via de regra, são mais sutis que as galinhas. Alguns Minimalismos têm asas, outros não. E mesmo os que têm asas quase sempre optam por não voar na amplidão.
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Silêncios

Os Silêncios. O que falar sobre os Silêncios? Que só os Silêncios são capazes de conceber filhotes de Silêncios, depois formá-los. Há por aí alguns Silêncios estúpidos, não temo afirmar. Mas também é quase banal encontrarmos cultos, doutos, catedráticos Silêncios badalando, como se diz, nos mais variegados lugares. Para nós, humildes alunos, seria bastante estimulante travar algum diálogo com alguns Silêncios, correto? No entanto, a dificuldade de se compreender o modus vivendi de tais seres está justo na constatação de que os mestres e sábios dos Silêncios são homens absolutamente quietinhos. Apesar de inquietantes, quando indagados preferem deixar os principais conteúdos nas entrelinhas. A verdade é que os Silêncios não têm absolutamente nada a dizer a respeito dos Silêncios.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

o pão brutal de ontem

Esses anos todos
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Sábado à noite eu voltava do Mueller. Tinha ido ao cinema com minha amiga. Antes lanchamos na Praça de Alimentação. Três meninos vieram à nossa mesa. Minha amiga, para variar (para variar nada, ela sempre se dá bem), se deu bem. O menino, óbvio, queria ficar com ela. Então ele foi para o cinema com a gente. Os outros dois nos deram tchau, beijinhos na minha amiga e aceno de mãos para mim. Ou seja, nenhum deles se interessou por mim. Por que será? Simples: porque sou feia. Não só porque eu sou feia, mas também muito por essa razão, acumulo aqui na garganta os doze mil nojos que existem e tenho dos homens. Posso mesmo afirmar que a única qualidade do meu rosto é a de viver implorando que, à minha revelia, as pessoas, no mínimo, riam o pior (que é o indisfarçável) escárnio de mim. E se algum desejo em meu corpo se acende ainda, é porque mesmo uma lesma gosmenta a que se aproxime o fogo de um fósforo, mesmo ela, de algum modo, reagirá. Por isso gosto do frio, porque posso me esconder debaixo de camadas de roupas. Naquele sábado fazia frio. Já tinha me despedido da minha amiga e da sua presa fácil no ponto do Ligeirinho, em frente ao shopping. Eu subia sozinha a pé a rua na direção de casa, que fica duas quadras atrás do Calamengau. Lugar onde ousei pisar uma única vez. E se o forró que dançam com sofreguidão democrática lá dentro é famoso pela essência erótica a exalar dos corpos suados, para mim tampouco adiantou. Primeiro porque ninguém me tirou para dançar. E quando abordei um rapaz que me pareceu igualmente deslocado, ele disse que adoraria me conceder a honra daquela contradança, mas que eu teria de ser paciente, pois ele mancava. Por isso nunca mais fui àquele antro de felicidades e saracoteios, e nem gosto de passar pela frente. Então, em vez de ir pelo caminho mais curto e natural, que seria o de subir do Mueller, passando pela Praça do Gaúcho, ir pelo lado direito do Cemitério Municipal, cruzar a frente das Capelas preparadas para velórios, depois alcançar a frente do Calamengau, andar mais duas quadras e, finalmente, chegar em casa, optei pelo trajeto que me obrigava à parte de trás do Cemitério, onde a rua é mais deserta, a noite mais escura, e o muro mais longo. E por ali fui sem ouvir barulho, sem que vultos eu visse, sem que intuição ou mesmo premonição estalassem em meu peito espremido. Espremido porque eu ia pensando na minha amiga e em como ela sempre atraía os homens com desenvoltura. Pensava no que ela tinha que eu não, como se não soubesse de cor e em detalhes seus ene vezes ene atributos. Súbito, um susto. Havia alguém na minha frente, como se ali surgisse uma daquelas portas de vidro que você jamais imaginaria que pudessem existir em tal lugar, mas que, sim, existem tanto quanto o nariz que você, estacando, tonteando, acabou de achatar contra a transparência traiçoeira. Era um homem. Sem que eu pudesse me desvencilhar estava em cima de mim, ávido por sexo e, apesar da penumbra, para meu horror, bonito. Um lindo rosto de mais de quarenta anos de idade, fazia me beijar o pescoço. Não sei com quais habilidades me desembrulhou das roupas: jaqueta, pulôver, camisa, sutiã, calça, ceroula, calcinha, deixando-me nua sobre a calçada de gelo, com panos pendurados nos braços e pernas. Eu berrava, juro que me debatia e berrava, mas nada surtia efeito contra a anestesia que o homem parecia trazer na cola da palma das mãos. Era como se meus gritos resultassem ocos e meus movimentos tivessem a ínfima mecânica dos movimentos dos insetos. Nojo, nojo, nojo. Por que eu, uma assexuada...? Por quê, se sou feia e lesma? Por que logo alguém que os homens desde sempre jamais quiseram? E esse monstro-bonito agora. Quando ele, à força, meteu-se entre minhas coxas, eu vi, por tudo o que é sagrado que vi, os mortos, todos eles, os mortos do Cemitério Municipal a nos rodear e a ralhar intempestivos com o homem. Então, como ele os escutava, e também eu os escutava, pensei: Ele é morto, ele é um espectro. E se ele é um fantasma, também eu hei de ser uma morta. Pois posso senti-lo dentro de mim, e consigo escutar todos esses cadáveres levantados das lápides para aqui desse lado do muro. Meu deus, estou sendo estuprada por alguém desencarnado. Sim, é isso, tanto é que da boca dele vinha um fétido odor de flores, murrinhentas, foi então que eu soube: Eu vim, esses anos todos eu vim, pelos esgotos.

especulações sobre o amor simples

pintura de Amedeo Modigliani.
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eu já tinha aprendido que
não se pode ser sincero com as
mulheres quando você está
completamente de quatro por elas
então resolvi mentir
menti menti menti menti
menti durante umas duas horas
até que passamos para ação
e por causa de tal ação era eu o
inoportuno que dormiria na
casa dela naquela noite
no outro dia pela manhã ela
pensasse o que fazer a meu respeito
por enquanto apenas
daríamos uma boa... você sabe
tão boa que a confundiríamos com amor
não é esse afinal um dos
dilemazinhos seriíssimos
da humanidade, quando o
sexo é muito bom a gente
acabar confundindo com amor?

terça-feira, 28 de julho de 2009

balbucios de blues

ela sabia tirar o cigarro do
maço feito sacasse uma
pistola da cartucheira
então me olhava com
bossa-nova nos olhos ao
mesmo tempo em que
atirava a queima-roupa sem
que qualquer outro resquício de
sentimento se denunciasse em
sua feição, depois a mão
esquerda apagava o cigarro no
cinzeiro enquanto sua boca
esfumaçada de vulgaridade
revelava a atitude de uma cantora
punk cujo silêncio era a
mais áspera balada de amor

segunda-feira, 27 de julho de 2009

notas para um livro bonito

três anos de idade
bermudinha preta
coxas grossas
joelhos intactos, engruvinhados
meias brancas
sapatinhos brancos tipo botinha
camiseta azul marinho por
baixo do casaquinho de fio azul claro
na mão esquerda
esparadrapo num dos dedos
sou loiro, penteado para o lado direito
olhos verdes
a boca num ângulo levemente emburrada
narizinho assim
rosto redondo
bochechas um tanto avermelhadas
dá vontade de esmagar
estou no pátio de uma casa
não dá para saber se é a nossa casa
a casa da infância
o chão se constitui de azulejos quebrados
colocados não como mosaico
mas aleatoriamente
ainda assim respeitando os encaixes
atrás de mim há uma trepadeira
verde escura, que importuna 90% da
parede branca
e é só o que consigo ver
eu ali como que numa fotografia
fragmento de paisagem maior e
mais complexa
o que está fora do quadro foi
esquecido para sempre

especulações sobre o amor simples

quando trepo com
uma mulher
sou essa mulher

especulações sobre o amor simples

sei das dificuldades para
se ter acesso ao gozo real da mulher
trata-se de algo inexprimível
é necessário o conhecimento de
um anatomista intuitivo e
a crença de que juntos
podemos chegar lá formando um
único odor pela contaminação mutua
nesses banhos de sexo o
mingau dos corpos é a redenção do
pecado original irremediável quando
trepo com uma mulher e
sou essa mulher

o mundo é cru, beibe, e o rock uma fogueira que nunca apaga

Jê reve de toi (http://vimeo.com/5479899)
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Ontem foi ducaralho o festival Rock de Inverno VII. Não cheguei a ver todas as bandas, pena.
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Eu não ia beber. Mas, porra, tava acompanhado do meu velho mestre Jaques Brand, o cara que vive me falando: Cê já ouviu isso com os Rolling Stones, e aquilo, etc? A noite prometia. Então pedi logo uma dose de conhaque pra abrir os trabalhos. E assim foi:
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Jê reve de toi me emocionou na última música, uma melodia bonita pra caramba, com um som eletrônico que não abre mão da organicidade de jeito nenhum. Foi bonito.
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Depois, Koti e os penitentes... pra mim esses caras fazem um som absolutamente cru e viril. Uma pegada das que mais gosto. As letras são pequenas sagas mundanas. Sem contar que eles me remetem às canções do Bertold Brecht com o Kurt Weill.
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Então veio Ruído/mm. Primeiro eu pensei: eles são a prova de que o rock não precisa de poetas. Depois pensei melhor: Mas essas guitarras todas... se isso não é poesia sonora, então não sei o que é. Me concentrei bastante no baixo do Rubens K. Deu pra entender o que afinal de contas move o cara. Depois do show fiquei a noite inteira, quando encontrava ele, dizendo: Porra, Rubão, cê é passional, velho. E ele: Eu sou passional, Leprê.
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Fellini... valeu muito a presença dessa banda lendária. O Flávio Jacobsen me disse assim antes dos caras entrarem no palco: Leprê, você vai assistir e vai sacar porque é que eu, a gente, toda a rapaziada é assim, esse show é histórico! E foi.
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Mordida é legal demais, o vocalista tem uma energia das mais contagiantes. O salão pega fogo, ninguém consegue não se divertir com essa piazada tocando forte e rápido no baile.
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E Lestics... eu já tava bêbado demais quando eles entraram pra fechar a noite. Mas deu pra curtir um pouco. Lestics faz um som bem raíz, vamos chamar assim, os dois pés no folk, e essa é uma sonoridade que a mim me sensibiliza. Não prestei a atenção devida as letras e tudo mais. Eu já tava mais preocupado com as garotas que eu e tio Jaques levamos pra casa.
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Por essas e outras é que vivo pensando: o mundo é cru, beibe, e o rock uma fogueira que nunca apaga.
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Como não bastasse, entro lá no blog do Rubens K (http://rkjazz.wordpress.com/) e me deparo com esse texto. Valeu, Rubão. Tudo de bom pra você em São Paulo. Pretendo em breve ir lá encher o saco de todos aqueles patifes (hehe). Foi muito importante pra mim conversar com você. Forte abraço, bróder.
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"Leprevost é escritor. É também um cara sensível e passional. É também um filho da mãe de primeira. É um daqueles caras, daqueles amigos, que é muito bom encontrar, dar um abraço e ficar do lado do cara, com a garrafa de cerveja pela metade, rindo de tudo que a vida nos empurra goela abaixo. É um daqueles caras que desistiu de esperar o resgate e saiu dando braçadas, oceano afora, da ilha deserta, do paraíso ou que merda seja onde more a tranquilidade, o comodismo e o conforto. Velho, obrigado pelas palavras. Vindo de você, porra, obrigado mesmo, brother. Um dia quem sabe as coisas aconteçam de uma maneira tranquila, mas agora ainda temos de dar porrada em meio mundo e, como você disse, estamos muito bem acompanhados, mas eles sempre em maior número. Não existe a “maneira mais fácil”, pelo menos por enquanto. Muita sorte com a vida. Seria bom que ela, a sorte, às vezes estivesse por perto quando todos forem embora. Grande abraço." Rubens K.

sábado, 25 de julho de 2009

notas para um livro bonito

você não é a porcaria de um robô
então o que fazer com a necessidade de
fazer as coisas diferentes se não
sabemos nem para onde olhar
se não sabemos quando será
positivo pôr as mãos no bolso ou
depreciativo acariciar o gato
o que fazer se não temos
onde ir senão às favas?
que confusão dos diabos
você se decepciona consigo
e acaba patinando
agora mesmo dá para ver seu
rosto se retorcendo como se
tivesse mascado limão
você não sabe mentir por muito tempo
a falsidade é a mais perfeita denúncia
banhos de fogo lavam mais do que água
mas o preço que se paga é muito alto
assim, vez ou outra
queimamos as solas dos pés
vasculhando bibliotecas de
navios afundados
furamos as palmas das mãos com espetos
vazamos os olhos em tragédias gregas exemplares
sempre que alguém está
prestes a desesperar chora baixo
tranca-se num cubículo qualquer
e o dia lá fora não é exatamente um
bibelô azulado e limpo que até
parece de mentira
e então virá a óbvia reflexão: santo Deus
não passo de um obsceno comedido
a nudez que encontro em mim corre
feito o rio de Heráclito e a cada dia me
sinto mais feio a apodrecer
então sons de alaúdes soarão em
excessos de balbúrdia que são
o meio possível para contribuir com
esquecimentos momentâneos
de resto só as contrações inexprimíveis
e é isso o que você conhece porque é
isso que existe, e é isso que existe porque é
isso que você inventa
uma nudez que vem por baixo da
nudez, os olhos abertos feito lanternas que
procuram alguém perdido na escuridão
e esse alguém é você mesmo com
olhos que também são lanternas a
procura de alguém perdido na escuridão
tudo como um apelo
no apartamento, livros e
vídeos de histórias
e são coisiquinhas tão infantis a dividir
prateleiras, odes mundanas de
páginas apunhaladas que
para o bem de todos
jamais se farão compreender totalmente
e a filosofia então não significa mais que
a escavação dos próprios pulsos em parágrafos
apunhalados, frutos sanguíneos que
em meio a nervos e cartilagens
restituam a vida
mas quem sabe nada disso seja possível
ou verdadeiro, ou até mesmo
plausível de ser cogitado
então você pensa em qualquer personagem da
literatura com o qual tenha
absolutamente se identificado, eis
monstrinhos semióticos jamais
serão felizes, você os vê sussurrar entre
lábios quando na sala do
apartamento soa alguma
balada do Nick Drake que
paira como morcego ferido
sobre o tapete rubro
você reconhece seus silêncios
cujos meandros não são
perscrutáveis, e eles desejam
sair ilesos dali mas se
convenceram que a tua tartamudez
é um privilégio porque podem
bebê-la nessa cinzenta tarde
do mês de julho, e é claro que
há o risco de cães latirem no
lado de fora, assim
como é possível que os
pestinhas dos vizinhos da
frente espionem o semi-sublime
festival de ininterruptas e
perfuradoras presenças
fantasmáticas no bailado sutil das
respirações em equilíbrio entre
o chá quente e o bafio da
fera humana em repouso quase
absoluto com o Uivo de
Allen Ginsberg numa das mãos
e esse quase estóico cidadão em quem
você se transformou, justamente
jamais será feliz, mas que bobagem
tal estupidificado desejo, dirão
alguns, felicidade é não
precisar dela, mas isso qualquer
leitor de revistas e livros de
auto-ajuda já pensa, ou pensa que
pensa, e você, o tolo, poderia perguntar
a cada um: o que é terrível, amigos?
para você? você? e você?
a resposta chegaria em
uníssono: a treva tentando
entrar debaixo das cobertas
criaturas bestiais do desejo a se
proliferarem nas gavetas
lágrimas que rasgam as faces feito
hélices de helicópteros
eis um rascunho do medo
mas essas são apenas suas
mínimas dimensões, um nada de
suas medidas, então de novo você
perguntaria, dessa vez (há muitos
por aí, basta olhar) para um bobo de
Shakespeare: o que é terrível?
e ele: só o que é terrível...
daí que você pode entender que
tudo o que não for péssimo
desastroso, nauseabundo, será
apenas o mundo se abrindo
em bondade sem que sejamos
capazes de descrevê-la em
especulações sobre o amor simples ou
até mesmo nos darmos conta, e afinal
talvez o bem jamais venha dos
que se fecham em seus frágeis
casulos, o que dizer dos que são
eles seus próprios bunkers?
é claro que a felicidade, esse
último capítulo das sessões da tarde
é uma balela, mesmo assim
apesar do clichê, é imperativo a
todo momento nos perguntarmos
se estamos ou não alegres e não
esperar resposta alguma
e, analisando de longe
seguros (seguros?) em casa
ter a sensação que sem umas
gotas de ódio ninguém teria conseguido
conseguido o quê?
chegar a tal e tal e idade
já que elas são um pouco a idade de sua raiva
de seus lamentos, de seus arrependimentos
sem isso ninguém, ou pode ser que
alguns consigam, é
possível, possivelmente
possivelmente, possivelmente os robôs consigam
os robôs e todas aqueles engrenagens a
nos gritar que sim
que podemos inclusive
anestesiar a realidade, mas todos seremos
nesse momento o espírito de
Hamlet baixando feito
um Exu nos motores das máquinas
nas engrenagens a
contradizer qualquer ilusão dopada
pelo fato de que não se sobrevive a tanto

festival rock de inverno VII

Esse aí é o Rubens K fazendo duas das coisas que mais gosta
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Diedrich e os Marlenes
ontem no John Bull Music Hall
durante o Festival Rock de Inverno VII

E eu na platéia, sóbrio
mas contagiado pela diversão que só o rock proporciona
Fotografado pelo lendário Renato Quege, um dos Marlenes
..
Permita-me dois brevíssimos depoimentos. 1: Fiquei puto por não ter chegado a tempo de assistir a Liquespace. Os caras fazem uma coisa tão inédita e singular que sempre é mais do que um show de rock, é um aprendizado. 2: Li a respeito do Rubens K a primeira vez no blog do Marião Botolotto. Aí comecei a frequentar o blog http://rkjazz.wordpress.com/ do músico. Um dia nos conhecemos pessoalmente e, porra, éramos amigos de velha data. Ontem o Rubão tava lá no Festival, contou que tá morando em São Paulo e coisa e tal. Precisa ter coragem pra largar tudo e cair em Sampa. Mas lá ele tem um monte de bróders, então tá tudo bem. Assim como o Mário, sempre achei que o Rubão escreve bem pra caralho. Agora mesmo entrei numas de passear pelo blog do cara e achei esse texto de agosto de 2008. Veja aí.
.
Sobre bunkers e desertos tem o mesmo céu limpo, cheio de estrelas
.
Minha vida corre por aí, pelas ruas de uma cidade quase estrangeira, sem graça, em meio a bunkers desertos – quem pode afirmar que é mesmo preciso uma bomba cair como uma praga pra destruir tudo? Depois de nove horas e um calor infernal, uma estrada cheia de percalços e ecos, depois de tudo e mais um pouco chego. Quem disse que é fácil chegar a algum lugar? A um objetivo então. Esqueça. Eu e meus quarenta e poucos anos não temos ilusões, só meias certezas que não são assim tão certas. Procuro desligar a cabeça, colocar a mente em outro lugar e quase tenho sucesso. Vejo uma praia deserta e uma canção ao fundo. Então uma bela garota sai do mar… pântanos engolem ela e meus sonhos pelas pernas. Era um sonho? Pesadelo, talvez. Procuro achar o interruptor no escuro. É foda quando não se tem certeza que ele está ali, esperando, num lugar que mal conheço. Sou como um lutador cego no meio do ringue, tentando adivinhar os sons do adversário e colocar meus golpes. Tenho alguns passos calculados, mas não sei por onde começar. Ouço tiros e alguém muito velho praguejando. Talvez eu fique assim também. Talvez não seja um velho. Talvez seja um papagaio, um gorila solitário, preso numa daquelas gaiolas, exposto no fundo de uma loja de animais em extinção. É quase assim que me sinto só que sem bananas por perto. Tudo certo se tiver uma boa trama, um bom meio e um final surpreendente. Tudo certo se tiver fôlego pra subir e descer as avenidas, calçadas e escadas. Tudo certo se eu acreditar que tenho certo talento pra suportar as adversidades. Tudo certo se alguma coisa não endurecer as pernas, os punhos e me deixar imóvel. Tudo certo se o dinheiro der pra comprar cervejas pra tomar sozinho quando todos forem pra casa esperar o dia seguinte. Tudo certo, penso. Consigo até sorrir um sorriso ingênuo, mas já é um começo. Talvez seja.
.Rubens K
.
Hoje o Festival continua. Na programação as bandas Fellini, Mordida, Jê reve de toi, Pão de Hambúrguer, Koti e os penitentes, Heitor e banda gentileza, Ruído/mm e Lestics.
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O Jhon Bull Music Hall fica na R. Engenheiro Rebouças, 1645. Fone: 41 3252-0706 e 3026-5050.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

notas para um livro bonito

por horas fico ouvindo a
chuva negra despencar
e a terra a receber como que
uma overdose de águas
penso: que bom, estou longe do
centro e sua ferocidade de
asfalto que leva a cubículos
cheios de alergia e
constipação nessa tarde em que
a torrente de chumbo líquido
cai mais e mais incomodando o
trânsito, atravancando os
negócios dos homens ditos de
bem, seu mercado, sua bolsa de
valores, as visitas de nem tão
obscuros interesses do
senhor prefeito à periferia...
eles todos que se danem...
até que me chegam aos olhos
montes inteiros deslizando feito
mousse de chocolate
imagens trágicas como as do
verão passado em Santa Catarina
enchentes, pessoas desamparadas
então me vejo obrigado a
perguntar: onde está o paraíso
onde está o paraíso, onde está
o paraíso, afinal de contas?
onde não está o inferno, evidentemente...
e assim prossigo me deixando
lavar pela chuva escura e sua
líquida batucada que não respeita
convenções musicais
e se esse não é um mau hábito, ora bolas
então por que é que eu
não sou uma árvore?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

especulações sobre o amor simples

você passou meses e meses
anos inteiros com uma pessoa e
o melhor momento que
tiveram juntos foi o
abraço de despedida?

o butô do mick jagger

Jagger, outro dia desses
.
Se você me perguntar, eu vou finalmente te revelar que nunca compreendi o rock´n roll, mas o que há pra ser entendido nessa demência de dinossauros?, eu nunca aprendi nem vou aprender a falar inglês, e como é que alguém compreende o rock se nunca vai escutar como se deve as canções do Bob Dylan?, mas que se foda, que se foda que eu tô perdendo conteúdos deslumbrantes das letras do Dylan, eu nunca entendi, tá percebendo...?
.
Tô, tô perceben...
.
...acontece que teve um momento em que o rock se tornou possível pra mim, foi quando resolvi eu mesma dar meus berros, igualzinho o Kurt dentro do teu estômago, ou você acha que alguém gritando lá dentro é privilégio só do teu estômago?, se você quer saber, sim, o rock mudou minha vida, assim como acontece com qualquer adolescente com o cérebro ainda em forma de girino, assim como acontece com qualquer um, eu poderia virar road de qualquer banda e ficaria feliz com uma merda dessas, eu poderia liderar o fã-clube da Sandy e Júnior e eu tava feliz, mas você não, você achava o rock´n roll revolucionário, tudo bem, não vou comprar essa briga, pelo menos a gente concorda que os Beatles foram um pouco mais que uma mera brincadeira de adolescentes, e eu compus um monte de canções mas elas só se tornaram alguma coisa na tua voz, eu só existi quando você cantou a minha vida, eu sou absolutamente dependente de você e não espero que você concorde com a minha idéia de que a tal da atitude rocker sempre tão almejada, treinada e esbanjada, na maioria das vezes não passa de algo completamente imbecil e ingênuo, e quando eu comecei a dar os meus próprios berros pelos porões da cidade, sinceramente, eu era a mais imbecil de todas, uma Nina Simone Jacu, até que você assumiu os vocais e eu nunca reclamei, porque aquilo com você era real, era a nossa potência, e a gente conquistou o mundo desse jeito, com a minha guitarra e a tua garganta e com a nossa mania de rir de tudo ao mesmo tempo em que vomitava monstros em cima deles, a gente era tragicamente vulgar, e isso nos conferia uma condição estóica, épica, e a crítica nos adorou, e mesmo os que tentavam nos derrubar acabavam esmagados que nem mosquitos, e você veio com aquela teoria que os vampiros começam mosquitos e evoluem até se tornarem verdadeiros vampirões, e a gente fez o nosso primeiro clip na esquina da casa do Dalton Trevisan e o caralho... (Algum tempo) Quer saber?, o que adianta ficar lembrando essa merda agora, só quero que você saiba que isso aqui não é sobre rock´n roll, até um dia desses eu nem sequer sabia escrever a palavra rock´n roll, eu escrevia com R, O, Q, U, E, N, R, R, O e um L só, isso aqui não é sobre rock´n roll, eu nem acho essa merda grande coisa, isso aqui é sobre amor, se tá entendo?
.
Eu...
.
É claro que você tá entendo, eu também vivo de um jeito queixoso, e quem me estica as mãos?, Edward mãos de tesoura?, eu não quero saber de nada disso, sou apenas uma garota tentando se manter acordada enquanto assiste de longe o Butô do Mick Jagger.
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(Silêncio, silêncio, silêncio, silêncio)
...
(...)
..
....às vezes eu tava na meio do show e pensava: Caralho, o que eu tô fazendo aqui?, poderia estar na casa dos meus avós, com meus primos assistindo A Praça é Nossa, e eu pensava: Se os músicos não são felizes, então é porque a felicidade definitivamente não existe, porra... Mas foi divertido pra caralho também...
.
Claro que foi...
.
...claro que foi, e suportar a chegada do tédio de tudo talvez seja a maior façanha do ser humano, quer abandonar tudo?, abandona, mas abandona por outras coisas, por outra merda qualquer, mas não dá pra abandonar algo que você tem, que é você em troca desse nada utópico, quer morrer?, quer se matar?, você já se mata faz tempo, você se mata todo dia porque na verdade você não quer se matar, vamos jogar limpo, não tem faz de conta nem porcaria nenhuma, a gente fez parte de uma banda que foi fudidamente produtiva, foi lindo enquanto durou, mesmo o Lesma não é a pior pessoa do mundo, é verdade que nunca a gente teve um baixista que prestasse, mas que se foda, o baixo não serve pra merda nenhuma mesmo, não dá pra enganar ninguém de cima de um palco, pelo menos eu não conseguia, pelo menos eu me esforçava pra ser real, íntegra, tudo que eu sei é que eu sempre adorei subir lá na frente da platéia e dar uns berros ao teu lado, depois passar longas madrugadas no teu quarto no hotel conversando sobre os Yardbirds, ou sobre como o Roberto Carlos era o maior roqueiro do país, justamente porque ele era o mais cafona, e como a gente nunca chegou aos pés dessa gente e mesmo assim vendia discos feito Red Bull, então eu sempre ficava imaginando e me comovendo com essas coisas, tipo o Robertão indo visitar o Caetano Veloso no exílio em Londres, e lá tomando uns chás de fresco que provavelmente o Caetano serviu pra ele, o Rei cantando As curvas da estrada de Santos e o Caetano chorando, emocionado pra caralho, e o Rei dizendo apenas um bobo, e juro, eu nunca entendi, apesar da tua história toda, não dava pra entender por que você sempre tinha que ser tão brutal, porra, o que a gente era afinal de contas?, duas compositoras de baladinhas pra casais dançarem agarrados, a gente sempre foi isso, que se foda se um dia nos obrigamos a gritar tira o pé do chão, foda-se, eu não fiz isso à contra gosto, você também não, essa aqui é a nossa Tumba, a velha garagem de guerra, de guerra, foi aqui que a gente inventou as nossas batalhas, e elas ainda não chegaram ao fim, eu não continuei vindo aqui porque tava ganhando dinheiro pra caralho, nem era por amor à arte e essas merdas que vivem dizendo, eu sempre voltava pra cá porque era como se eu estivesse voltando pra casa, se você me perguntasse agora porque é que eu continuei ao lado de uma demente como você durante todos esses anos, eu ia te dizer que foi porque o que a gente faz não é pra qualquer um.
.
São dois trechos da minha peça O Butô do Mick Jagger.
Porque tenho uma banda outra vez.
Bota pra fudê Drinks Baratinhos!

terça-feira, 21 de julho de 2009

uma epígrafe

“...travaram amizade e começaram a brincar um com o outro daquela maneira nervosa e meio tímida com que as bestas ferozes negam a sua ferocidade.”
Jack London
O chamado da floresta

segunda-feira, 20 de julho de 2009

especulações sobre o amor simples

A queda dos Anjos, de Bruegel
.
para meus amigos,
eles sabem quem são.
.
se você olha nos olhos de um homem e
vê as paisagens de dentro, pode estar certo
ali está o amor
se você cuida de uma criança mesmo
não sendo seu genitor, saiba
nisso há amor
no vizinho ao telefone com o
filho que está longe de casa
na meretriz recordando os
pais que já se foram
ou na vovó pensando em
como um dia desses foi alegre
em alguém que agora olha
fotografias e diz: ninguém ama sozinho
dê um telefonema pras tuas tias
ninguém ama estando só
não custa nada ser legal
o amor é tão bonzinho
mas também é o lobo malvado de um
conto em que o final é um
ensinamento edificante
alguém sugere: tente, escolha, plante
colha, cante o amor e ele
será uma fábula e tanto
não explique o que fez
descomplique o que virá
belisque-se para saber que
não está sonhando, pisque lentamente
as pálpebras são o que temos de
melhor para demonstrar gratidão
pratique o amor e ele será
um exercício para saúde
saúde o amor e ele trará uma
mesa cheia de amigos e bons vícios
talvez também alguma saudade
e mesmo assim o amor é
sempre um começo empilhado em
cima de outro começo que
por sua vez está sobre outro ainda
isso é irrefutável, tanto é
verdade que vem no
vagido de qualquer recém nascido
mas também é o amor corações
dilacerados por metáforas
sentimentalismo e tanta caraminhola
e por isso quem ama ao longo da
vida tenta em vão restabelecer vezes sem
paz a poda do cordão umbilical
quem ama sempre está
a colar penas umas as outras com
o intuito de produzir asas
mas vai que o paraíso é mundano e
quase sempre tão reles quanto
qualquer outra coisa
quem ama ama, isso é
uma possível verdade
quem ama ama quem ama, eis
mas mesmo quem ama nunca
conseguirá ser angelical

domingo, 19 de julho de 2009

especulações sobre o amor simples

sei que seria muito belo tudo isso
caso fosse mais simples
quais os motivos então?
basicamente esses: das que me
presentearam com um ácido boquete
a dela parecia ser a boca mais faminta
ela escorregava seu corpo damasco
derretido sobre o meu
uma lâmina que conhecia meu umbigo
69, nariz, eu a penetrava também com
olhos e pálpebras, sal sobre a lesma
protetor solar em queimadura de terceiro grau
odores das axilas, fedores das virilhas
uma banho e eu a degustava, enólogo
especialista em líquidos e
fragrâncias combinados... isso...
mas não se domina uma mulher
assim como não se domina o mar ou
mesmo nuvens, não se dominam
lágrimas, secreções, infernos
há mesmo um par de motivações: beijar seu
ventre era o mesmo que não dar fim ao
que nos fazia morrer de esperança em
esperança acreditando que as flores eram
por onde o inferno respirava dentes e
músculos, menstruação e
o suco da saliva também formavam o
labirinto complexo daquele verão que
expunha a grande teta da fertilidade
e em nós só o que havia eram
sequências irresponsáveis de
ressurreições para gemidos futuros
em orgasmos lavados por
novas labaredas purificadoras
agora estou aqui clivado que nem uma fenda
e ela só se lança em meus braços como que
numa eventualidade premeditada
as suas intenções são sangue contra treva
travas contra asas, brasa contra sal
isso logo comigo, com ela
conosco, os dois que não somos mais só dois
desde de cedo eu sabia muito bem que
havia me transformado em seu estômago
em suas amígdalas, em seu cu
em suas sobrancelhas e ela em meu fígado
meus pulmões, meus tímpanos, minhas bolas
éramos e somos esses vários que
não esperavam jamais aquele resvalar de
dedos no momento em que pedimos
água de coco prosaicamente na
Casa Amarela do Barigui no dia em que
tudo começou e começamos a
foder um o outro desde as conversas
preliminares que são já um jeito de trepar com
quem se trepará e agora é isso, meus braços
transformados em tentáculos de polvo a
abraçar o ar poluído por sua presensa
a pele e a bocarra dela como as
de um crocodilo que ficará ao meu lado
quanto mais precisar ir embora, não
não são minhas mãos em pinças, patolas de
caranguejo que a impedem partir
mas nossa ternura feita de garras e não dedos
chicotes e não línguas, camisas de força e
não abraços, chave e fechadura
não pau e buceta

sábado, 18 de julho de 2009

notas para um livro bonito

agora estou forte
agora estou forte
e você também está
e você também
as pessoas ficam quando
não precisam
as pessoas ficam fortes
quando não precisam mais
lutar lutar lutar

sexta-feira, 17 de julho de 2009

amargava sabe-se lá em que abismos

Rodrigo de Souza Leão
.
Bia de Luna
.
A primeira pessoa que me falou sobre o escritor carioca Rodrigo de Souza Leão foi o poeta Fernando Koproski, que havia concedido uma entrevista a ele. Então, um pouco de longe acompanhei a produção de Rodrigo. Lia suas resenhas na Folha de São Paulo. Lia eventualmente o seu blog http://www.lowcura.blogspot.com/. Ele foi um profícuo escritor, de inegável qualidade. A obra está aí para sempre.
.
Imagino (mas não alcanço um isso) o sofrimento que esse rapaz passou ao longo da vida, lutando, obrigado a conviver com a esquizofrenia. Vejo muitos artistas posando de loucos por aí. Se soubéssemos o que realmente é a loucura, nos envergonharíamos de tratar a doença mental com tanta banalidade em nossa vida comezinha. Isso só revela quanto somos ignorantes e alienados em relação a tudo o que ela representa na história trágica das civilizações e na vida particular daqueles que sofrem.
.
Algumas vezes estive muito próximo da poeta Bia de Luna, que também morreu numa clínica psiquiátrica de ataque cardíaco na mais angustiada solidão. Alguém que conheço intimamente e também estava internada foi a última pessoa que conversou com Bia e a primeira a pegá-la nos braços já sem vida. Todos nós os amigos tínhamos resistências, senões, escusas para a Bia. Não era fácil para a gente, quem iria se comprometer? Todavia, estou certo que muita gente a amou intensamente. E me incluo entre os seus principais admiradores.
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Havia ocasiões em que Bia parecia absolutamente curada disso que não tem cura. Sua simpatia, sua vivacidade desmentiam qualquer diagnóstico de condenação. Noutras, amargava sabe-se lá em que abismos. Mesmo assim ela não parou de escrever um dia sequer durante a vida. Pergunto-me onde e sob o poder de quem estará esse material.
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Diferentemente do Rodrigo que registrava seus poemas num blog e foi bem editado, para proveito da obra e sorte dos leitores, Bia, por sua vez, tinha um processo criativo dos mais caóticos. Organizar o material exigirá paciência e muito carinho. Espero que alguém o faça. E se quiserem colocar em minhas mãos tal responsabilidade, não me esquivarei. A poesia de Bia de Luna merece atenção e revisão. Talvez, como investimento no presente para os futuros, a Secretaria de Estado da Cultura ou mesmo a Fundação Cultural de Curitiba devessem cuidar de uma reedição de seus livros trazendo junto material inédito, isso sem que houvesse atrapalho em burocracias demoradas.
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Bia morreu ainda jovem. Foi o ofício de escritora, no entanto, que na minha opinião a ajudou chegar a casa dos 50 e poucos anos, senão teria nos deixado antes. Evoquei minha singela amiga porque encontro pontos de ligação entre ela e Rodrigo, em especial dois deles: a poesia e a loucura.
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De todo modo, no caso do poeta carioca, o que me deixa admirado é que ele, embora investigasse a fundo sua condição, em sua obra artística e crítica revelou a todo momento lucidez lucidez e mais lucidez. Não foi a doença que o presenteou com a arte, assim como acredito que não foi a doença de Van Gogh que o fez ser um gênio da pintura. Muito pelo contrário, creio com bastante ênfase que a arte, nesses casos, funciona como uma respirada de alívio das mais fundas. É algo que domina a doença, que controla a dor e o sofrimento e faz com que o mundo se torne um lugar possível, plausível. Não é um estado de graça, mas uma vontade, algo psicofísico, um maneira que o ser humano encontra para ser maior que si mesmo quando enfrenta conscientemente e sem piedade a sua pior fraqueza.
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Eu não conhecia o Rodrigo de Sousa Leão pessoalmente, nem nunca nos falamos via internet ou telefone. Eu não conhecia Michael Jackson. Eu não conhecia Pina Bausch. Mas sabia de seus trabalhos. Além de tanta gente que jamais saberemos, o mês de julho levou embora três fantásticos artistas. Festejo agora suas obras e cuntinuarei a festejar no futuro. Lamento profundamente tais perdas humanas. Eu que conhecia muito bem a graciosa Bia de Luna, que se despediu no verão de 2008.
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De tudo restou
Uma solidão amarga
E corrosiva. Poro a Poro.
- E é quando suor e lágrimas
Se encontram numa pororoca
Larga e amiga que
A saudade bate. Choro.
.
Bia de Luna
do livro Clivagens.
.
Morrendo a cada
Dez minutos uma vez
.
O círculo se fecha
E cada vez mais
.
O que vai indo vai
Pra nunca mais
.
O que fica é o futuro
Uma criança na foto
.
Por que nenhuma
Mãe guardou
.
Nossas fotos
Quando adultos
.
Rodrigo de Souza Leão
Sunday, June 14, 2009
do blog dele

quinta-feira, 16 de julho de 2009

antónio lobo antunes

na foto, Lobo Antunes trabalhando
.
A revista Época, de 13 de julho, entrevistou o escritor António Lobo Antunes. Destaco esse trecho.
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Não entrei na literatura para ser um escritor qualquer. Quero ser maior que Tolstói ou Joyce – e acho que todo escritor tem de pensar assim, senão ele não produz nada. Ele tem de pensar em coisas grandes. Comecei a escrever porque queria revolucionar o romance, subverter a literatura, transformá-la em algo que ainda não existia, ofuscar os antepassados. Quero colocar tudo num livro, o mundo inteiro, minha vida inteira. Quero praticar a obra de arte total que imaginava Richard Wagner. Escrevo livros impossíveis. Se me ocorre uma história que me sinto incapaz de formular, é aí que começo um livro. Quero escrever sobre o que não entendo. É assim que vou contornando os problemas, e chamam isso de estilo experimental. Na verdade, é uma atitude de enfrentamento. E de liberdade. É por isso que não creio na profundidade. O que existem são infinitas superfícies superpostas. Quando você se aprofunda demais em um assunto, acaba saindo pelo outro lado, de mãos abanando. Escrever é um ato impossível, porque tudo o que interessa vem antes das palavras, como as intenções, os desejos, a loucura. Os poetas são maiores porque conseguem transferir essas coisas inomináveis para as palavras. Mas escrever também é um ofício, como o de carpinteiro. É preciso conhecer a técnica, para abandoná-la. Todo grande livro é uma reflexão profunda sobre a arte de escrever. Cada livro meu tem de ser um mundo.
.António Lobo Antunes

notas para um livro bonito

não preciso nenhum paraíso
não estou em busca disso
o dia em que eu e a geada ficarmos de
bem um com o outro, o dia em que
eu e o Rio de Janeiro e não quero
mais nada, estou satisfeito
quando escutar suspiros apagando a
tarde em que os automóveis desistiram
de dar partida como que numa
greve dos motores, satisfeito em
pisar descalço numa fogueira
de pinhas e me dar conta que
ainda nascerei em 1975 quando
nevar em Curitiba
não preciso nenhum paraíso
estarei feliz se a caneta bic estourar
manchando a tentativa de um
desenho original, feliz pelo
cheiro da minha guria impregnado em
mim na ponta dos dedos, o nariz
respirando suas axilas e
a vocação que a fala dela tem
para letra de música, realmente
não preciso nenhum paraíso
nenhum, nada, nada mesmo
então por que não posso parar de
descascar chicletes de nicotina
por que não sou capaz de cantar no
chuveiro, por que essa incessante ode
mundana vivida aos tropeções
idas e vindas para um bairro distante
chamado “um dia seremos felizes” e
esse banzo fudido da infância natal
por quê, por que a óbvia pergunta que
com recorrência me faço: até quando
você vai continuar perdendo?

quarta-feira, 15 de julho de 2009

especulações sobre o amor simples

se você já se arvorou a
perfurar a crosta terrestre
a mover lavas e cinzas
então saberá a que me refiro.
antes você não tinha medo de
funduras, não é mesmo?
e teu esforço para que
vocês gozassem ao mesmo tempo se
assemelhava a capacidade que
alguns têm de escalar montanhas
pela parte de dentro
sem necessitar equipamento de
segurança. daí vai que
aquela pessoa por algum tempo
era uma espécie de túnel e
tudo que você mais desejava era
nunca encontrar a saída.
até o dia em que você
começou a percebe que
vinha se transformando
num claustrofóbico, mas isso só
aconteceu quando já
era tarde demais e você
estava completamete soterrado
por tantos escombros.

ducaralho, alexandre frança

Essa é a capa do novo cd Música de apartamento, do meu irmãozinho Alexandre França. Já tem três canções desse trabalho lá no Myspace. Vai lá: myspace.com/alexandrefranca.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

viva o mestre ivan justen

Terror
.
Um fantasma percorre o universo.
Alguns espectros erram pela galáxia.
Vários ectoplasmas rondam este planeta.
Dezenas de almas trilham a cidade.
Legiões de sombras se arrastam pelo bairro.
Milhões de vultos assombram o edifício.
Infinitos espíritos pairam sobre o quarto.
..
Quantas aparições frequentam o teu cérebro?
..
Ivan Justen

domingo, 12 de julho de 2009

canções que afagam condenados

Esse na foto é o Luís Capucho
.
Máquina de escrever
.
Meu coração é uma máquina de escrever
As paixões passam, as canções ficam
Os poemas respiram nas prisões
Pra ler um verso, ouvir
Escutar meu coração falar
Até se calar a pulsação
Meu coração é uma máquina de escrever
No papel da solidão
Meu coração é
Da era de Gutemberg
Meu coração se ergue
Meu coração é
Uma impressão meu coração
Já era
Quando ainda não era a palavra emoção
Mas há
Palavras em meu coração
Letras e sons
Brinquedos e diversões
Que passem as paixões
Que fiquem as canções
Nos poemas nos batimentos das teclas da
máquina de escrever
Meu coração é uma máquina de escrever
ilusões
Meu coração é uma máquina de escrever
É só você bater
Pra entrar na minha história
.
Luís capucho e Mathilda kóvak

especulações sobre o amor simples

Elísio Brandão
para nós o amor é
lindo lindo lindo e
sempre vamos sozinhos um
dentro do amor do outro e
o amor é tudo tudo
tudo, duas solidões
dividindo o mesmo
guarda-chuva em
direção a um filme
francês e o amor salva
salva salva compondo
músicas redentoras para
ouvirmos quando estivermos
deitados e de algum modo
haverá detritos detritos
detritos no colchão
*essa é pra você
que adora essas especulações e
ontém viu comigo futuros de glória,
os nossos e de nossos queridos.

especulações sobre o amor simples

Busto do poeta latino Catulo
.
petrificado por quais razões
estarei disposto a abrir meu
busto inteiro feito abrisse um zíper?
e é claro que haverá fartura de mel.
mas também é óbvio assim
que o amor seja algo de
difícil mastigação feito
um punhado de abelhas iradas por
terem presenciado sua colméia ser
aniquilada sem piedade.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

manual de putz sem pesares

por Elísio Brandão
Big Rato

Tome calmante, antidepressivo, mas não reclame da vida. Não fuja, teu quarto no predinho vagabundo de periferia é o último dos paraísos. Tuas mãos conseguiram entrar na moda, já pedem esmola. Teu talento é sem colheita. Chupar a luz de uma teta te consola. Vai, Big Rato, vai beber vento, vai comer cimento qual fosse bife. Teu Oásis cadê? Tuas sacolas onde estão? Vai se lambuzar da tua fome sem talher. Do marshmallow vai, Big Rato, raspar os restos com deleite. Vai arranhar a própria entranha, cavar a banha das tuas tripas com os dentes. Vai se alimentar da treva e de uma ripa de breu, consumir-se como teu corpo fosse um farnel. Vai ter a carne em hipnose, sorver a hipocondria. Vai mirar a ira rala da ralé, a ironia do alento. Vai, Big R, vai procriar tua hierarquia, batizar tuas fenomenologias. Vai cegar teus dedos, teus aleijões com ferrugem parafusada na alma. Vai fornicar monóxido de carbono. Vai ferramentar a dor. Brigar por lixo com os cachorros da vizinhança. Endurecer a metalurgia com a liturgia das chagas. Vai sonhar que apalpa a tua glória inteira. Vai dar tiros, Big Big, bein-bein, pá-pá. Ah, Big Rato, grande errado, para que se inibir de palitar os dentes em público se você está sozinho entre tantos sozinhos?

ondestou blues

por Elísio Brandão
.
uma bicicleta sem garupa
uma mochila sem viagem
um abraço-arapauca
nenhum pedido de desculpa
tempestade em copo trincado
desastres e milagres pelo SUS
tudo vai parado, sorriso sem foz
SOS estamos sós
aqui em Ondestou blues

um velório só de vivos
e o zumbi que vem dar boa noite
corações grandes pneus lisos
personagens sem ter livros
colibris no fundo da garrafa
o delírio de alguns cus
às vezes a beleza é algo atroz
SOS estamos sós
aqui em Ondestou blues

incêndio nos cílios das visões
navalhadas ao pé do ouvido
tudo que duvida é doído
ratoeiras para caminhões
canibais mascam sugam rasgam
dietéticos chicletes de luz
numa foto com arranjos para voz
SOS estamos sós
aqui em Ondestou blues

quinta-feira, 9 de julho de 2009

1º festival de inverno samba rock

.
Certeza que vai ser legal. Meus parceiros de canções Carlito Birolli e Cauê Menandro, junto da beldade Iria Braga (cantora que nos deixa "bocabertos"), com sua banda Molungo, são uma das ótimas atrações da noite. Ainda a Regra 4, comandada pelo talentosíssimo Eugênio Fim. Mais Jacobloco, conjunto que chegou abalando as estruturas, acendendo chamas altas em nossas noites geladas. E o PC, meu velho companheiro de judô na adolescência, hoje dono do Ambiental Bar, com sua dupla PC E Thiaguinho. Também a banda Prestatenção, que faz um dos melhores sambas que Curitiba já viu e ouviu, raíz e suíngue. Para completar, direto do Rio de Janeiro, Diogo Nogueira, filho (nada mais nada menos) de João Nogueira, um dos maiores mestres do samba carioca. E o piá vem com a bagagem abarrotada de convivências com verdadeiros mitos da música popular brasileira. Nessa noite o bumbo vai comer solto. Faz tempo que tô querendo mexemexer o esqueleto bem revestido. Taí a oportunidade.
.
10 de julho, sexta-feira.
22 horas.
Na Master Hall.

o crepúsculo

Eis a equipe de O Crepúsculo posando após a cena final: Raquel, Novack (ensaguentado sobre os azulejos frios), Miles, Fabz, Bruno, Michele, Lepre (recuperando-se ainda dos tiros à queima roupa) e Japa (ensaiando um ser ou não ser com o crânio de uma anciã entre os braços).

quarta-feira, 8 de julho de 2009

especulações sobre o amor simples

amor não correspondido
é doença psicossomática.
permita-me reformular: na minha opinião
amor não correspondido não é amor.
ou até, pensando melhor
acho que só é amor quando a realidade
perde a insignificância, entende?
engraçado, o amor tem ouvido absoluto
mas é surdo a certos chamados.
e se o amor for uma pedra maciça com
um oco por dentro?
agora é que me confundi todo, ai ai ai
preciso pensar.
não! não pense.

terça-feira, 7 de julho de 2009

especulações sobre o amor simples

Nastassja Kinski em cena de Paris/Texas, de Wim Wenders..
.
no mínimo
(na superfície da pele)
três resultados
obtemos dos encontros em
nossas vidas.
podem ter sido péssimos
dando motivos para
arrependimentos.
(o que dizer das entranhas?)
podem ter sido indiferentes
e a indiferença sempre é
algo péssimo
que então dará
motivos para
arrependimentos.
(o corpo sente falta
e o pensemento é
o corpo possível de
tal ausência)
podem ter sido ótimos
por isso mesmo, ao fim
conter motivos dolorosos de
sobra para arrependimentos.
(minha derme machucada é
meu avesso mais fundo)
e eu não me arrependo.

o crepúsculo

Japa Biet mirando o alvo.
.
Raquel Deliberali dá uma pausa para cigarrilha enquanto eu tento descascar uma pinha.
.
Eu e Bruno Zotto preparando a ação.
.
O diretor Fabiano Vianna confirma o tiro certeiro do fotógrafo Japa Biet.
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Parte da locação, onde segundo a lenda morreu uma menia.
..
Eu seguindo os passos de Marco Novack.

Bruno, Fabz e Japa armam o quadro para mim e Novack.
.
No último domingo, 5 de julho, ao lado de Marco Novack, atuei na nova fotonovela de O Crepúsculo, de Fabiano Vianna. Fotografamos fora da cidade, num cenário idílico e, vez ou outra, desolador. O frio cortante que fazia nos ajudou a ir fundo na aventura sobrenatural. Se existe o limbo, sua temperatura deve ser essa de mais ou menos 3 ou 4 graus. De todo modo, não foi difícil suportar o vento e a chuva, pois a equipe que lá estava era bastante calorosa. Raquel Deliberali, estrela de fotonovelas anteriores, foi quem fez a maioria desses registros de making of.
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Veja mais:

segunda-feira, 6 de julho de 2009

manual de putz sem pesares

Aquário

Sobrevive-se. Assim temos a certeza de que o dia de ontem existiu. Sobrevive-se. E também porque Samuel continua aqui na minha frente. E o que ele faz agora, que faz com que eu chegue a essa conclusão? Recorda. Samuel recorda aquilo no que acredita. E no que ele acredita? Samuel acredita que o tempo aqui onde estamos não avança. Eu vejo, todavia, o resultado do talho dos anos em todas suas feições. Então Samuel recorda, não um tempo perdido atrás de sua nuca, porém um presente impalpável bailando na ponta do seu nariz. Eis o quê, sua memória. Quando foi que tudo se deu? Agora, enquanto Samuel me narra quanto eu o narro. A infância de Samuel está com o Samuel de agora. O ônibus que o levou para escola leva o Samuel de agora para aquela escola que é a escola de agora para o Samuel de outrora no Samuel desse momento. Tudo ocorre aqui. Este, o lugar de dentro e de fora de Samuel. No entanto, é Samuel incapaz de reconhecer-se no que diz. Pois quando diz, imprime. E o impresso é já passado, e Samuel é incapaz de enxergar suas costas. Analítico demais quando delira o Samuel. Delirante demais quando tento registrar migalhas de ações com as quais Samuel diariamente me presenteia. Às vezes ele me olha pelo vidro do aquário, como que me pressentindo (já que de dentro para fora o vidro do aquário é espelhado) e pergunta: Qual foi a última vez que geou? Talvez, aliás, faça a pergunta a si mesmo. Nunca saberei. Se ao menos Samuel conhecesse meu nome. Ou houvesse me dada um apelido, enfim, algo a que se apegar. Mas não, tudo o que diz é “qual foi a última vez que geou?” Eu, em contrapartida, apenas sussurro: Samuel, este não é o aposento da mamãe. As mães, sempre as mães. Samuel também teve a sua. A mãe de Samuel lhe cobrava que estudasse. Samuel não gostava de estudar. Gostava de fingir que ia para escola. Ia a pé e sozinho, não titubeava em desviar o caminho e sumir o dia inteiro. Voltava para casa sempre com a boca suja de terra. Agora Samuel está comendo bem. Em verdade “bem” não é a palavra. A alimentação dele é balanceada. Ele mesmo se serve. O estoque é reposto uma vez na semana. Às vezes Samuel acaba com o estoque rapidamente e fica sem alimento até a data da reposição. A geladeira foi uma conquista de Samuel. A manutenção dos alimentos, para que durem a semana toda é o seu próximo passo. Ele está em frente a geladeira agora. Com dificuldade abre o freezer. Tira uma garrafa presa no gelo. Destampa a garrafa. Bebe metade do líquido transparente no gargalo. Tampa a garrafa. Fecha o freezer. Chacoalha a cabeça. Deita-se. Samuel vai dormir por horas. Não lembro como foi, nem de quem trouxe Samuel para cá, ou mesmo por quê. Chamo o lugar de Aquário por falta de criatividade, além do mais Samuel não é nenhum peixe, isto é óbvio. Ele não me escuta, nem me enxerga, eu já disse. Cada vez que Samuel ofega, ofego eu. Com certeza já perdi as contas de quanto tempo Samuel está aqui. Assusta-me, no entanto, a quantidade de moscas que há ao redor dele sempre que acorda. Os animais sem ferrão não têm medo de se coçar. Samuel vive com a pele irritadiça. As moscas não o respeitam, possivelmente porque não compreendem sua linguagem, seus gestos não conclusivos, seu olhar de “não se aproxime.” Eis a galeria dos olhares de Samuel: não se compadeça. Ou: piedade? E ainda: aqui ó pra vocês! Falo do olhar de Samuel, de qualquer modo, não devo esquecer que no começo era todo ele tão somente uma boca. Se nunca me escutou será surdo? Contra quais exterioridades então tanto pragueja? Aos poucos vi surgir testa, cabelos, talvez o cérebro, senão o que o seu perturbado fluxo de consciência? Agora é nítido o nariz que escorre sem parar, sangue. Samuel já existe do pescoço, pomo de adão, para cima. Então passa a ter um tronco, nada opulento, magro, raquítico. Depois, braços, cotovelos que doem, mãos (garras?), dedos com unhas compridas, grossas e amarelas. E finalmente a bacia, órgãos sexuais, coxas, joelhos, panturrilhas, pés, tendões, calcanhares. O que afirmo, nego. Samuel ainda é uma boca. E não saberia executar o que fosse que precise para ser compreendido. Abrevio Samuel: Ele não é plausível, não é coerente. Samuel não executa suas ações sem que elas se desarticulem para além dos limites da verossimilhança. Samuel, esta pantomima do que foi no que é. Um déjà-vu? Ou uma permanência? E eu? Eu não. Sou mera visita. Esqueci-me do que a permanência é, esqueci, não porque não a deseje, mas por ser permanente o que me esfarela. Sou muitos esquecidos farelos. Não me aliei à Samuel. Ele é minha sombra, está e não está, dependendo de como incide a luz. Pergunto-me, é o que faço com insistência, perguntar-me. O que dizer a propósito da ênfase que têm os ausentes para mim. Esta é uma questão. Samuel também é uma questão, mas ele está aqui, dentro do Aquário. Minha nossa, sou apenas um enfermeiro confuso. Não sei se recebi ordens de me ocupar de Samuel ou se o faço justamente por não ter com o que me preocupar. Os dois, certamente, ou nenhum, talvez. Se Samuel recorda, recorda-me? Recordo eu. Foi assim que vim parar aqui: Estou em férias e me ligam: Você foi agraciado, venha agora. Uma convocação? Sim, é urgente, venha, é seu trabalho. Interrompo as férias e venho, afinal é meu trabalho. Mínimos dramas, money. A princípio, não estou em busca de uma fuga. Samuel, segundo me informam os superiores, está. Improvável a fuga de Samuel já que ele preso não está. Sua condição de agora, dizem, é para seu próprio bem. Aqui Samuel está seguro, fazem-me acreditar. Ele não é decrépito, degradado ou mutilado. Discordo. E eu? Eu não. Samuel é que é um homem-rato, um rato-humano. Pergunto-me: O que será que se pergunta Samuel? Que a paz é um monólogo? Que paz, a interior? Então é esse o assunto? Duvido. Dêem-me cólera, não me dêem paz. Sou apenas o ouvinte de Samuel. Não disputo. Discutir, não discuto. Cuido dele? Em termos. Eu o observo, com certeza (sem certezas) eu o observo. Tão somente uma orelha e dois olhos é o que sou. Agora não, quem sabe pela manhã Samuel colheu uvas. Ele me deu a honra dessa contra-carta. Disse-me: É assim que se dança, redigindo. Porque dança Samuel não consegue dormir. Fecha as pálpebras e prossegue ligado feito uma lâmpada detrás do abajur. A vacina, hora da vacina, ele mesmo a aplica em seu bíceps. Sem ela como pegará no sono se mesmo o sono está em chamas entre o que é e o que foi Samuel? Samuel não dorme, baba. Samuel anestesiado. E Samuel é a fúria de Samuel. Decepo agora minha branca mão enluvada de látex. Por quê? Porque acabo de dar uma facada em Samuel. E por que dei uma facada em Samuel? Porque dei uma facada em Samuel, fujo. Fujo? Fujo. Um dia fera, noutro verme, tanto eu quanto ele. Foi ele quem começou, a culpa é dele, Samuel avançou sobre mim aquela sua mão bordô, cheia de veias. Devo ter-lhe dito que parasse com aquilo. Sim, eu sou pacífico. Devo ter dado o aviso. Sim, eu dei o aviso: Pare com isso, Samuel, eu disse, devo ter dito. E a mão dele vindo, um vermelho espesso, a abrir e fechar. A virulenta mão de Samuel. Garras, sim, as garras de um homem-rato. E então: Áhááháááhhh!, a facada. Agora não estou mais por perto. Não sei onde estou, nem quão longe. Novas férias, forçadas, próximo do que não conheço. E o que não conheço não reconheço. E no que não reconheço não me reconheço. Isso me assusta, isso de começar do zero. Sim, já devem ter encontrado o corpo de Samuel, digo, do que foi um dia Samuel. Agora é ele um mingau rubro e pegajoso estendido no fundo do Aquário.

notas para um livro bonito

a cortina mastiga o sol
venta e as portas batendo dão seu show

a estante anda tonta de ler os clássicos
como cabem em suas páginas
tantas paisagens e palácios?

o liquidificador desmonta a fruta e a verdura
pra que a gente possa seguir saudável
consumindo cultura

a TV com mensagens de realismo fantástico
quanta coisa diariamente
carregamos em sacolinhas de plástico

a geladeira de barriga cheia
é a melhor amiga da nossa santa ceia

o aparelho de som fumante passivo
nos dias em que estou meio depressivo
a solidão é uma tiete

mas quando estou alegre
até a cadeira se mete a dançar
as cadeiras são nosso constante par

noutro dia a cama reclama quando
atrasado preciso ir embora
pena não poder leva-la comigo
lá pra fora, no trabalho, no recreio

por eles, também por eles
amanheço, vivo e creio

sexta-feira, 3 de julho de 2009

especulações sobre o amor simples

se você pensa que as mulheres
fazem comigo o que elas querem
está mais do que certa
já fiquei esquecido dentro de
mulheres que eram freezers
já derreti em fogo brando na
palma da mão de confeiteiras sádicas
perito em carícias, já fui
confundido com Marlon Brando
(Último Tango em Paris)
no segundo andar de
sobradinhos pré-fabricados da periferia
já arquitetei planos e
mais planos de conquista
já me meti entre coxas com odores
dos quais nunca mais me livrei
parido nem sei quantas vezes
de mulheres que eram eu
mulheres que eram o diabo, o bicho
mulheres que eram uma catedral
mulheres que eram peixes de
águas profundas, escuras
mulheres que eram o
pico mais alto do planeta
mulheres cujo o corpo não era feito de
ossos e músculos, mas de lágrimas
outras com as quais você trepava com a
voz mais do que com o ventre
mulheres em quem a beleza era doença
em quem a doença se equiparava a Deus
mulheres que não gozavam, choviam
que em cada beijo continham uma reza de fé
mulheres em quem você entrava como
entrasse na mais grossa areia
mulheres com as quais sangrei a cada mês
mulheres...
vocês mulheres dão mais trabalho
do que assaltar um banco

pecinhas para uma tecnologia do afeto

Um balé
[eventualidade premeditada]
..
A atriz está sentada no colo da Pina Bausch. Não vamos chamar suas coreografias de coreografias. Chamemos de arbítrio.


eu me pergunto se esse poderia ser o texto único a
passar nas mentes da platéia
as pessoas que ali estivessem não conseguiriam pensar
coisas próprias e específicas e variadas, não
elas pensariam exatamente esse texto
ou um texto que descrevesse a minha dança com minúcia
detalhadamente

A bailarina está em cena. Seria um balé livre o dela, não fosse um balé intencional. É que não há liberdades para a intencionalidade, embora exista algo bem parecido com a liberdade, mas o nome que se dá é outro.

vendo que não posso me levantar daqui
porque o trauma dos últimos acontecimentos em mim
foi devastador a tal ponto que se a platéia ousasse
assumir para si o corpo rijo
torneado, suado e veloz do meu balé, eu ficaria bem satisfeita

Estamos escutando sua voz, e a voz não é livre, pelos mesmos motivos que a coreografia não é livre, a voz não é livre. Todavia, pode que o que a bailarina fala seja a música que a bailarina dança, ou não (arbítrio).

e por isso, para isso
eu poderia estar então em cena dançando
e não aqui sentada em rodas
mas dançando
que é o que na vida mais gosto
e enquanto eu dançasse palavras, frases
exatamente esse texto iria sendo escrito
a cada volta, salto
movimentos que estariam dizendo por mim

Um nome, isso, uma nomenclatura, ou mais do que isso, um conceito, isso, um conceito nos ajuda a definir a dança progressiva na qual atuará a bailarina. Ei-lo (o nome): estatísticas da contra-liberdade estática. É um nome-conceito e tanto, no mínimo eufônico.

vocês estão ouvindo essas potentes caixas
por onde a música dos meus pensamentos vai saindo de
dentro das trevas das minhas pernas entrevadas?
estão ouvindo?
estão!?
estão estão ESTÃO OUVINDO!!!?
EU QUERO ESTOURAR MINHAS PERNAS!!!!!

Nesse momento outra bailarina, ou um duplo dela mesma, está fugindo entre as pernas da platéia, enfiando-se nos fundilhos das calças dos homens, digo, em galerias de esgoto.

eu, quando danço, sou toda o meu oposto que é
quando não danço
porque uma cadeira não dança, não anda
a minha aerodinâmica não pactua
com a aerodinâmica dessa cadeira que, hoje
sou eu quando danço

Ela é uma heroína. Cruza a cidade de cabo a rabo, digo, a platéia, por seus subterrâneos. Entra em seus sentimentos, em seu universo subjetivo de platéia, de indivíduos sem salvação.

quando eu danço (mas já não danço) eu fatio as trevas
como fatiasse queijo e goiabada, ou a carne no açougue
para se estar sentada não são mais válidos
métodos e técnicas
a elegância é transitória
a minha dança está nessa brecha entre duas
elegâncias, duas belezas
a de tentar algum impulso e frustrar-me
e foi a falta de pudor que me trouxe a isso
a falta de lógica
ter calculado errado o que não deveria
chamar-se erro

Até que, feito uma rolha explodida, a bailarina sai de dentro daquelas pessoas, pela boca de um, pelo cu de outro, pelos poros de alguns, olhos, suor das axilas. Quando a bailarina sai da platéia por inteiro, a sala fica por alguns minutos aprisionando um silêncio irrespirável, até que borbulham palmas. Daí a bailarina se põem a contar quantas palmas soam, é o seu estudo das estatísticas da contra-liberdade estática. Como as palmas não cessam nunca, a bailarina volta a dançar grotescamente. E é óbvio que aquilo é um berro. E é óbvio que o berro grotesco do corpo da bailarina, principalmente de suas coxas e ventre, está dizendo quê.

as estatísticas contam
a história das estatísticas (aliás nem isso)
e não a história dos eventos da
humanidade

Mas ela se ferra com tal afirmação. Ninguém dá o mínimo de crédito para bailarina, porque ela ainda está dançando com intencionalidade como fosse um animal doméstico. Um animal doméstico feroz, é verdade, mas ainda assim um animal doméstico. Então a bailarina acaba que está mesmo aprisionada nesse esgoto. Tanto esforço e não houve pensamento de humanos que dançassem em comunhão com seu ocaso íntimo, pois toda a eventualidade fora premeditada. E os pensamentos dos humanos que a assistiram não puderam ser domados, nem libertadados, nem nada. As coisas permaneceram exatamente iguais. O tempo não passou, apenas os segundos passaram. Foi como se a beleza da ação houvesse funcionado como instrumento de tortura para aquela platéia que então se dirigia, cada um para sua casa, todos emancipados da insônia da bailarina e sua cadeira. A cadeira, da qual não sairá nunca mais.

Pensar que a cadeira é o colo de Pina Bausch é o que a faz prosseguir.
.
*essa é para Rúbia fazer